por Davi Rocha

Músico e compositor fala sobre novo disco, Ecad, viver em São Paulo e bicicletas

Prestes a lançar Arrocha, seu novo disco, encontramos o cantor, compositor e multiinstrumentista Curumin em um bar em São Paulo. Com previsão de lançamento para maio no Brasil e na Europa, este é o terceiro da carreira do músico, que já tem os elogiados Achados e Perdidos (2003) e JapanPopShow (2008) na discografia.

Gravado (em sua maior parte) na casa de Curumin, o álbum tem as participações de Marcelo Jeneci, Guizado, Edy Trombone, Ricardo Hertz e Russo Passapusso. A produção ficou por conta de Lucas Martins, Zé Nigro, ao lado de Curumin, compositor de onze das treze faixas. As exceções da lista são "Vestido de Prata", cover de Paulinho Boca de Cantor, que tem participação da Céu, e "Passarinho', composição do MC Russo Passapusso. 

Além destes discos, você pode ter ouvido a bateria em trabalhos de nomes como Paula Lima, Arnaldo Antunes, Vanessa da Matta, Céu, só para citar alguns. Embora não se importe com quantidade: “não devem ter sido tantos. Eu gravei neste nicho da galera daqui de São Paulo, graças a Deus, eu fico feliz porque é o que eu gosto de fazer”, afirma.

O assunto dominante foi o disco novo, mas como todo bom papo de boteco, as ideias se deixaram levar para assuntos não previstos como natureza, internet, a própria cidade de São Paulo, bicicleta, carreira no exterior e Ecad, entre outros. 

Como você apresentaria o Arrocha para alguém que está prestes a ouvir seu disco?
Apresentar o disco? Vixi Maria [pensa bastante]. Como apresentaria? Engraçado, eu sou paulista, mas dos três discos que eu fiz acho que esse é o mais urbano. Ele é mais pesado, eletrônico, tem uma pressão. O disco começou com uma coisa da natureza. Parece um pouco piegas, mas virou uma urgência falar sobre isso. Mas como tratar disso sem cair em uns chavões do tipo “você tem que ajudar a proteger”. Mas minha interpretação é muito diferente do que as pessoas acabam ouvindo porque eu tenho uma visão de quem fez. Até a coisa do “arrocha” é mais pressão, um disco mais apertado. 

Você começou a gravar em estúdio e depois passou a fazer em casa. Por que optou por isso?
O estúdio dá uma tensionada porque você tem que ser rápido e objetivo, obrigação de fazer, não pode partir para a coisa do experimentalismo. Tem que ser meio certeiro, senão gasta muito dinheiro. Quando vi que dava para fazer em casa, juntei microfone de um amigo, o pré-amplificador de outro amigo, os pedestais de outro... Aí foi ótimo, o disco fluiu superbem. Tinha um clima favorável para fazer se divertindo. É muito bom para surgirem as ideias.

O disco também é o seu trabalho mais eletrônico. Como você descobriu esse caminho para sua música?
É uma coisa que eu fui me interessando, mas tem a ver com o problema de não ter dinheiro, de precisar fazer uma coisa muito a baixo custo e que soasse legal. É uma coisa que eu poderia fazer e programar. Se você vai gravar uma bateria são horas de estúdio e com tudo eletrônico vai direto, a gente precisa de menos equipamento de estúdio. É uma solução mais barata e mais adequada ao CD. É muito difícil conseguir uma finalidade boa só tocando instrumentos e você se adequa melhor à linguagem do digital fazendo em formato digital. 

Não é incomum bandas optarem por gravar em casa ou em algum esquema mais caseiro, mesmo sem todo o aparato tecnológico de um estúdio. Em quais pontos isso mais ajuda ou atrapalha? Isso se atrapalha em algum momento.
Eu percebo que fazendo em casa não com material de primeira linha você consegue resultados interessantes porque tem que lidar com a dificuldade e a limitação. Sem o melhor equipamento tem que sujar e distorcer tudo um pouco para soar legal. Eu acho isso ótimo. Não atrapalha, só ajuda. Eu me senti muito bem fazendo esse disco, a gente estava em casa e podia parar se estivesse cansado, se estava no pique ia fazendo. Eu gostei muito, não tem o que me queixar. É como os jamaicanos sempre fizeram. E eles criaram uma sonoridade muito diferente do resto do mundo. 

Acredito até que quem participou das gravações encontrou um clima muito mais amigável na sua casa do que no estúdio. 
Dava vergonha porque os antipufes dos microfones eram uma meia calça. Tinha que cantar com uma meia calça na boca, mas quebrava qualquer clima pesado e o clássico “um, dois, três, travando!!!”. Lá todo mundo dava risada, ficava à vontade. 

