Por Redação
em 14 de janeiro de 2008
Estranho. É como me sinto, estranho. Estranho a todo mundo, inclusive aos que julguei mais próximos. Até para meus filhos sinto que sou estranho. Era mentira quando acreditei que me adaptaria. Continuo, como desde quando nasci, estranho e principalmente, só. Cada vez mais só. E amargurado com isso porque não entendo. Continuo sem saber me relacionar com os outros como desde que consigo me pensar. Pensei que aprenderia automaticamente, por encanto ou osmose. Estava convivendo então seria natural. O problema é que não há descanso para viver.
Às vezes ainda me engano. Algumas coisas parecem acontecer por encanto. Talvez exista algo que transcenda e olhe por mim. Fico acreditando nisso e me permito descansar. Na verdade devia estar fazendo, aperfeiçoando, estudando e dando tudo de mim na única coisa que jamais me negou satisfação. O texto, o livro, a leitura e a escrita. O demais deveria vir por expansão. A questão é, se eu desistir dos outros, meus motivos de viver acabam. Às vezes me vejo nessa contingência.
Paul Newman, quando perguntado sobre sua droga preferida, respondeu: “- A invenção!”. Sem dúvida é embriagante ser capaz de criar. De deixar abestalhado, “Tonhonhoi”, como diz minha sobrinha. Quando escrevo algo que considero interessante, o prazer é enorme. Acima, além do possível de descrever. Quando vejo uma grande criação – um grande livro (estou lendo Balaio, da Ana Maria Machado), uma bela poesia (Tabacaria, de Fernando Pessoa), um enorme quadro (Guernica de Picasso) – fico emocionado pensando no prazer, na satisfação de viver que encontrou o artista ao concluí-lo. Imagino que a sensação deva ser de a de se sentir capaz. Parece que o que mais sentimos são nossos limites, incapacidades e impotências. Então, sentir que se tem valor é deleite, é descanso.
Olho pessoas que me cercam. Eu lhes parecia tão íntimo e agora sou estranho. Estive estudando-as e conheço alguns de seus motivos. Elas não me são estranhas. Eu as amo silenciosamente. Mas sei, sinto, sou estranho para elas. Parece que passou um avião e caí de pára-quedas. Até na vida de meus filhos. Eles não sabem como se relacionar comigo, não me entendem. Ninguém os ajuda e eu não consigo. Não sei como.
Estiva preso por mais de 30 anos e de repente fui solto. Entrei na vida das pessoas que não esperavam. O impacto, a princípio, foi assimilado porque sou novidade, possuo alguma cultura, tenho certa originalidade e não é difícil me querer bem. Mas aos poucos vão fazendo como a ostra: envolvem-se em uma secreção e me isolam. Viro jóia. Vou sendo alijado do processo existencial, quase que naturalmente. A vida delas não me comporta.
As pessoas como que nos capturam, nos classificam e prendem com alfinete num quadro. Viramos borboletas. Não é à toa que Sartre afirmava que quando nos aproximamos dos outros, eles nos transformam em objeto. Já me classificaram, processaram e passaram para a página seguinte. Só que continuo estranho. Não encaixo no quadro. A configuração é estranha. Ou será que somos todos estranhos e eu não percebi? Acho difícil porque existem pessoas que não vejo nada de estranho nelas.
A vida que enfrentamos dentro de nós, é muito maior que a vida que nos cerca. O caos que vivemos em sociedade, não é nem sombra do que há dentro de cada um de nós. Talvez grande demais para que a carreguemos sozinhos e conviver seja essa experiência de compartilhar. Da vida de fora, basta fechar os olhos para estar longe. Da de dentro, fechar o quê; estar longe de onde?
Queria descansar, mas como se para ser inteiro necessito estar só? Os outros não compotam, não tenho raízes, caí de avião e estou estranho.
* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br
LEIA TAMBÉM
MAIS LIDAS
-
Trip
Bruce Springsteen “mata o pai” e vai ao cinema
-
Trip
O que a cannabis pode fazer pelo Alzheimer?
-
Trip
5 artistas que o brasileiro ama odiar
-
Trip
Entrevista com Rodrigo Pimentel nas Páginas Negras
-
Trip
A ressurreição de Grilo
-
Trip
Um dedo de discórdia
-
Trip
A primeira entrevista do traficante Marcinho VP em Bangu