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Escolhas

A vida é composta de decisões

em 21 de setembro de 2005

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Há sempre um gesto cortando o ar quando escolhemos, como a luz corta a escuridão. Somos constituídos de uma tal maneira que viver é sempre escolher. E quase sempre entre múltiplas alternativas. Tantas que, se de repente estivermos apenas entre duas, nos sentiremos encurralados. A vida vive prenhe de opções, as decisões é que são únicas para cada conjunto de coisas.


Ao acordar, definimos se vamos continuar dormindo, ou se levantamos. Se damos um beijo, mesmo que ligeiramente, e abraçamos o parceiro de cama com amor, ou ficamos indiferentes e já começamos a pressão do cotidiano. Com que pé pisamos o chão; se tomamos café ou apenas leite; se dizemos um bom-dia gostoso ou amarramos a cara logo cedo.


Viver é um processo que envolve decisões contínuas. A maior parte delas inconsciente, automática. Aquelas que se configuram no plano consciente fazem de nós o que somos. São as nossas escolhas que determinam o que fazemos de nós.


No terreno do relacionamento pessoal e amoroso, podemos pensar em diversas escolhas. Por exemplo a necessidade e o gosto. É como a fome e o prazer de se alimentar. Mata-se a fome mesmo que não se consiga o prazer de comer. A necessidade do prazer permanece, embora saciados. Os relacionamentos são a fome em saciedade; o acasalamento, a satisfação dos prazeres.


Alguns gostam de mulheres brancas, morenas, loiras, orientais e tem as mulatas, preferência nacional. O mesmo cabe dizer acerca da mulher quanto aos homens. Elas também escolhem e, na minha modesta opinião, muito mais que os homens. Quando permitem aproximação é porque já nos escolheram, quase sempre.


Há quem escolha por tamanho; dimensões; estilo. A beleza física não me parece fundamental, fator determinante, no gosto de cada um. Algumas mulheres são lindas sem serem bonitas, embora pareça paradoxal. Um sorriso pode ser tão maravilhoso que encante com sua luz. Olhos poderosos, da cor do infinito, que hipnotizam, insinuantes. A simpatia, a graça, o charme constituem estruturas de beleza para além do visível pelos olhos unicamente.


Tenho um amigo que sempre adorou mulheres pequenas. Dizia sempre aquele chavão do perfume e os menores frascos. Um chato. Dizia procurar harmonia, delicadeza em proporções reduzidas. Ele era alto, fortíssimo, desses tipo atléticos, não coadunava. Acompanhei, assim admirado, recusar-se a muitas garotas que o assediavam por não preencherem seus critérios quanto ao tamanho. Era muito interessante aquela sua determinação. Imaginava, um dia encontraria a parceira ideal, tal o empenho com que zelava pelo padrão desejado.


Fiquei anos sem vê-lo. Havia sido transferido para uma filial da empresa em que trabalhava para o Nordeste do país. Quando retornou, causou-me satisfação ouvir sua voz rouca e sonora ao telefone. Sua principal novidade era que estava casado. Queria me apresentar sua companheira. Dizia-se apaixonado. Encontrara a mulher ideal e estava feliz. Pensei: no mínimo encontrara a anã mais perfeita e não a deixou escapar para o próximo circo.


Quando compareci a um almoço por eles promovido, minha cara de pasmo deve tê-los impressionado. Aquela mulher enorme ficou vermelhinha; ele gaguejou ao tentar me cumprimentar. Logo me recompus e procurei disfarçar minha imensa surpresa. Reparei que ele estava bem mais magro, até meio abatido. O que havia acontecido?


A única explicação coerente que restou foi que as escolhas, em matéria de relações amorosas, mudam. O que realmente importa, e pode permanecer, é a satisfação e o prazer nelas contido. A forma não interessa, o conteúdo é determinante. Nossos gostos e opções se adaptam a nossos sentimentos.

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