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Inconseqüência

Não querer se preocupar com o espaço social em que estamos inseridos é o pior dos males

em 17 de outubro de 2005

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Do que tenho me informado em minhas andanças por aí, é que, relacionado ao crime, às drogas e ao problema do menor infrator ou abandonado, as pessoas não sabem de nada e não querem saber. Protegem-se com seguranças armados, altos muros cercados com farpas de aço ou arames eletrificados e, aqueles que podem, com carros blindados. Para se ter uma idéia, as empresas especializadas em blindagem de veículos estão com suas agendas de trabalho preenchidas até o fim do ano.

A chamada "vida louca" do crime, das drogas e da delinqüência juvenil é desconhecida. Porque nada se sabe, aqueles que orientam a opinião pública desconhecem sobre o que falam. Porque não sabem, emitem opiniões distorcidas por preconceitos, invenções e criações destituídas de veracidade. Como ninguém sabe, a verdade não é cobrada.

Alguns desses "formadores de opinião" são baluartes da ignorância e da apelação. O Ratinho, por exemplo, ganha mais de um milhão de reais mensais, faturando em cima de anomalias e incentivando a agressividade física e verbal, vangloria-se, em pleno horário nobre, de jamais haver lido um só livro em toda sua vida. É um acinte, uma grande agressão social. Um crime dos mais violentos de que tive notícia.

Essa parte de não saber, é possível resolver. As pessoas envolvidas ou que já foram vítimas de tais mazelas sociais estão ganhando espaço na mídia e vão falar, esclarecer. Livros serão escritos a partir daqueles pioneiros que obtiveram relativo sucesso. Antropólogos, sociólogos e estudiosos de problemas sociais, com o tempo, terão suas teses e idéias confirmadas pelos fatos. Para quem não sabe, o querer saber será suficiente.

O problema está naqueles que não querem saber. Não querer se preocupar com o espaço social em que todos estamos inseridos é o pior dos males. É delegar poderes absolutos a pessoas interessadas em manter as coisas como estão, porque está bom para elas. Caso contrário já teriam dado um jeito. O dramaturgo alemão do século 20, Bertold Brecht, dizia que a miséria e a desgraça não vêm como a chuva que cai do céu, e sim através daqueles que tiram lucro com isso.

Pagamos impostos caríssimos. Segundo os meios de comunicação, estão entre os mais caros do mundo. A mim é descontado na fonte, não me dão chance sequer de sonegar. Cerca de 17%, fora o IPTU, ICM, ICMS inseridos em todos produtos que adquiro e outros que desconheço. Ainda estou aprendendo a viver em sociedade, embora esteja há mais de um ano aqui fora, solto.

As pessoas que dirigem a administração dessa verba gigantesca são servidores públicos. Estão lá colocados, em sua maioria, em cargos de confiança (essa excrescência no sistema administrativo brasileiro) ou são funcionários de carreira (raros), para servir àqueles que pagam seus salários com os impostos. Jamais devemos perder essa realidade de vista.

É necessário querer saber. Procurar inspecionar e se informar como é gasto o dinheiro dos impostos. Como são geridas as instituições públicas. Caso contrário, o acomodamento à lei do mais fácil, do menos trabalhoso, é que vai decidir o que e como fazer (ou não fazer). Já diziam pensadores que o poder corrompe e que o poder absoluto corrompe absolutamente.

Claro que a impossível honestidade, e a irrealizável dignidade, é sempre ultrapassável. O homem é transcendência, uma liberdade a se realizar, um vir a ser, como diriam os existencialistas. Vivemos a sobrepor obstáculos, mesmo que lenta e paulatinamente. A história da humanidade disso nos convence. Claro, meio que na marra, premidos pelas circunstâncias. Nada nos vem de graça, tudo que realmente tem valor nos custa o mais caro que podemos pagar. Quiçá para que valorizemos nossas conquistas.

As coisas, tais como julgamos conhecer, vão nos prendendo e dominando aos poucos, lentamente. Exatamente na proporção em que desconhecemos e principalmente não querermos saber. As dores vão sendo distribuídas em todos os décimos de segundos de nossas vidas, carregando nossas horas de gravidade e sofrimento. O que antes era felicidade passou a ser momentos felizes. Agora parece que tudo se inverte de vez: pensamos em infelicidades e momentos não infelizes.

O pior é que não sabemos e nem queremos saber. Quando aprendermos e então quisermos saber, poderá ser tarde. Nossos filhos já estarão viciados, nossas casas invadidas e nossas pessoas ameaçadas pela morte mais estúpida, como naquele poema imputado a Maiakovski mas que é do nosso grande poeta Eduardo Alves da Costa.

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