por Marcos Candido

O Kebra Ethiopia Sound System não é só uma festa com caixas de som gigante - é uma forma dos moradores da África do Sul afirmarem seu espaço

Dançar ao som do reggae no Kebra Ethiopia Sound System, na África do Sul, é mais do que ir a uma festa convencional. Não é preciso ingresso; o evento nunca teve larga divulgação ou agenda definida. Para participar basta se aproximar de uma das gigantes caixas de som do Kebra e dançar. São passos para frente e para trás, cujos pés podem bailar durante todo o dia, às vezes até o anoitecer.

Criado em 2003 na comunidade de KwaThema, periferia de Joanesburgo, o Kebra Ethiopia Sound System consiste em uma festa embalada por grandes caixas de som que tocam reggae. O público é formado por moradores da região, que costumam ir à festa para receber (ou fazer) doações de livros, alimentos ou roupas.  “KwaThema, como em  inúmeros outros guetos, é um lugar complicado”, explica ‘sister’ Ethel Laka, sul-africana de 35 anos que, ao lado do DJ Doc Inity, agita as picapes do Kebra. “Consequentemente, a música esclarece, pensa e decodifica o que significa viver nessas circunstâncias”, diz.

VEJA TAMBÉM: As batidas aceleradas e vocal poderoso do dancehall

A fala de Ethel tem lastro: nos quase 50 anos de Apartheid o reggae sofreu com a censura imposta à letras 'provocativas' de qualquer ordem - o espaço da população negra foi limitado e ainda relega dificuldades sociais aos mais pobres. Dessa forma uma ‘simples’ caixa de som uma dança, aberta e coletiva, conseguem enfrentar o que leis já tentaram proibir. “Ter um sistema de som significa sempre trabalhar com a comunidade. É um espaço de lazer, encontro, meditação e reafirmação da luta diária pelos direitos e por uma vida mais justa”, explica Miguel Perez, fundador do DubVersão,  grupo de sound system brasileiro na mesma linha do Kebra.

play

Nos últimos anos, Perez e conjuntos de reggae do Brasil passaram a trazer o Kebra para tocar em espaços de São Paulo. No YouTube e nas redes sociais é possível acompanhar as turnês brasileiras do Kebra ao lado de imagens da empoeirada KwaThema, na África. “[Ter um sistema de som] representa essa possibilidade de liberdade, de ter uma rede de interdependência e uma cultura transnacional”, explica Perez.

‘Sister’ Ethel do Kebra é tatuadora e nascida em um dos guetos que cortam a cidade sul-africana. Ela conheceu Inity em uma sessão do Kebra, e se tornou parceira e fã das “boas energias” que emanavam daqueles festejos em público. “Nós nos reunimos e concluímos que precisávamos ser ainda mais escutados”, explica Ethel à Trip. “E um sound system era a melhor maneira de fazer isso”.

play

Junto ao DJ, a sul-africana foi atrás de profissionalizar o equipamento que, até então, era alugado a duras penas. Ficaram mais audíveis, é verdade, e as viagens do grupo o fizeram compreender que o horizonte empoeirado de KwaThema existe onde quer que existam desigualdades sociais. Foi no Brasil, país que reconhece ser vastamente influenciado pela cultura africana, que encontrou a similaridade no jeito de viver, e ser recepcionado por “pessoas calorosas” que também enfrentam uma árdua realidade social. “Não demorou para percebermos que os problemas sociais que existem no Brasil”, diz. “A pobreza tem cor: preta; como em nossa terra natal”.

matérias relacionadas