E como foi a escolha de quem participaria?
Foi muito natural, a gente [ele e os produtores Zé Nigro e Lucas Martins] fez o esboço de todas as músicas e percebeu onde estava precisando de mais coisas. Escolhemos os participantes de acordo com o que as músicas precisavam. Foi diferente dos outros discos. No Japan Pop Show eu tinha conhecido um monte de gente legal e chamei porque queria que elas estivessem, para trazer a galera pra dentro. 

A participação do Russo Passapusso em duas músicas, "Afoxoque" e "Passarinho" traz uma coisa mais ska e hip hop para o disco. Como você chegou na escolha dessa sonoridade?
Quem me falou do Russo primeiro foi o B Negão. Eu ouvi e achei bem legal. Ele toca com o BaianaSystem, Dubstereo e BembaTrio, é um MC mesmo. Quando veio para São Paulo fazer uma participação no show do Guizado, eu troquei uma ideia com ele, que me mostrou umas músicas. Ouvi, fiquei muito impressionado e falei: “porra, esse cara é foda”. Aí você vê essa tradição da Bahia, oral, o cara que aprendeu a tocar violão, fazer música, na rua, de ver o cara tocar, ser uma tradição diferente. 

E dentre as necessidades, onde ele se encaixava?
A gente tinha todo o disco montado, mas 29 minutos de música. Pensamos: “porra, o disco está curto. Vamos chegar pelo menos a 30, mas sem encher linguiça”. Colocamos a "Passarinho" do Russo, que fechou, trazendo um lado que ainda não tinha, que eu não estava conseguindo dar. Acho que o disco estava todo terra, pesadão, faltava isso. Acho que é porque eu sou baterista, faltava essa coisa mais melódica, avoada.

Como você chegou ao nome Arrocha? No dicionário arrochar tem os significados “fixar utilizando o arrocho, apertar muito, tomar violentamente entre os braços, espancar com pedaço de pau, sobrecarregar”. Algum desses ou todos esses fazem sentido? 
Eu queria fazer um disco que fosse uma celebração, acho que acabou saindo outra coisa, no sentido de mais pressão. Tem vezes que você sai na rua e se sente massacrado pelo sol, pelo frio, com a sensação de ser pressionado a trazer novas respostas, uma reflexão diferente. O que mais gosto desse nome é dar muitas interpretações diferentes. Tem um lado de arrochar que é o sensual, uma coisa da dança, do ritmo baiano, de você dançar muito juntinho, coladinho.  

Seu trabalho solo anterior saiu há cinco anos. Antes foram quatro anos do primeiro para o segundo álbum. Esse é o seu tempo? Demora alguns anos por conta de seus outros trabalhos? 
Eu tenho ritmo mais devagar mesmo. É engraçado como às vezes a coisa do dia a dia te engole. Aí você fala: peraí que não estou conseguindo. Porque para você fazer música tem que ter um tempo, sabe? Tem que estar na rede, tem que pegar o violão sem se preocupar que seis horas da tarde tem que parar para assinar um negócio. Isso é difícil de conseguir. Talvez seja essa natureza paulista de toda hora estar se ocupando, mas tem a realidade que eu preciso trabalhar, fazer outras coisas. Não tenho ainda uma estrutura para toda hora parar e ficar só no estúdio experimentando.

Como a cidade de São Paulo influencia suas composições? 
Eu moro aqui há 35 anos, nunca sai e não consigo falar de outra coisa. Outro dia em uma entrevista disse que o disco era meio urbano, o cara riu. Tem gente que acha que eu sou carioca. Mas é que São Paulo tem uma influência pesada. Aqui você vive a cidade, nem que não queira. Está no olhar, no cheiro, na energia, nessa coisa da aceleração.

Então seu disco mais urbano também é o que trata da natureza como uma urgência da realidade que vivemos? 
Vem de uma angústia, um sofrimento. É uma coisa de coração, de celebração, vamos celebrar e cuidar. Em nenhum momento eu quis colocar como a mensagem “vamos cuidar” porque acho que isso espanta um pouco. Essa sensação de que "fodeu". Eu viajo muito de avião e quando eu olho lá de cima eu chego a pensar que os lugares maravilhosos que eu conheci e sempre gostei de ir e ainda dá oxigênio para o planeta vão acabar. Mas se sentir que vai acabar, o planeta acaba com a gente. Talvez seja hora de transformar aqui em uma coisa menos isso, um pouco mais na realidade. 

