Arte vira-lata
Moondog era gênio da música, mas gostava de viver como um mendigo nas ruas de Nova York
Créditos: Carolin Loebert / www.carolinloebbert.de
Por Henrique Goldman Trip #194
em 16 de novembro de 2010
Moondog era considerado um gênio da música, mas gostava de viver como um mendigo nas ruas de Nova York – como se a solidão e a penúria fossem a única forma de defender a beleza de sua arte
A orelha decepada de Van Gogh, a enorme tristeza de John Lennon abandonado por Yoko, as crises asmáticas e as noites insones de Marcel Proust, a surdez e o mau humor de Beethoven, a penosa solidão de Carmen Miranda em Hollywood, a rancorosa carta que Franz Kafka escreveu (mas nunca entregou) para o pai, o suicídio de Mark Rothko… Na polaridade entre a vida e a arte, beleza e dor sempre caminharam de mãos dadas.
A existência do hoje praticamente esquecido compositor e poeta americano Louis Thomas Hardin foi com certeza uma das mais interessantes, dolorosas, excêntricas e improváveis do século 20. Ele nasceu em Marysvile, no Estado do Kansas, em 1916, em uma família evangélica e puritana. Sonhava ser pastor como o pai, mas, depois de sofrer um acidente com dinamite que o deixou cego, mudou-se sozinho e sem dinheiro para Nova York e adotou o nome de Moondog – em homenagem a um cachorro vira-lata que perambulava pela sua vizinhança e não parava de latir numa noite de lua cheia.
VIKING DA SEXTA AVENIDA
Por opção, Moondog não tinha casa. Vivia na rua como um mendigo, pedindo esmolas e vendendo panfletos com suas poesias. Instalou-se permanentemente na esquina da rua 54 com a Sexta Avenida, onde tocava diariamente geniais composições inspiradas por ruídos urbanos como os sons do trânsito ou do metrô, usando estranhíssimos instrumentos por ele mesmo inventados e batizados – como a trimba, o Oo e o Ooo-ya-tsu. Sua única roupa era uma fantasia de Thor, o deus nórdico do trovão, feita de trapos, que incluía um bizarro chapéu com dois enormes chifres. Por causa dessa fantasia, Moondog também passou a ser conhecido como o Viking da Sexta Avenida. Ele viveu e tocou naquela esquina quase todos dias, desde 1940 até 1974.
A poucas quadras dali fica o Carnegie Hall, onde já naquela época tocava a Orquestra Filarmônica de Nova York. A caminho dos ensaios, um grupo de músicos da orquestra costumava parar e admirar as geniais performances de Moondog. Um dia levaram até lá o célebre maestro Artur Rodzinski, que se apaixonou pelo Viking da Sexta Avenida e passou a gravar e promover sua música.
Na efervescência do caldeirão cultural da Nova York dos anos 60, até a radical marginalidade de Moondog encontrava espaço. Num mundo careta e dispersivo como o de hoje, ele certamente não seria reconhecido. Mitos do jazz como Charlie Parker e Benny Goodman viraram fãs. Os então aspirantes a compositor Steve Reich e Phillip Glass foram muito influenciados por ele – e Glass deu abrigo a Moondog em seu apartamento por um tempo. Moondog é considerado um precursor do minimalismo. Composições como “Bird Lament”, “Dog Trot” e “All is Loneliness” (brilhantemente interpretada por Janis Joplin) são clássicos de um gênero – entre o erudito, o jazz, e o puro mistério – cuja principal particularidade é não ter nada a ver com nada.
O mundo quis integrá-lo e lhe dar conforto. Mas Moondog se recusava a deixar de ser um genial e indomável vira-lata – como se quisesse defender a beleza de sua música com solidão e penúria. Em 1974, seguindo um velho sonho, foi perambular na Alemanha. Só depois de muitos anos, já velhinho e cansado, acabou se deixando adotar por uma família alemã numa remota cidadezinha da Westfália, onde viveu até morrer em 1999.
Vale muito a pena escutá-lo no YouTube.
*HENRIQUE GOLDMAN, 48, cineasta paulistano radicado em Londres, é diretor do filme Jean Charles. Seu e-mail é hgoldman@trip.com.br
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