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Café-da-manhã

Enfiei a cara para dentro do cobertor e senti um cheiro morno de mulher

em 21 de setembro de 2005

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De repente acordei e estava nu e ardente. Tudo estava além de meus olhos, perdidos. Minhas mãos, nervosas, crispavam-se tentando sentir substância em mim mesmo. Tudo ao redor parecia muito estranho. Procurei as almas errantes e instáveis que me cercavam aqueles trinta anos, e não as encontrei. Algo estava acontecendo, me senti desprotegido, assustado.

Demorei a compreender que estava solto, livre. Há alguns dias havia sido libertado, depois de quase meio século entre grades. Aquele era meu quarto, aquele monte de cabelos saindo para fora da coberta eram de minha companheira. Eu já estava suando, a instabilidade fora dolorosa. Havia voltado da vida dos sonhos, antes de mim.

Sorri no ar. De ansiedade tocado, movi meu corpo de paixão. Enfiei a cara para dentro do cobertor e senti um cheiro morno de mulher. Já não enxergava mais atrás de meus olhos, tudo era passado e agora ali estava aquela mulher deliciosa que ressonava de bruços. Ainda estava vinculado à cultura prisional. Não se podia acordar preso. Quando dormia, o detento estava em liberdade. Acordá-lo seria trazê-lo de volta à prisão.

Rocei-a com os pés. Sonolenta, sorriu sem abrir os olhos. Corri os dedos, suavemente, pela pele morna de suas costas. Tudo era absolutamente instigante. Olhei para a janela, tudo era frio paulistano a perfurar paredes. A manhã cortava a manhã em fatias. Eu quis que tudo se encolhesse, restando somente aquela cama, aquele cobertor. Mergulhei para dentro da tepidez ambiente.

Não, eu não queria fazer amor. Nem ela. Estávamos satisfeitos. Mentira quem diz que sempre dá para mais uma. Não na minha idade. Super-homem não tem que enfrentar o dia de trabalho duro e à noite estudar. Abracei-a carinhoso. Não dava para beijar. Rocei meus lábios nos seus e escorreguei para seu pescoço. Ela se ajeitou, de ventre aberto para a vida, dando à luz a primeira esperança do dia.

Depois virou de lado para que eu me encaixasse. Éramos de novo um. O pau endureceu. Era o sinal de alerta. Ela pulou da cama para a aventura de estar dentro da vida, fluindo, gelo adentro do inverno. Fiquei ali na cama como um oco aberto, sentindo apenas a doce tepidez e o perfume que enchia os cobertores.

Como era maravilhosa a liberdade! A liberdade de estar preso àquele quarto, àquele calorzinho e àquela mulher cheirosa e macia. Insaciavelmente, tomei de assalto todos os meus motivos, feliz. Por tudo e por nada. Pelo tempo que cansava como um relógio solto de seus ponteiros. Pelo sonho de ser feliz que eu realizava além de todas as dores tão cruamente vividas. E por nada que não valesse a pena tentar.

Tomei um banho quentinho e caminhei displicentemente para a cozinha. Quando adentrei, meu amor tomou-me a toalha e me enxugou as costas. O café já estava na mesa. Sentei-me à mesa enxuto e faminto. Tudo aquilo desenhado na mesa em produção cheirava tesão e relaxamento. Eram cuidados com os quais aquela mulher vestia nosso dia de clara luminosidade.

Aquele namoro das cobertas prosseguia. Pequenos olhares, sorrisos e palavras provocativas. Estávamos preparando a noite. Curtas alisadas em lugares certos, seios que aparecem e se escondem sutilmente. A perna que se recolhia na cadeira, por entre o roupão aberto. Saí para trabalhar com o coração em sobressalto.

O café-da-manhã prometia. Pode ser que a vida não passe de uma ilusão. Mas é nela que estamos e é nela que nos manifestamos e tudo que nela fizermos é nela que permanecerá. 

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