A gente vê que tem gente que até tenta. Desde situações das mais simples, como quando as pessoas tentam andar de bicicleta pela cidade e não conseguem. 
Mas eu acho super importante, sabe? É super triste que até algumas pessoas inclusive morram por causa disso. Mas só assim que a gente vai conseguir transformar isso e ter espaço para bicicleta também. Não é que não existe bicicleta, existe e a gente está tentando furar esse bloqueio porque se não der essa forçada vai ser sempre carro, carro, carro. As pessoas estão morrendo por causa disso. Eu já andei muito de bicicleta, mas parei por que fiquei com medo. Eu comecei a fazer um caminho que era pegar a Paulista inteira e descer a Rebouças pelo meio. Depois de um tempo eu comecei a pensar: cara, isso é muito perigoso.

Falta às pessoas aceitarem esses veículos como uma alternativa?  
Se a galera usasse mais, cada vez mais isso iria criando uma necessidade. Mas já andei muito. É superviável. É ótimo para um monte de gente, faz um exercício, é gostoso, você se sente melhor do que quando chega de carro ao trabalho. A cidade não tem espaço, mas precisa ter menos espaço para carro, chega de avenida, Boulevard, ponte. Isso daí é antigo, sabe? A gente precisa começar a pensar pra frente, para as pessoas andarem de ônibus e ter espaço para andar de bicicleta e trazer uma modificação no coração da cidade.

 

"A gente precisa começar a pensar pra frente, para as pessoas andarem de ônibus e ter espaço para andar de bicicleta e trazer uma modificação no coração da cidade"

 

Alguns músicos que vivem em São Paulo estão em várias bandas. Tem o Regis Damasceno, que toca com o Cidadão Instigado, Guizado, Lucas Santanna; o Marcelo Jeneci em carreira solo, que também toca com o Arnaldo Antunes, só pra citar dois exemplos. O quanto é boa essa circulação entre os músicos por diferentes bandas?
É engraçado porque o Regis é um cara muito bom de harmonia, tem uma visão quase que de maestro, sabe ver o todo, consegue enxergar quanto falta bateria, de baixo em uma música. O Jeneci é um supermelodista, consegue colocar as frases certas nas horas certas, á um colorido para a música. O Gustavo Ruiz que é um superarranjador, que manja muito de organização da banda. Aqui em São Paulo a gente tem isso, um leque de músicos, que não são o topo da técnica, mas o suficiente para fazer coisas de muita qualidade. Cada um puxa para um lado e graças a Deus isso é uma coisa infinita.

Eu estava ouvindo o Arrocha no celular sem prestar atenção aos nomes das faixas e a quinta me pareceu a mais paulista do álbum. Quando vi era a “Paris Vila Matilde”. Faz sentido esse pensamento?
Toda criação vem de um momento de brincadeira, de pegar um violão e ficar brincando, pegar uma letra e ficar escrevendo, desse jogo. Eu fiz essa música em Paris num dia frio para caralho. Era uma turnê que estava legal, mas muito difícil porque era de abertura dos shows de uma banda que estava bombada na França. Eu falei com minha mulher, ela começou a me contar umas histórias da Vila Matilde. Ela nasceu e cresceu lá. E isso ficou na minha cabeça e eu pedi para ela fazer uma letra pra mim. Ela fez falando nesse sentimento de estar trabalhando longe e com saudade. Foi como uma conexão eu lá e ela aqui.

Já que você citou esses shows na França, e como você já esteve algumas vezes fora do País, fale sobre a experiência de tocar no exterior. O quanto enriquece sua carreira culturalmente falando?
É muito legal, uma experiência de vida, para botar os pés no chão da realidade. Você chega achando que está fazendo coisa muito diferente, mas, cara, você está no meio do mundo, bota os pés no chão da realidade. Toda hora você fica com a sensação de que alguém está fazendo alguma coisa legal pra caralho. Ao mesmo tempo, fica incomodado e instigado. Os shows são ótimos. Os festivais são em lugares maravilhosos, agradáveis, com um puta som bom. Todo mundo se sentindo bem, tem comida boa, é no verão, sempre numa situação muito favorável à galera se jogar. Eles curtem, dançam, entram no show, sabe? É muito legal. Tem vezes que você vai e causa um estranhamento. Dependendo do lugar aqui no Brasil é mais estranho do que lá. Acho que lá a aceitação é maior.

