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Ch-ch-check-it-in

Para quem sabe usar seus olhos com inteligência e humor, até mesmo passar horas esperando pelo check-in pode ser divertido

Por Redação

em 26 de fevereiro de 2007

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Por causa da insensibilidade crônica e inigualável dos responsáveis pelo controle do tráfego aéreo nacional, fiquei plantado, no dia 7 de dezembro, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, na expectativa da partida de meu vôo da TAM (o de número 3318) com destino a Natal. Durante as longas horas de espera, que fizeram com que a minha bunda ficasse com o formato da cadeira em que estava sentado, sem nada a fazer, me chamaram a atenção:

Um rapaz com o cabelo cortado bem curto, vestindo calça verde, mochila nas costas e uma camiseta regata, que deixava aparecer várias tatuagens em seu corpo. No antebraço esquerdo, está escrita a palavra “Pacu”.

Uma moça, de cabelos bem longos e muito escuros, vestindo um vestido longo escuro (lilás? roxo?) também. Poderia ser crente, por causa do comprimento da saia, que chega até seus tornozelos. Mas me pareceu que não o era; ela estava ouvindo um iPod, segurava um nécessaire vermelho em que estava escrito, em alto-relevo, a palavra “Barbie” e, além do mais, mascava chiclete sem parar, o que fazia com que suas mandí­bulas se mexessem a uma velocidade poucas vezes vista. Tinha a boca fina, o nariz suave e um sorriso constante nos lábios.

Uma moça com cabelo moreno que, de longe, parecia a Penélope Cruz. O nariz e a boca, principalmente. O cabelo era longo, mas dava para perceber onde começava o megahair e onde terminava o verdadeiro. Era quase baixinha e segurava um urso quase do tamanho dela.

Uma mulher de pele muito branca. Loira de verdade. Falava com sotaque do Sul. Vestia uma blusa quase verde curta com um babado no fim que chegava até a altura da cintura. O resto do corpo (o traseiro, as pernas) estava enfiado em uma calça colante preta que se perdia dentro de umas botas marrons de camurça mole.

Um homem que vestia um casaco longo, azul-marinho, apesar do calor que fazia na sala de embarque (o rapaz que teria de ligar o ar-condicionado também deve ter tido problemas, naquele dia). O homem vestia o casaco sobre uma camisa cor de rabanete, uma calça preta com o vinco perfeito e um sapato que tinha uma fivela dourada, cor que combinava com a do desenho de uma agência de viagens que estava estampado em uma pochete amarrada na cintura.

Uma mulher com cabelo castanho, liso. Ela devia estar acostumada com as coisas caras da vida porque as mechas do cabelo dela não ti­nham sido feitas em um salão qualquer. O rosto dela lembrava o de Emmanuelle Seigner, a mulher do diretor Roman Polanski, quando a fotografei para a capa da Vogue muitos anos atrás. Vestia uma camiseta preta (peitos pequenos), uma calça jeans azul-escuro, com uma etiqueta da loja Uma. Pendurada em um ombro carregava uma bolsa preta que combinava com as sandálias de plataforma pretas que lhe deixavam aparecer as unhas dos dedos dos pés pintados com esmalte (transparente), muito bem manicurados.

Uma criança com uma cachorrinha da raça chiuaua no colo. As duas pareciam assustadas.

Uma moça que de longe parecia a Fernanda Lima. Usava a mesma franja e fazia as mesmas boquinhas, mas de perto dava para ver que não era Fernanda. Usava um casaco escuro estampado com uma coisa que pareciam umas folhas (lírios? tulipas?) com gola de pele (parecia pele) e uma calça jeans. Estava sentada em uma cadeira laranja e no colo tinha um laptop Sony, prateado, novíssimo.

Uma moça com um “palazzo pijama”, sem ombros, de cor rosa en­fiado dentro de um casaco de couro preto que chegava até embaixo do joelho. Uma mão espremia um celular contra a orelha dela, a outra mão apertava a alça de um nécessaire laranja. Uma moça quase loira, com uma camiseta de manga comprida azul que deixava a barriga aparecer. Não dava para ver o umbigo. Debaixo do braço segurava um boneco de pelúcia enorme que de longe não se sabia o que era (devo confessar que pareceu, por um momento, um chato gigante), mas de perto se descobria que, na verdade, era uma tartaruga verde, imensa.

A lista era também, assim como a espera, longa.

*J. R. Duran, 54, fotógrafo, teve recentemente seus quatro passaportes roubados. Mas segue viajando. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br

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