Kebra Ethiopia é o pancadão de Joanesburgo
O Kebra Ethiopia Sound System não é só uma festa com caixas de som gigante - é uma forma dos moradores da África do Sul afirmarem seu espaço
Por Marcos Candido
em 24 de junho de 2016
Dançar ao som do reggae no Kebra Ethiopia Sound System, na África do Sul, é mais do que ir a uma festa convencional. Não é preciso ingresso; o evento nunca teve larga divulgação ou agenda definida. Para participar basta se aproximar de uma das gigantes caixas de som do Kebra e dançar. São passos para frente e para trás, cujos pés podem bailar durante todo o dia, às vezes até o anoitecer.

Criado em 2003 na comunidade de KwaThema, periferia de Joanesburgo, o Kebra Ethiopia Sound System consiste em uma festa embalada por grandes caixas de som que tocam reggae. O público é formado por moradores da região, que costumam ir à festa para receber (ou fazer) doações de livros, alimentos ou roupas. “KwaThema, como em inúmeros outros guetos, é um lugar complicado”, explica ‘sister’ Ethel Laka, sul-africana de 35 anos que, ao lado do DJ Doc Inity, agita as picapes do Kebra. “Consequentemente, a música esclarece, pensa e decodifica o que significa viver nessas circunstâncias”, diz.
VEJA TAMBÉM: As batidas aceleradas e vocal poderoso do dancehall
A fala de Ethel tem lastro: nos quase 50 anos de Apartheid o reggae sofreu com a censura imposta à letras ‘provocativas’ de qualquer ordem – o espaço da população negra foi limitado e ainda relega dificuldades sociais aos mais pobres. Dessa forma uma ‘simples’ caixa de som uma dança, aberta e coletiva, conseguem enfrentar o que leis já tentaram proibir. “Ter um sistema de som significa sempre trabalhar com a comunidade. É um espaço de lazer, encontro, meditação e reafirmação da luta diária pelos direitos e por uma vida mais justa”, explica Miguel Perez, fundador do DubVersão, grupo de sound system brasileiro na mesma linha do Kebra.
Nos últimos anos, Perez e conjuntos de reggae do Brasil passaram a trazer o Kebra para tocar em espaços de São Paulo. No YouTube e nas redes sociais é possível acompanhar as turnês brasileiras do Kebra ao lado de imagens da empoeirada KwaThema, na África. “[Ter um sistema de som] representa essa possibilidade de liberdade, de ter uma rede de interdependência e uma cultura transnacional”, explica Perez.

‘Sister’ Ethel do Kebra é tatuadora e nascida em um dos guetos que cortam a cidade sul-africana. Ela conheceu Inity em uma sessão do Kebra, e se tornou parceira e fã das “boas energias” que emanavam daqueles festejos em público. “Nós nos reunimos e concluímos que precisávamos ser ainda mais escutados”, explica Ethel à Trip. “E um sound system era a melhor maneira de fazer isso”.
Junto ao DJ, a sul-africana foi atrás de profissionalizar o equipamento que, até então, era alugado a duras penas. Ficaram mais audíveis, é verdade, e as viagens do grupo o fizeram compreender que o horizonte empoeirado de KwaThema existe onde quer que existam desigualdades sociais. Foi no Brasil, país que reconhece ser vastamente influenciado pela cultura africana, que encontrou a similaridade no jeito de viver, e ser recepcionado por “pessoas calorosas” que também enfrentam uma árdua realidade social. “Não demorou para percebermos que os problemas sociais que existem no Brasil”, diz. “A pobreza tem cor: preta; como em nossa terra natal”.

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