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Limites

O inferno é a ausência dos outros

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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Vivemos lutando contra pessoas qual elas fossem nossos limites. Tentamos escapar dos outros para preservar nossos sentimentos, nossos tesouros. Como se, aceitando alguém, estivéssemos abrindo brechas em nossa segurança pessoal.

Amar ou simplesmente gostar de alguém parece, agora, significar dor, perder-se de si. Tanto sofremos e fomos batidos pelos aprendizados de nossas vidas, que hoje evitamos expor nossos sentimentos. Foram tantos os abandonos, as decepções e os ridículos que vivemos na tormenta existencial e tudo conhecemos, exceto a paz.


E, no entanto, me parece que somos imensos demais para nos bastarmos a nós mesmos. E que para superarmos as contradições que nos são próprias, em vez de afastamento, carecemos ligar todas as forças de nossas vidas às forças dos outros.


Houve quem escrevesse que o inferno são os outros, tentando fazer entender que a relação com os outros inferniza nossas vidas. Eu já escrevi que, se o inferno são os outros, o céu também são eles mesmos. A relação com a outra pessoa pode ser tão prazerosa e feliz, que pode nos trazer o paraíso. Hoje ultrapasso tais conceitos ao avaliar que o inferno é a ausência dos outros.


Assim como as pessoas nos decepcionam, nós também as decepcionamos. Nós também ferimos e magoamos. Há um escritor que afirma que esses são fatos de nossa condição humana. Acrescento que a compreensão, mais que o perdão, existe para que possamos ter consciência do outro lado da moeda. Ou seja, nós também trazemos alegria, amor e felicidade. Cada um de nós, o outro também.


Nascemos dos outros. Aprendemos quase tudo o que sabemos (a falar, comer, vestir, ler, escrever, por exemplo) com os outros, mas não sabemos o valor de coexistirmos com as pessoas. É o outro que nos transmite a condição humana. Parte essencial de nós é cultura humana; o que os outros fizeram antes de nós e nos legaram. Somos herdeiros de toda a raça humana que existiu antes de nós. Somos um imenso reservatório do passado, um trabalho que se realiza na atualização de tudo que existiu antes de nós.


O que pode haver de mais íntimo e profundo em cada um de nós, são os sentimentos daqueles que nos amam. Esse é o nosso maior tesouro. No livro O Poderoso Chefão, quando alguém fala a Dom Corleone que ele é rico, o poderoso homem responde que não; não é rico, e sim possui muitos amigos. Quer dizer que riqueza amoedada não possui tanto valor. Já houve quem dissesse que a traça come e a ferrugem destrói. O que importa de verdade são contatos e boas relações. O que fica para nós quando morremos, além dos sentimentos que cultivamos nas pessoas?


O que seria de mim se não houvesse pessoas que acreditassem em mim e me apoiassem em minha readaptação ao mundo social, após 31 anos de prisão? O meu limite não está nas pessoas. A outra pessoa é aquela que me chama para além dos meus limites individuais, amplia, expande e significa meu espaço. Nossa vida não é uma conquista solitária. Antes é uma aventura coletiva no universo.




 


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