De Robert Crumb, com uma parada no circo, a Jano
Confira as resenhas sobre uma biografia em quadrinhos, um fanzine e um documentário

O retrato do artista quando bosta
Minha Vida, Robert Crumb
(Conrad, 136 págs., R$ 49)
Não vamos gastar tinta enumerando os pra lá de clássicos personagens de R. Crumb. Nem explicar por que ele é um dos maiores desenhistas do século 20 ou por que é o papa dos quadrinistas adultos. Pois neste livro ele deixa a metáfora e a fantasia de lado e escorre seu nanquim para desenhar a raiz de toda sua obra – sua vida, é claro. O narcisismo do gênio consciente de si, o complexo de inferioridade do homem feio que é, as confessas perversões, os adultérios e fodas bizarras, as drogas e o desprezo pelo que há de pior no mundo – a mediocridade – lotam as páginas do que pode bem ser sua obra-chave. Deus, mulheres, pai, mãe, brancos, pretos, editores, gurus. Nada escapa da impiedosa pena assassina de Robert Crumb – nem ele, principalmente.
(Bruno Torturra Nogueira)
Fogo no pincel
Charivari, vários artistas
(Charivari, 40 págs., R$ 35, chari-vari@hotmail.com)
Quem já cruzou com leoas, engolidoras de espadas, contorcionistas – ou só descabela o palhaço, como muitos leitores da Trip – sabe que as semelhanças entre sexo e circo vão muito além da tenda armada. Nas 40 páginas de Charivari, um “circo” em forma de fanzine, dez feras da novíssima fornada de ilustradores e artistas gráficos brasileiros, figuras como Andrés Sandoval, Daniel Bueno e Madalena Elek, criaram um respeitável espetáculo de perversão e humor: o domador é chicoteado pela assistente, o contorcionista estica a língua e lambe a outra ponta de seu sistema digestivo, o trapezista se pendura nos peitos da colega para não cair no abismo do picadeiro. Os 250 exemplares são impressos em serigrafia, técnica artesanal que dá às ilustrações textura, aspecto e até um cheiro meio lúbrico.
(Paulo Werneck é historiador, filósofo, editor de livros e editor-executivo supremo da revista “literária” Ácaro – que a Trip recomenda de olhos fechados)
Paris 40º
Rio de Jano, DVD
(Videofilmes)
Ao contrário do que possa parecer, Rio de Jano não mostra um Rio de Janeiro para gringo ver. O documentário mostra as andanças do cartunista francês Jano (pronuncia-se Janô) – publicado aqui no fim dos anos 80 na extinta Animal – pela capital carioca, para posteriormente retratá-las no seu álbum sobre o Rio de Janeiro, na coleção “Cidades Ilustradas” da Editora Casa XXI. Viajante escaldado, o parisiense Jano não se deslumbra fácil, e num dos melhores momentos do filme comenta o abuso dos diminutivos no linguajar do carioca:
— Um minutinho? O que seria um minutinho, um minuto com 40 segundos?
Os extras juntam entrevistas com desenhistas brasileiros sobre o trabalho do francês e sobras do material bruto, além de videoclipes com as músicas da trilha sonora.
(Allan Sieber, cartunista e, acreditem, colunista da Trip)
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