É nóis

1.Paula e Lino. 2.Na Ilha do Mel, adolescente. 3.Moreno, seu atual flatmate. 4.Com Ricardo Rollo em Tóquio. 5.Meio travestido para o Carnaval de Nothing Hill, quando morava em Londres.
Muita gente não sabe que você é descendente de japoneses.
Pois é, isso é engraçado. Eu sou sansei, que é a terceira geração. Meu avô era japonês, veio num dos primeiros navios e casou com a minha avó, uma cabocla de Registro, que parecia uma índia e morreu já tem mais de dez anos. Ela teve sete filhas e um filho. Minha mãe era a mais nova, a que parecia menos japonesa, e casou com meu pai, que é neto de italiano. Daí vem o Bocchini.
Você saiu de casa aos 18 anos. Foi nessa época que você foi para o Norte a primeira vez, pra Rondônia, como foi essa fase da sua vida?
Quando eu tinha 15 anos decidi começar a conhecer o Brasil. Não tinha internet, não sabia tanto do Norte, mas queria conhecer a região melhor. E meu pai tem um primo que mora em Rondônia, que consideramos como tio, e fui com um amigo de ônibus até lá. E foi sensacional, 50 horas de viagem, pirei e foi engraçado, porque precisei ir até Porto Velho pra ver pessoas modernas, como um primo meu que tinha dois brincos, um em cada orelha, e eu não tinha visto muito isso em São Paulo ainda, e fiz também. Bom, depois disso viajei mais pela região Norte, como a vez em que, alguns anos depois, fiquei 20 dias na Ilha do Marajó, dormindo na casa de desconhecidos. Imagine um cara como eu, alto, cabelo comprido, parecia um ET. Mas mesmo assim eles me recebiam em suas casas… foi realmente incrível, ajudou muito a formatar a minha cabeça.
Quando você foi pro Paris-Dakar?
Foi numa época em que estava frilando, depois da política. O Henrique Skujis, grande amigo e vizinho de bairro, já tinha ido, acompanhando a equipe Petrobras-Lubrax. Em 2007, que por sinal foi o ultimo Paris-Dakar na África, ele não pôde ir, e o Klever Kolberg, piloto e chefe da equipe, me entrevistou, foi com a minha cara e acabei indo. Foi muito legal, eu era o único jornalista brasileiro na sala de imprensa. Peguei uns 20 aviões em menos de um mês, literalmente a gente atravessou o deserto do Saara, e o sol estava quente e queimou a nossa cara [risos]… Cruzamos Portugal, Marrocos, Mauritânia, Mali e Senegal. Escrevi bastante sobre isso no blog que fiz para o Estadão (http://blog.estadao.com.br/blog/rally). Tem mil histórias, tive passagens incríveis, chorei ao passar com aquela estrutura de milhões de euros pela pobreza de lugares como Tichit, conheci mil pessoas e lugares e, ao mesmo tempo, trabalhei feito um camelo, tinha que fazer texto, fotos, filmagens… e o Leo Nishihata [colaborador da Gol], que manja muito mais de rali do que eu, me ajudava aqui do Brasil, com outra amiga, a Cláudia.
E você ainda foi viajar com o Amyr Klink pra Antártida, pro Japão e pra Nigéria pela revista Send…
Essas foram muito legais também. Passamos 20 dias navegando na região da Antártida ouvindo histórias espetaculares do Amyr, a gente só bebia e conversava… emendei viagens incríveis, foi uma puta sorte. A Send me proporcionou viajar bastante, tínhamos um borderô legal e liberdade. Pagamos a viagem toda para o Japão e também para a Nigéria, na pauta de Nollywood.
Lino, você se considera meio feminista, tem a ver com a sua história familiar?
Acredito que sim. As mulheres de hoje estão muito machistas, e o mundo está muito careta… ninguém é obrigado a ter a mesma opinião, mas estamos andando pra trás. Essa minha tia, por exemplo, comentou outro dia que nessa novela das oito tem duas protagonistas que engravidaram sem querer, por não usarem camisinha, puta absurdo, estamos em 2009. Por essas e outras brinco que a Cinderela estragou gerações de mulheres! [Risos.]
E o que você acha que as mulheres deveriam fazer pra não andarmos ainda mais pra trás?
Ah, isso está nas mãos de vocês, sugiro votar em mulheres, colocar o interesse de vocês como prioridade. Mas não tem nada a ver ficar eu aqui, um homem, ditando regra, não faz sentido. Mas acho que as mulheres podiam aceitar menos gracinhas no trabalho, policiar um pouco as bobagens por aí, sei lá… tudo dentro do possível, claro. E claro que eu gosto de mulher bonita, de ver mulher pelada, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Mas os homens andam muito estúpidos, e é um saco, hoje ficou fora de moda ser de esquerda, ficou fora de moda ser feminista. Parece até que todo mundo é filho de chocadeira.
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