Logo Trip

Meninos que amam

O desejo sexual na cadeia

em 21 de setembro de 2005

COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon


Aquele era um buraco no qual eles eram minimizados em suas vidas. Buraco que, por mais que se esforçassem, não cabiam dentro. A lembrança do mundo, construída na imaginação, empolgava seus corações adolescentes. Tudo que lhes importava de verdade faltava. Embora nada lhes faltasse para a sobrevivência física.


Aquele mundo os espremia, doía a cada segundo. Sombra do que haviam sido, seus gestos não eram reais. Tudo vagava perdido e confuso. Um calor ardente queimava e melava a pele. Aquilo mais parecia uma curva por onde escorregavam molemente as horas.


A vitalidade sexual processava ansiedade de cada uma de suas moléculas. Eram jovens e a adrenalina forcejava em suas veias intumescidas. Presos por delitos graves, enfrentavam conseqüências gravíssimas. Resistiam alongando tendões, embora sangrassem desatinadamente. Subordinavam-se ao despotismo dos policiais, anulando-se para ressurgir sempre, clandestinamente.


O sexo, como a vida, lhes brotava em gotas de suor a encharcar seus uniformes de brim grosseiro. A pele estava curtida na escravidão da enxada, picareta e enxadão. Suas caras viviam afogueadas de desejos insaciados. Olhos de fogo devoravam os garotos menores, de bundinhas rosadas. No silêncio inteiro exigido a ferro e fogo, as vidas eram afogadas em melancólicas tristezas. As mãos socavam o saco, minando as energias nas noites maldormidas.


Debaixo de segredo, eles se desejam. Um amor, que não era ainda, os envolvia e dominava. Apaixonados, sedentos do calor e dos olhos amorosos do outro, eles se escondem. Ninguém poderia saber. Os guardas os espancariam e os jogariam na cafua, depois meses sem fim na cela forte.


Temiam as desumanidades dos policiais e a escuridão da cafua. Mas temiam muito mais a censura e o preconceito dos companheiros. Seriam escorraçados do convívio. Humilhados barbaramente e para sempre. Nunca mais seriam considerados iguais. E a caminhada, eles sabiam, não parava ali.


Consideravam-se criminosos. Estavam cooptados pela cultura criminal nascida, naturalmente, nas instituições para menores de idade infratores do Estado. Aquela era a única defesa: a promessa cravada no fundo da alma de que alguém haveria de pagar por toda aquela dor. Aquele ódio aos ‘otários’, ao ‘Zé povinho’, os unia e gerava forças a tudo resistir. O futuro era negro. Prisão e morte eram o destino. Estavam em guerra contra o mundo, particularmente contra a polícia. Criavam feras em jaulas e nem sabiam.


Os riscos eram imensos. Mas aquela vida pela metade, cortada por desejos insatisfeitos, já era impossível dali para a frente. A vontade desesperada os movia e encadeava. Havia um delírio que os extraia da dor, misturando suas almas na febre dos olhares. Namoravam-se longamente, embora conversassem pouco para não despertar suspeitas. Escreviam cartas, criavam códigos e se liam quando fingiam usar o banheiro.


Toda a emoção que os sufocava no silêncio, os tornava vivos também, naquele mundo de zumbis emocionais. Procuravam os cantos, suas mãos tremiam de ansiedade pela carne do outro. Os lábios ficavam moles na presença. Roçavam-se nas filas, pegavam-se e viviam de pau duro a masturbarem-se em fantasias.


Sonhavam um com o outro e procuravam dormir em camas próximas para tomarem banho juntos. Os banhos eram coletivos em uma ducha enorme. Os guardas vigiavam, os companheiros cuidavam das vidas uns dos outros. Quando conseguiam ficar próximos e nus, tinham que esconder a excitação. Enxugar disfarçando e sair do banheiro com a toalha na frente.


Não agüentavam mais. Necessitavam o real. Tudo resvalava e se esvaia nos olhares, nas passadas de mão e nos roçados. Eles se queriam e estavam dispostos aos riscos. O desejo pulsava, havia um calor úmido na boca, as emoções estavam transparentes e já não ligavam mais para a reputação. A proteção mútua com que se cercavam ruía. O caminho era inevitável, mesmo que custasse tudo.


Havia um jeito. Era possível burlar a vigilância e se darem um ao outro. De madrugada, quando até o guarda do alojamento dormia, tentariam. Combinaram: se não desse certo, fugiriam juntos.


Alta madrugada, os corpos escorregam para baixo das camas. Tudo era decisão na noite calada. Nas pranchas de madeira do assoalho irregular, o medo e aquilo que não espera se misturam. Não há carícias na urgência. É um jogo de homens. Exprimem apenas o impossível de exprimir. Esguios em seus corpos juvenis, sofrem e se angustiam na posse de toda aquela natureza comovente. O susto e o receio os excitam ao extremo, foram se soltando e cedendo. Tudo era para ser aceito, não compreendido.


Varridos pelo abismo do prazer que apontava o infinito, libertam a grande pressão. O deserto de suas almas se enche da solidão universal. Já não bastava a realidade, não havia mais chance ou ocasião a perder.


E, quando voltaram às suas camas, tudo mais era sucata do passado. Que decisão tomar? Depois da pequena morte, havia uma outra forma de considerar todas as coisas. Nada mais era implacavelmente necessário do que construir para sempre o que foram por segundos. Queriam a intimidade mais aberta e a entrega mais completa. Precisavam uma intervenção direta na invenção do futuro.


Por enquanto eram insuficientes e incompletos. Estavam surpresos. Não conseguiriam mais ir além sozinhos. Somente com o outro havia significado. Não havia mais lembranças ou previsões. Queriam o mundo nas mãos e não podiam interromper mais.


De manhã cedo saíram os dois do alojamento com as fotos e os objetos mais queridos. Enquanto os outros meninos tomavam o café-da-manhã para seguirem para a lavoura, escoltados pelos guardas, eles pulavam o muro atrás da cozinha e corriam pelo pomar. Aquela era uma forma de amar que valia a pena.


COMPARTILHE facebook share icon whatsapp share icon Twitter X share icon email share icon