por Guilherme Henrique

Um dos oito filhos de Gilberto Gil, Bem produziu o novo álbum do pai, está trabalhando em um disco de inéditas de Mautner e interpretando Jorge Ben ao lado do filho, Bento

Bem Gil, um dos oito filhos de Gilberto Gil, é aficionado pelo trabalho do pai, especialmente pela década de 1970. As apresentações na Universidade de São Paulo (USP) e no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro, ambas em 1973, serviram de inspiração para o novo disco de Gil, intitulado Ok, Ok, Ok e produzido por Bem. “Aquilo é uma força da natureza, com tudo muito espontâneo”, diz o filho. Essa espontaneidade foi resgatada em estúdio.

O disco surgiu sem nome ou mote, algo raro na carreira de Gilberto Gil. “Não vou falar por ele, mas, como parceiro, sinto que meu pai já não se relaciona com o álbum em si, mas com a ideia da canção. Antes de gravarmos, ele disse que não queria fazer show desse álbum, por exemplo. O Ok, Ok, Ok nasceu porque ele compôs, em 10 dias, metade das músicas. Reunimos essas faixas com outras já feitas e, durante gravação do disco, ele produziu mais três ou quatro. Eu ajudei a transformar isso em um álbum, porque ele estava passivo nesse sentido”, revela.

Ao lado de Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti, parceiros de outros carnavais, Bem sintetizou as vontades do pai no que ele diz ser um trabalho minimalista, mas carregado de criatividade. “Ele chegava no estúdio com a harmonia e fazia o violão ao vivo, enquanto acompanhávamos para aprender a música. Só consegui produzir esse disco nesse contexto por causa do Bruno e do Domenico. Eu sei que vou entrar com o Gil no estúdio, sem pré-produção, e nós vamos conseguir traduzir aquilo em pouco tempo”, pondera.

Em 15 faixas, Gil narra os efeitos físicos e psicológicos das intervenções médicas dos últimos anos (“Quatro pedacinhos”), o crescimento do clã (“Sol de Maria” e “Sereno”), uma homenagem ao violonista Yamandu Costa (“Yamandu”), uma nova dobradinha com o amigo João Donato (“Uma coisa bonitinha”), entre outros temas. O momento político do Brasil também se fez presente, ainda que sem intencionalidade. “Fazer política para o meu pai está na maneira como você lida com os seus familiares, com a sociedade, no seu cotidiano”, comenta Bem Gil. Faixa que dá nome ao álbum, Ok, Ok, Ok foi a última canção a ser gravada e a primeira a ser lançada nas plataformas digitais. “Ela ganhou essa dimensão por ser mais direta, mas é uma resposta sem teor de slogan, campaha ou militância”, completa.

Ao longo dos últimos anos, Bem tem restaurado álbuns raros de Gilberto Gil ao lado do pesquisador e produtor Marcelo Fróes. “As apresentações, os registros ao vivo, especialmente os da década de 1970, captam a personalidade artística dele”, comenta.

 Um tio chamado Jorge Mautner

Bem Gil convive com Jorge Mautner desde criança. “Ele talvez seja, dos amigos do meu pai, o que está mais presente em nossa casa. Até mais que o Caetano”, conta. Gilberto Gil e Mautner se conheceram durante o exílio em Londres, no início da década de 1970. “Ele é uma espécie de tio, a filha dele (Amora) está sempre por perto”, diz Bem.

Profissionalmente, a parceria entre Bem e Mautner ganhou força em meados de 2013, após a morte do músico e compositor Nelson Jacobina, em 2012. “Um dia o produtor do Jorge me ligou perguntando se a Tono (banda composta por Ana Lomelino, Bruno Di Lullo, Bem Gil) não poderia ajudá-lo em uma apresentação. Não só aceitei como disse que poderíamos ser a banda dele, caso precisasse. Eles toparam e, desde então, estamos juntos”, explica.

No começo do ano, um sonho fez com que o projeto para um álbum de inéditas de  Mautner ganhasse, enfim, corpo. “Desde que começamos a acompanhá-lo pensamos em fazer um disco novo, mas acabávamos procrastinando. Mas em janeiro o Bruno me ligou e falou de um sonho estranho com ele... O Jorge já havia sofrido um infarto, em 2016. Resolvemos parar de adiar e, no dia seguinte, fomos à casa dele”, revela.

Previsto para o início de 2019, o álbum terá 16 faixas, diz Bem Gil. “Vamos mixar nesse semestre. São músicas inéditas que ele fez ao longo dos últimos anos com alguns parceiros, incluindo eu e o Bruno. O disco está lindo”. Intitulado Não há abismo que o Brasil não caiba, o projeto tem viés político, mas também de resgate das potências culturais do país.

“O disco fala de tudo, mas está baseado no discurso de que o Brasil é esse lugar que incorpora a esperança de renovação da humanidade enquanto sociedade civil. São potências culturais, espirituais, e que, para o Mautner, o Brasil é o lugar onde isso está mais bem acabado e representado. É sobre a potência do povo brasileiro”.

 Para cantar Ben, uma parceria com Bento

Enquanto produzia com o pai o OK, OK, OK e também os show de comemoração do aniversário de 40 anos do disco Refavela, e encaminhava o futuro musical de Jorge Mautner, Bem Gil também esteve por trás do mais recente show de Adriana Calcanhotto (A mulher Pau-Brasil), e do novo álbum de Roberta Sá, que reúne onze músicas compostas por Gilberto Gil e deve ser lançado no ano que vem. 

“Durante os shows do Refavela, o Dom, que é meu filho do meio, entrou para o negócio. Aconteceu de forma muito natural,  às vezes dançando ou tocando um instrumento. Senti vontade de me aproximar do meu filho mais velho, Bento, que já toca, canta bem e é afinado”, explica.

Nasceu então um novo projeto: Bem e Bento cantam BEN. Com apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, a dupla interpreta músicas do álbum Ben, de 1972, de Jorge Ben. "O Circo chegou", "Fio maravilha", "Paz e arroz" e "Taj Mahal" estão no repertório. "Ele toca violão pra tirar uma música, sem compromisso com didática. O Bento é um adolescente, uma criança, então ainda dá pra fazer uma coisa meio sala de casa. Pode ser que no futuro ele fique tímido, com vergonha, por isso quis aproveitar essa juventude. É um barato”, finaliza Bem Gil.

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