por Camila Eiroa

Fugir da típica folia carnavalesca e ir para uma fazenda psicodélica parece má ideia? O festival Psicodália prova que não

Nem a lama, nem a chuva constante estragou a energia da 18º edição do Psicodália, festival realizado durante o carnaval em Rio Negrinho, Santa Catarina. Com nomes importantes do cancioneiro hippie anunciados na programação – como Ian Anderson (do Jethro Tull), Arnaldo Baptista, Baby do Brasil, Ave Sangria, Próspero Albanese (da Joelho de Porco) e Jards Macalé – o público de mais de seis mil pessoas parecia preparado para a maratona sonora de seis dias.

E foi mesmo uma maratona! Com quatro palcos diferentes espalhados pela fazenda que abrigou a festa, mais de 300 artistas se apresentaram praticamente sem intervalos. Assim provou o Palco dos Guerreiros, onde até a Banda mais bonita da cidade fez uma apresentação surpresa, de meias e galochas. Lá, quem quisesse mandar um som mandava, era só se inscrever.

Mas não foi só de música que os dias longe da folia seguiram. Teve teatro, oficinas de graffiti, desobediência civil, terapias naturais e até siririca, apresentações inesperadas ao ar livre e também tirolesa. Pelo segundo ano, a Trip acompanhou com o pé na lama todos esses dias psicodélicos, e pudemos conhecer pessoas de norte a sul do País que estavam lá com o mesmo objetivo: deixar o celular (e às vezes o banho) de lado, e se permitir trocar experiências com tudo que aparecesse. Seja na fila do banheiro coletivo ou dos bares espalhados pela área. 

Psicodelia abençoada

Baby do Brasil fez uma apresentação espetacular ao lado de seu filho Pedro Baby, que dirigiu o show. Foi difícil de segurar o sorriso de canto a canto e aquelas lágrimas que saíam sem aviso prévio dos olhos. "Gosto de ver a visão do Pedro sobre mim, é o maior barato. Ele me dirigir nunca foi muito normal, mas eu sabia que ele não iria interferir e nem ferir. Como é filho, ele conhece todos os lances. Vejo nele um parceiro muito grande, somos muito alinhados", disse Baby depois do show, tomando uma água de coco e com as unhas pintadas de roxo. No repertório estavam as clássicas Menino do RioCósmicaSem pecado e sem juízoA menina dança e também Mistério do Planeta, cantada por Pedro, que foi acompanhado a pleno pulmões pela plateia.

"Tenho me surpreendido com a juventude de hoje tentando resgatar a música. Essa galera nova é uma benção." - Baby do Brasil

Sobre o festival, ela contou animada que era impossível não se lembrar dos movimentos musicais dos anos 70. "É uma mentalidade de alegria. A chuva aqui é linda, o trovão maravilhoso. Esse tipo de comportamento é o que transforma tudo que é negativo em positivo. Em 1970 teve um momento em que pareceu que isso se perderia um pouco porque os meios de comunicação ficaram muito a fim de ganhar grana, sem se preocupar com a cultura. Tenho me surpreendido com a juventude de hoje tentando resgatar a música. Essa galera nova é uma benção."

Em transe

Outro show marcante foi o de Jards Macalé, que aconteceu depois da apresentação flutuante de Júpiter Maçã, que fez todo mundo cantar bem alto a canção que mais parecia o hino do festival – Um lugar do Caralho. Naquela terceira noite de festival, as pessoas estavam animadas com o céu estrelado e tomadas pela psicodelia surpreendente do repertório do cantor, que tem composições conhecidas nas vozes de outros artistas como Gal Costa. Nas últimas músicas, a iluminação do palco parecia querer levar a galera ao delírio. E levou. Foi difícil abrir os olhos quando as palmas começaram. Até marchinha de Alalaô rolou. 

