Por Redação
em 29 de setembro de 2005
Como pode um homem aprisionado confiar na sociedade e na vida legalizada, de trabalho e suor? Claro, não permitem que jornais adentrem nos presídios. A desculpa é esfarrapada. A negativa vem desde a época da ditadura. Esqueceram da anistia para os presos comuns também. Mas as televisões estão lá, gloriosamente iluminando as celas. Se bem que também não se aproveite grande coisa, mas não há censura e daí o preso fica sabendo. Claro, o sentenciado tem visitantes, pessoas que o amam e que cuidam dele. E esse é o canal mais fidedigno de informações, aquelas do coração.
Faz mais de mês que não se pode abrir mais um jornal. É sempre a mesma conversa. Mensalão; corrupção nos correios; propinas, muita gente graúda envolvida e no meio a figura daquele que para mim era a única figura merecedoras de estar onde estava. O Lula. Gosto dele, amei esse cara e acho que ainda amo porque sentimentos são emoções eternas. Olho sua figura tentando explicar, pedir desculpas pelos outros, perdido no meio da avalanche que ameaça afogá-lo.
Os meios de comunicação, supermotivados, dão cobertura total e absoluta sobre os eventos. Quase um show com pirotecnia e outros bichos. Parece que gostaram, confirmaram-se suas previsões sobre o que iria acontecer. O encarcerado olha isso com extrema tristeza. Porque perde a confiança naqueles que são encarregados por lei a gerir sua sentença. Suas esperanças de conseguir algum benefício jurídico diminuem sensivelmente. Sua segurança é abalada e a neurose ataca (preso não tem depressão; tem neuroses).
O sofrimento avança e se expande em todas as dimensões de sua existência. Seus filhos terão maior dificuldade na luta pela sobrevivência e sua companheira, coitada, vai ter que agüentar uma carga ainda maior do que já suporta. Estar à disposição de pessoas e perceber que essas pessoas não têm capacidade, senso de realidade e equilíbrio necessários, faz com que qualquer um se preocupe.
Procuramos alguma coerência nos fatos. Claro, o PT tinha apenas 18% dos deputados da Câmara. Precisava efetivar alianças para governar. Mas os aliados possíveis pelo convencimento eram poucos. Os demais queriam vantagens. Negociar e costurar essas vantagens é o trabalho do líder de cada bancada. Antigamente entravam cargos, comissões, pontes, estradas, dinheiro, escolas, e mais um monte de coisas nessas "negociações" (diz Millôr Fernandes que o crime não compensa, quando começa a compensar, muda de nome).
Pensando essas "negociações" estarem já na lista das atuações possíveis, institucionalizadas pelo costume, os líderes imaginaram algo grande. Não sei que pensador afirmou que todo grande homem comete grandes erros. Complemento: homens pequenos fazem erros maiores ainda. Uma espécie de "prestação". Talvez com carnê e tudo, era a solução encontrada para controlar os votos na Câmara, e governar. É que tudo é muito hipócrita, pois que não é necessário maioria na Câmara para governar. Mas a maioria garante a governabilidade do modo como quer o governante.
No caso, tornou falso o governo. Porque; e os projetos que foram votados tendo o peso dos votos "negociados" como é que ficam? Pois que se provado, como que tudo indica que já está, a pergunta é: desde quando isso existe? Em quais votações funcionou? Mas e daí, o que se vai fazer com as leis, regulamento e projetos que estiveram nessa pauta? Porque são falsas. A maioria, que determinava a votação, continha votos manipulados pelas negociações agora sistematizadas para pagamento de "prestação" mensal.
E agora, que fim teremos a este episódio? Dramático; trágico; ou cômico? Radicalidades nunca funcionaram. Prova aí está o PT. Tão radical em seus princípios de ética e exigência moral, agora aí de joelhos, pagando o preço. Mais que a sociedade aqui fora, o preso está preocupado. Sua vida, sua família, sua liberdade e sua existência carcerária dependem das pessoas que estão no poder. A sua família votou no governo que aí está, como quase toda a população pobre do país, e aguarda soluções inteligentes. Está custodiado pela Justiça, garantido pela constituição e tem sua pena executada pelo Estado. É quase uma propriedade do Estado, inteiramente à mercê.
Quando me falavam sobre o voto do preso, eu achava impossível num país tão dominado pelos poderosos. Hoje tenho convicção. A única solução coerente para a situação do presidiário e sua família é o voto do preso. O preso tem direito ao trabalho; à seguridade social; à alimentação; vestuário; educação pública; justiça; e que queremos que tenha participação pública. Somente assim democracia para essa minoria também. Ele se preocupa e nada pode fazer, pois nem ser cidadão lhe é permitido.
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