Vivi querendo ser acolhido. Queria me sentir amparado, protegido, como todo menino. Mas não havia família, comunidade e muito menos sociedade para mim.
Certas palavras são como corpos tocáveis, assim sensuais, aconchegantes. Acolhimento é uma dessas. Densa e única, disposta e à disposição. Acolher é abraçar com a alma e as pernas trementes, perdendo para ganhar. Vivi querendo ser acolhido. Queria me sentir amparado, protegido, como todo menino. Mas não havia família, comunidade e muito menos sociedade para mim. Eu jamais coube.
Só hoje percebo que para mim haveria uma outra satisfação. Maior, bem maior que só isso de ser acolhido. Acolher, amparar e preocupar com a vida do outro. Ao adentrar aos portões da Penitenciária Feminina de Santana, estremeci. Vivi 21 anos de minha vida ali dentro, quando ainda era Penitenciária do Estado de São Paulo. Quando revistaram meu material de trabalho, tiraram as revistas Trip. A funcionária afirmou que estava censurada. Estava ali para realizar uma Oficina Literária. Era um projeto piloto para participação das mulheres aprisionadas no 6º Concurso de Redação “Ler é Preciso”, do Instituto Ecofuturo.
Depois de briga enorme do relógio, celular, caneta, moedas e sei mais lá o que, com os censores de metal, consegui ser revistado e seguir adiante. Que alívio! Estava trepidando de nervoso. Maria Tereza estava comigo para fazer registros da Oficina. Fazia frio e a frase “Instituto de Reeducação” doía aos olhos. A ansiedade por chegar agora se transformava em insegurança. Ao adentrar à sala de aula, estava fragilizado ao extremo. Conforme fomos chegando, a sala foi se enchendo de mulheres, como que por encanto. Senti receio que alguém escutasse o alvoroço que meu coração provocava dentro do peito.
Vestidas de amarelo e branco, cada uma com um tipo de corte ou penteado diferente, me olhavam caladas. Os olhos gritavam algo que eu não entendia. Encolhi mais ainda. E… Pronto! Lá estava eu sendo apresentado e já teria que falar. Ai… Chegou a doer. Já de pé, percebi que esquecera tudo. Não era apenas um branco; eram muitas camadas de branco com todas as outras cores misturadas. Ali estava eu de novo a me atirar em vôo livre, sem rede por baixo, asas ou pára-quedas.
Olhei para elas e, de repente, as palavras foram se sobrepondo, tomando um sentido. Há muito aprendera que ensinar é, essencialmente, diálogo sincero. Então fui falando do tumulto emocional que estava ali tomado.
A afirmativa de que o homem é um ser racional é bastante questionável, tendo em vista o fato de que diversas dimensões da psique humana trabalham fora da zona de racionalidade. E foi isso que me salvou. Nem seria preciso falar para que me entendessem. Elas sabiam. Sabiam de mim; haviam me lido, ouvido e visto em livros, na própria Trip, textos em jornais, entrevistas em televisão, em palestras noutras prisões e ali mesmo. Quando senti esse acolhimento incondicional nos olhos brilhantes de cada uma delas, minha alma passou a caminhar suave.
Minhas mãos se compunham de dobras e fendas da realidade, a vida parecia haver parado esperando minhas melhores palavras. Eu me aceitei e me perdoei. Acabei me rendendo ao fato de que é impossível ser melhor. Estar melhor, às vezes, é todo o possível. Então, por três horas seguidas, falei. Minha vida crescia porque as pessoas aprendiam a gostar mais de mim. Era tudo assim bruto e limpo como a chuva. Descobri então que felicidade não é essa coisa grande e barulhenta que imaginava. Discreta e frágil como bolhinha de sabão, flutua ao sopro. O propósito de existir, entendi então, é ter a espessura do prazer de estar existindo.
Quando terminei minha fala, senti que acolhera todas aquelas mulheres em meu peito e que todas elas eram minhas como eu era por elas. Elas eram tão queridas que fiquei, ali dentro de mim, agradecendo a Deus por elas existirem. Jamais me adaptei às minhas posições no mundo; sempre quis adaptar o mundo às minha posições. Agora eu conseguira, depois de décadas entre espinhos, até que enfim às rosas. Encaixado na confusão de acolher e ser acolhido, ao fim e ao cabo da apresentação de minha oficina, recebi tantos abraços e beijos que, ao sair precisei respirar fundo muitas vezes para poder andar e seguir em frente.
* Luiz Alberto Mendes, 54, autor de Memórias de um sobrevivente, ficou 30 anos guardado. Solto, tem muita história para contar. Seu e-mail é lmendes@trip.com.br
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