Logo Trip

Meu amor

Algo me diz que não mereço aquilo tudo

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

           Hoje amanheci de ?pé esquerdo?. Ao levantar, nem sei com qual deles pisei no chão. Mas, ao me colocar em pé, senti que dormi de mau jeito. Todo corpo doía ao mínimo movimento. Ao abrir a janela machuquei a mão naquele trinco velho, de casa velha, que já me pareceu feia também.


            E chovia. Aquela chuva toda que Deus mandava. Era um toró pesado, uma tromba de água. De certo, inundaria a cidade. Chegou a doer na alma. Sabia que teria que enfrentá-la para ir ao trabalho. E aquela cama tão quentinha… Pensei na capa, na galocha, no guarda-chuva, essas coisas tão anacrônicas.


            Pior é que sabia, de antemão, sairia todo molhado daquele confronto. Imaginei o indefectível resfriado. Lenços e lenços, e aquela meleca superincômoda a escorrer interminável… Tosse e garganta irritada. Corpo mole, dores, indisposição. Perguntava-me se a vida não podia dar uma puladinha em dias assim. Por que tanta humilhação?


            Lembrei do ônibus lotado. Aquelas roupas molhadas, corpos suados, e aquele cheiro de cachorro molhado. O empurra-empurra, o nervosismo de todos. Depois o trânsito enlouquecedor e todo aquele exercício de tolerância e paciência. Chegaria atrasado ao trabalho. Já presumia o olhar censor do chefe a cobrar pontualidade que o salário não compensava. Minha mesa atulhada de papéis e aquela burocracia esotérica aguardando minha definição. E eu não estava a fim de definir absolutamente nada.


            Com toda má vontade do mundo, deslizei até o banheiro. Cheio de frio, abri o chuveiro, esperando aquela água quentinha do carona amigo. Dei um salto que fui parar no meio do banheiro, qual fugisse de mil demônios. Um jorro de água gelada me atingira as costas. Amaldiçoei a resistência queimada com os piores nomes que me vieram à mente. Parecia uma entidade viva que me fizesse aquilo de propósito.


            Enchi-me de coragem e encarei a água fria gemendo e xingando ao mesmo tempo. Que monte de sacrifícios somos obrigados a fazer em nome da higiene! Fiz a barba, ainda xingando. Até o barbeador conspirava. Talhei meu rosto em diversos lugares. A loção pós-barba queimou feito ferro em brasa.


            Da parte de baixo da casa, evoluía um som querido. Até que enfim! Vesti o terno correndo e coloquei a maldita gravata, cujo nó jamais acertava. Corri para a cozinha como um rato atraído pela flauta mágica. Do fogão, recebo um sorriso radiante de mil volts. Derreteu meu mau humor em questão de milésimos de segundo.


            Humilde, esboço um sorriso do fundo de minha miséria humana. Aquele anjo moreno, cheio de pintinhas, larga suas ferramentas e, linda, qual volitasse, atira-se em minha direção. Brilha toda luz de seus olhos. É o meu amor! Pesam as lágrimas. Arde por dentro uma vontade de chorar e agradecer nem sei a quem, ao mesmo tempo.


            Seu encanto me resgata da condição masculina para a condição humana. Seus doces beijinhos esparramam-se pelo meu rosto. Fico melancólico. Algo me diz que não mereço aquilo tudo. Aquele sol cálido de amor era demais para mim. Ah! Eu, esse bronco homem das cavernas…


            Bem, mas, enfim, havia aquele calorzinho gostoso; aquele perfume suave, embriagante; toda aquela maciez e aquele tesão. Era real e era minha mesmo aquela riqueza. Só me restava reinar. Apertei mais forte e ouvi um suspiro de prazer que aumentou minha sensação de estar em outra dimensão da vida. Meu pau parecia uma pedra.