Você gosta mais de tocar sentado ou em pé? Cantar ou ficar na bateria?
Eu gosto dos dois, cara. É completamente diferente. A bateria dá o chão como se fosse a fundação da casa, coloca os pilares para todo mundo ficar tranquilo morando em cima e poder deitar no sofá. Cantar é cuidar do jardim, pintar a casa, a coisa do arremate. Foi só nesse disco que eu comecei a gostar de cantar, achar legal pra caralho. 

E o Arrocha vai sair no Brasil e na Europa em CD e uma edição limitada em vinil. Foi um desejo seu o formato vinil? O quanto valoriza o produto?
Eu queria muito, o disco da Anelis Assumpção (Sou Suspeita, Estou Sujeita, Não Sou Santa, de 2011. A cantora é esposa de Curumin) saiu em vinil e foi demais. Quando chegou eu coloquei e achei do caralho, trouxe uma coisa para a música... Eu disse: “agora sim, música!”. Só o vinil traz umas profundidades. Principalmente horizontes sonoros que são diferentes, numa penumbra, como se fosse lá longe. Você ouve como se o cara estivesse martelando lá na puta que o pariu. Isso é muito legal, pois quando você ouve tem a sensação de que está em algum lugar com os sons em várias profundidades diferentes. Eu queria muito ouvir para saber se estou atingindo esses lugares lá longe. Isso só no vinil. E eu gosto, não tem jeito, é onde a música é o melhor veículo para você escutar. A música fica muito mais bonita, muito maior.

 

"Hoje em dia é muito difícil fazer um disco. Ao mesmo tempo que ficou mais fácil é muito mais difícil porque não tem mais quem pague"

 

E você vai colocar o álbum para download gratuito?
Acho que vou acabar colocando. Eu não vou ter controle de quem quiser disponibilizar meu disco. Estou achando melhor eu mesmo colocar com uma qualidade legal e que as pessoas baixem num link confiável do que o cara fazer aquele mp3 tosco e a galera ficar ouvindo com qualidade muito ruim. Mas é uma questão interessante mesmo. Eu acho que o certo seria eu fazer um trabalho e receber por isso. Mas não é a ponta do cara que baixa que tem que pagar, tem gente ganhando dinheiro nesse meio do caminho. Acho que esse é o grande problema. 

E aí vem o Ecad querer cobrar de blog que embeda vídeo do YouTube. Você acompanhou esse caso recentemente?
O Ecad eu acho que é completamente arcaico. O pior de todos para dar uma opinião nesse assunto, tem uma estrutura antiga, uma coisa ultrapassada. Mas é uma questão que ainda vamos ficar debatendo por um tempo. Hoje em dia é muito difícil fazer um disco. Ao mesmo tempo que ficou mais fácil é muito mais difícil porque não tem mais quem pague. Estúdio custa dinheiro, por mais que eu tenha feito em casa, fiz uma finalização em estúdio. Eu não posso pagar uma cerveja para as pessoas que trabalham comigo por um ou dois meses. Não foi de graça que eu fiz o Arrocha

Mas e você, o quanto já descobriu com a internet? 
Eu aproveitei esse momento ao máximo. Parece que agora está ficando cada vez mais difícil. Eu acho isso tudo disponível na internet maravilhoso, mas tem pessoas que tem que se responsabilizar que estão ganhando muito dinheiro com isso. Quando eu era jovem era muito difícil conhecer as coisas. Eu tinha que fazer toda uma arquitetura para ir à loja e comprar o que eu queria muito.

A faixa “Bambora!”, que fecha o Arrocha, foi pensada para finalizar? Me chamou atenção o verso: “Os caminhos estão abertos, o céu passou lá fora, é hora, simbora”. 
Essa musica eu tinha só a base e a gente não sabia bem o que fazer com ela. Pensei em dar um tchau. Falar “galera, obrigado por você ter ouvido, até mais”. Mas acho que tem a ver (o verso) os caminhos estão abertos, o céu passou lá fora, vambora, simbora. Dá essa amarrada em tudo.


Vídeo teaser mostra imagens das gravações com Sapo Cururu, décima faixa do disco


Outro vídeoteaser mostra os bastidores das gravações toca um trecho de "Afoxoque", abertura de Arrocha 

Vai lá: www.facebook.com/curumin
www.twitter.com/curumin_oficial
Para comprar o vinil: http://shopuk.vinyllandrecords.com/vinyl/arrocha
Para ouvir "Selvagem", faixa de Arrochahttp://soundcloud.com/vinyl-land-records/curumin-arrocha-sample-selvage

 

(*) Davi Rocha é jornalista, escreve o blog popB e seu Twitter é @davirocha

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