"É uma geração pós-ditadura, mas eu vejo paz e amor aqui. A palavra de ordem mais pesada, que até hoje não conseguimos, é essa 'paz e amor." - Jards Macalé

Jards não reagiu diferente àquela noite. "Eu acho ótima essa mistura de gerações no carnaval, significa que o mundo gira. Isso junta todas as manifestações musicais e aparecem muitas coisas novas. A gente fez recentemente um show com o Metá Metá, que tocou aqui depois de mim. Eu gosto muito disso, é uma troca. Eles acham que eu ensino e eu acho que eu aprendo [risos]." E completou: "Psicodália é voltar aos anos 60 e 70 com outra perspectiva. É uma geração pós-ditadura, mas eu vejo paz e amor aqui. A palavra de ordem mais pesada, que até hoje não conseguimos, é essa 'paz e amor'. Tocar no meio de uma fazenda é maravilhoso. A utopia não morre."

Não é a primeira vez que Metá Metá toca no festival e o público esperou ansioso por esse momento. Outros shows de bandas da nova geração fizeram as pessoas vibrar, como o dos paulistanos da Bombay Groovy, O Terno – que fez uma apresentação pra lá de psicodélica – e O Bardo e O Banjo que, por conta da chuva, se apresentou dentro do salão do refeitório e fez com que todos se sentissem em um filme de bangue-bangue. Era por volta das três da manhã quando todos dançavam e batiam palmas de um jeito tão contagiante que até quem estava trabalhando nos refeitórios pulava.

Também não faltou (nem um pouco!) empolgação para as apresentações de Próspero com repertório da Joelho de Porco e para o britânico super aguardado Ian Anderson, líder da banda clássica de rock Jethro Tull que, com sua flauta, encheu o palco de magia. A essa altura do campeonato, o êxtase tomava conta de todo o ambiente. Tudo não passava de uma utopia? Teve quem dissesse que viu fadas e gnomos até o momento em que a Bandinha Di Dá Dó, que nasceu em Porto Alegre, chegou no palco com seus palhaços. Ninguém ficou parado. Os gritos ecoaram por todo o camping e não dava vontade de parar nunca de pular.

Onde é que está meu rock'n'roll?

Para o penúltimo dia, quando chegava a hora de muitas pessoas ali desarmarem a barraca e voltarem para um mundo mais real, estava programado talvez o show mais aguardado, ao lado de Ian: Arnaldo Baptista. O ex-mutante e eterno ícone do rock psicodélico apresentou "Sarau o Bendito?" só no piano, com flores espalhadas por todo o palco e projeções de seus desenhos ao fundo. Embaixo do Palco do Sol, as pessoas se escondiam da chuva. Muitas delas carregando Lps para serem autografados, camisetas e uma emoção estampada no rosto. As distorções causadas nos desenhos no cenário confundiam a cabeça de muitos. "Só eu estou vendo isso?", ouvi.

Ver Arnaldo se apresentando ali, no meio de uma fazenda com um pasto gigante do lado, cantando clássicos como Será que eu vou virar bolor?Balada do louco e também Blowing in the wind, de Bob Dylan, pareceria inimaginável em pleno carnaval. A essa altura, a lama era tanta que andar descalço parecia mais inteligente. A simplicidade e humildade do cantor em cima do palco contagiava até quem estava ali a trabalho. "Faz muito tempo que me convidam para vir aqui, mas não havia a estrutura que existe hoje em dia de palco e instrumentos."

"O lado psicodélico vai contra o que? Nada. Deixa levar." - Arnaldo Baptista 

Arnaldo ainda disse à Trip: "Tudo que deixa a gente ligado, temos que levar adiante. O lado psicodélico vai contra o que? Nada. Deixa levar. A psicodelia nunca morre." E foi exatamente assim que as pessoas começaram a se despedir de mais uma edição do Psicodália: se deixando levar e deixando a chuva levar embora o que não serve mais.

Até o próximo e que o sol esteja lá também!

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