            Peguei aquele rosto tão amado, olhei o fundo daqueles olhinhos. Recebi uma lufada de amor que chegou a bambear minhas pernas. Como eu amava aquela mulher! Soltei toda minha alegria de lázaro redivivo e beijei aqueles lábios generosos, cheio de prazer. Voei e velejei. Fui ao encontro de nuvens e azuis prateados das ondas quebrando na praia. Eu a amava desesperadamente.


            Não era só felicidade. Era uma superinjeção de milhões de megawats na motivação de minha vida. Sentei-me à mesa. Claro, com meu amor ao colo. Senti aquelas mãos finas de pluma passear em meu rosto áspero e cheio de cortes coagulados. Seus olhos eram de peninha de mim. Por um instante, desejei ter cortado a cara de alto a baixo para merecer mais daquele carinho, daquele cuidado todo.


            Aproximou a boca de meu ouvido e, com sua vozinha modulada, sussurrou que me amava. Arrepiou-me da cabeça aos pés. Uma onda de calor se instalou em minha nuca. Era muita areia para meu carrinho de mão. Felicidade demais. Suas palavras me apalpavam, sensíveis. Abriu o sorriso mais encantador. Havia malícia também, com a perna massageava meu pau. Agarrei seus seios já ensandecido de amor e desejo. Eu a queria, meu Deus, como a queria…


              Mas o meu bichinho sardento ficou esperto. Pulou do meu colo, saiu saltitante e leve para o fogão. Seu olhar brilhava intensamente. Estava preocupada em preparar o meu café e que eu não perdesse a hora. Fiquei olhando seu corpo magro e gracioso movendo-se da pia ao fogão e vice-versa. Seu sorriso brejeiro de menina levada a preparar surpresas.


            Sua bundinha pequena, mas atrevida, parecia ter vida própria ao meu olhar. Lembrei do imenso tesão que fora nosso amor à noite. Ah! Era uma ferinha essa minha mulher! Quase me matara de tanto prazer.


            Então percebi que ela estava falando. Era sobre seu trabalho de terapia corporal, TVP, e toda luta dela em ajudar seus clientes. Estava profundamente comprometida com os problemas das pessoas que a procuravam. Era muito interessante tudo o que contava.


            Ela havia me ensinado o suave prazer de atuar e participar da vida dos outros. Sua generosidade me emocionava e me deixava de joelhos, a admirá-la. Eu, que já morri de tantas mortes, hoje sei, só vou morrer mesmo depois de mim. O meu anjo moreno me salvará sempre.


            O café foi servido com fumaça, queijo, torrada, pão, leite, sorrisos e apetitosos beijinhos. Nada é mais sadio e gostoso do que a alimentação servida aos beijos e afagos. Por mais simples e humilde que seja. Ficaria horas ali comendo e namorando e me tornaria uma baleia. Mas havia o trabalho e ela tinha tudo cronometrado. Minha pasta e meu lanche me esperavam. E já sabia, no fundo do saquinho do lanche, haveria alguma mensagem amorosa. Nós não cessávamos de nos transformar um no outro. Os momentos eram o preenchimento do ser amado que compúnhamos, além de nós mesmos. 


            Na porta, o meu amor me grudou. Sugou minha boca, apertou-me contra si, como a querer reter-me para sempre. Seus olhinhos já eram de saudade. Como era difícil me separar daquele meu mundo de prazer e delícias…


            Só então reparei que a chuva passara. O sol começava a aquecer de cor a vida. Caminhei para o ponto de ônibus amando a vida e as pessoas. Só então reparei o quanto era feliz. O quanto a vida havia sido boa para mim. Deu-me uma pena daquelas pessoas com suas carrancas matinais… Meus olhos nublaram. De certo não possuíam um amor como o meu. Senti todo o ridículo de meu aborrecimento ao me levantar.

            Olhei o céu azul com nuvenzinhas brancas a passear e agradeci a Deus, do mais profundo do meu ser, pelo bem infinito que me presenteava. Prometi dedicar-me aos esforços de ser melhor, para merecer e ser digno do meu amor. 

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon

LEIA TAMBÉM