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Guerra dentro

Moro num xadrez com mais 11 companheiros de prisão. E constato: é terrível viver sem a solidão

em 21 de setembro de 2005

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    Conheço a solidão. Essa solidão onde o tempo escorre. A vida que às avessas parece se alongar ao fundo do tempo. Estive, em 1973, jogado em uma cela forte. Isolado, o mais absolutamente sozinho possível, por quase um ano. De repente, uma dessas aranhas caseiras veio morar comigo. Lá no canto do teto. Escura, cheia de pelinhos e perninhas. Um monte de olhinhos atrás e na frente. Dos buraquinhos na chapa de ferro que bloqueava a janela, adentravam moscas. Ela caçava. Tonteava e jogava no mesmo lugar de sempre. Ela descia, ciente. Às vezes por um fio quase invisível. Outras, rápida e espertíssima, pelas paredes. Vinha até perto de meu colchão. Olhava, dava umas corridinhas em minha frente. Mexia comigo. Quando sentia segura, começava o ritual de ataque. Rodeava a presa, que tentava escapar. De repente, pulava em cima, como uma onça. Envolvia o inseto em fios invisíveis até torná-los visíveis pelo volume. Levava-o para sua casa e pendurava na despensa.
   Essa aranha, por quase dois meses, foi minha companheira naquelas horas extremas. Graves. Era um ser. Um constante diálogo comigo mesmo. Era vida. A solidão doía, machucava. Não sabia lidar com ela. Noites em que as luzes eram apagadas e o escuro tornava tudo mais distante. Ouvia o grito das corujas em seus vôos rasantes, caçando ratos no pátio. Era um gesto de solidão no ar, pulsando. No pensamento, um desafio de caminho, um encontro solitário como impossível futuro.


Estar só
   Eu era jovem e tinha muito medo. Pavor de estar só, isolado no mundo. E, de repente, despreparado, via-me ali, o mais isolado dos seres humanos. Chorei imensas noites. As madrugadas solitárias demoravam séculos. Até que a mão iluminada da manhã afogasse a vida, suavizando… Dias de muito sofrimento em que eu ouvia meu pensamento, espremido entre a revolta e a autocompaixão. Quanta dó tinha de mim mesmo! Sentia-me tão oprimido…
   Mergulhava no mundo dos sonhos da imaginação. Masturbava-me qual um macaquinho. Os dias e as noites não passavam. O tempo parecia parado no fundo de um relógio sem ponteiro. Mas adaptei-me, como sempre. Aprendi a conversar comigo mesmo e depois fui descobrindo meios. Ouvir a voz humana era um tesouro incalculável. Um privilégio.
   Hoje, 30 anos depois, estou morando em um xadrez em que convivo com mais 11 companheiros de prisão. E, como uma dor esquecida, a surpresa acontece. Constato que é terrível viver sem a solidão.


Som de silêncio
   A impossibilidade de estar feliz, sozinho, de estar consigo mesmo, é desagregadora. Hoje estar só é estar feliz, por pior que seja. Quando abre a porta do xadrez de manhã, corro para o pátio. Ando sozinho qual fizesse uma prece que não precisa ser dita. Corro em volta do pátio até extenuar. Penso muito, correndo. Preciso da eqüidistância para ser além de estar.
   Às vezes, acordo na madrugada e mergulho na solidão noturna, cheia de derradeiros grilos. Amo o som que fazem. Som de silêncio. Penso na mulher amada e em seus beijos cheios de estrelinhas. Então vou para o banheiro, sento-me na privada e me ponho a ler. Todos dormem. Que delícia! São instantes mágicos em que me sinto um pouco livre. Agora solidão me fala da brevidade ou então da eternidade da vida. O coração pulsa lentamente.
   Escrevo quase o dia todo. Concentração é solidão. Escrevo estar só, também. Após com meus personagens, minhas idéias e ideais. Tudo tem a ver com até onde sou. Onde termino e começa o outro. Convivo até bem com os outros. Transito bem no ambiente duro em que vivo. Mas preciso do desconhecido. O que em mim e no outro não conheço. Escrevo para estar só com você que me lê. Ler, como escrever, são movimentos solitários em que mais nos envolvemos com os outros.

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