Bici Cross
Documentário sobre a ciclista canadense que mudou de sexo é destaque do festival Mix Brasil

Por Milly Lacombe*
Michelle Dumaresq teve uma boa idéia: virar ciclista profissional. A modalidade escolhida pela canadense foi uma das mais perigosas – senão a mais perigosa – do esporte: mountain bike downhill. Nela, atletas despencam montanha abaixo – em pistas de esqui durante o verão – atingindo velocidades que chegam facilmente aos 100 km/h. Mas as dores de ossos quebrados e músculos rompidos não foram os principais problemas da canadense, como nos mostra o documentário 100% Mulher, de Karen Duthie, atração do Mix Brasil 2005. Os perrengues começaram muito antes – aos seis anos de idade, quando Michelle, então Michael, percebeu que havia no mundo dois gêneros humanos: homens e mulheres. E que ele estava do lado errado. Aos 20, decidiu virar Michelle e fez a série de operações e intervenções cirúrgicas que mudaram seu sexo. Foram dois anos de transformações viscerais até que conseguisse viver no corpo de uma mulher. E a história já seria suficientemente dramática se Michelle não tivesse decidido correr o circuito profissional de downhill.
“É quando o ser humano se sente ameaçado que ele reage.” Com essa frase, ela explicou às câmeras a reação de suas colegas de trabalho, que tentaram barrá-la das competições alegando que ela era ele. O documentário segue dois anos da vida de Michelle. Justamente os dois em que ela tentou competir profissionalmente. Ver de perto o preconceito humano nunca é das coisas mais belas. Mas a viagem vale a pena quando deixa na cabeça a pergunta: “E eu, se estivesse sendo ameaçado, como reagiria?”. Vale se cutucar.
Acima, Michelle em dois momentos de sua carreira como mountain biker: voando baixo nas montanhas canadenses e ocupando o lugar mais alto do pódio
VAI LÁ: O Mix Brasil 2005 – 13o Festival de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual – acontece em Brasília (30/11 a 11/12). São mais de 150 filmes de 20 países. Mais informações no site: www.mixbrasil.org.br. E bom filme
*Milly Lacombe é diretora de redação da revista Tpm, onde defende com brio o papel de “colunista gay” da “Coluna do Meio”
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