Sobre buscar crianças na escola

por Milly Lacombe
Tpm #162

Para quem não tem filhos a saída da escola é um evento levemente perturbador. São centenas de crianças de idades variadas, indo e vindo com mochilas pelo pátio como num flash mob que deu muito errado

Diante de um deadline até dar um pulo ao banco soa como uma atração inadiável, então foi isso o que eu fiz numa tarde de segunda-feira de fevereiro. Talvez porque eu esperasse filas e mais filas, e estava disposta a enfrentá-las bravamente, não havia uma alma na agência e minha visita ao banco durou menos de 15 minutos. Mas a arte da procrastinação pode ser desafiadora, então me convenci de que precisava ir ao supermercado. Todo o talento que me sobra para procrastinar me falta para entender que tendo ido fazer compras a pé é prudente não comprar coisas como refrigerantes de dois litros, amaciante, sabão em pó e vinhos. Já na boca do caixa percebi que havia adquirido mais coisas do que seria capaz de carregar. Pensei em ir embora de táxi, mas lembrei que tinha saído sem bolsa e carregava apenas o cartão do banco. Fechei os olhos e comecei a pensar – eu acredito que penso de forma menos atrapalhada de olhos fechados. Foi quando escutei uma voz que dizia: “Mimilly!”. Abri os olhos e vi um rosto conhecido, mas demorei alguns segundos para identificar quem era, ainda que apenas uma pessoa no mundo me chame assim.

“Sou sua irmã, lembra?”, me disse a voz.

“Ainda lembro”, respondi enquanto ela vinha até mim.

“Como assim você não me reconheceu?”, Adriana disse me dando um beijo.

“Estou sem óculos e a cada dia enxergo pior.”

“Sei. Os olhos estão caducos, mas o cérebro tá rápido”, disse ela claramente duvidando de mim. Desde pequena quando duvidam de mim e eu sei que estou dizendo a verdade tenho apenas uma reação: rio sem graça como se estivesse mentindo. Não sei por que faço isso, mas enquanto o fenômeno se dá eu penso: “Para de rir porque assim vai parecer que você está mentindo”, o que apenas me faz rir mais. Enquanto Adriana me olhava com certa desconfiança, ou como quem tenta entender se eu estava com problemas mentais, lembrei que ela poderia me salvar.

“Você tá de carro? Pode me dar uma carona? Comprei muitas coisas”, disse apontando para a esteira.

“Posso, mas tenho que buscar as crianças antes. Vem comigo então.”

Para quem não tem filhos a saída da escola é um evento levemente perturbador. São centenas de crianças de idades variadas, com mochilas enormes, algumas com rodinhas, indo e vindo pelo pátio como em uma performance desordenada ou num flash mob que deu muito errado. No meio daquele caos eu tinha que encontrar Estela, Francisco e Marcelo, mas dada minha deterioração ocular, e o fato de todos ali usarem a mesma roupa – sem falar que é sempre uma surpresa deixar de ver essas crianças por mais de um mês e constatar que cresceram muitos centímetros em alguns dias –, a tarefa é penosa. Notando que minha irmã parecia tão perdida quanto eu, relaxei com a certeza de que se ficássemos paradas eles nos encontrariam. E foi precisamente o que aconteceu.

Pegar sobrinhos na escola é uma tarefa agridoce: começa de forma amarga, com aquela zona perturbadora, e termina com gosto de mel porque quando finalmente nos encontramos eles me abraçam e me beijam como se não me vissem há anos.

Não sei o que fiz para que os nove sobrinhos gostassem tanto de mim. Não dou presentes nem mesmo para os que são também afilhados, e quando acho que devo mudar e chegar com um mimo compro sempre livros. Lembro que meu pai só me dava livros e que eu achava isso ligeiramente tedioso, e ainda assim repito o filme. No Natal eles não esperam nada de mim porque sabem que há anos eu deixei de celebrar o Natal para celebrar o Festivus, que, decretado por mim, acontece no final de fevereiro e é a ocasião em que me propus a dar os presentes porque, expliquei a eles, pego as liquidações. O único problema é que eu só me lembro do Festivus na noite de Natal, quando digo: “Não tenho presentes porque, como vocês sabem, vamos comemorar em fevereiro nosso Festivus”, e fevereiro passa sem a comemoração.

Talvez o amor e o respeito que eles tenham por mim venha do fato de eu tratá--los como seres humanos maduros, o que não é exatamente uma deferência se levarmos em conta que eu não sei me relacionar com crianças e não teria como agir diferente. Em minha defesa, poderia ter aprendido a lidar com pessoas menores de 18 anos se meus sobrinhos não correspondessem às minhas expectativas de diálogo. Dou dois exemplos.

Outro dia cheguei na casa de meu cunhado para o aniversário de Mel, 8 anos. Como eu era a única sem um presente esperei que Mel ficasse sozinha para ir até ela.

“Vou te dar um livro.”

“Jura, Milly?”, disse ela no sofá jogando as pernas para cima. Optei por ignorar o sarcasmo.

“O que você quer? Romance?”

“Não.”

“Aventura?”

Mel parou com a brincadeira das pernas para cima, sentou como uma adulta e disse bastante séria:

“Prefiro tragédias, Milly”.

Uma semana depois comprei um livro tragédia, ainda que a vendedora da seção infantil da livraria não tivesse me levado a sério no começo. Mas aparentemente há um autor gringo que foi capaz de escrever um conto para crianças no qual quase todos os personagens morrem. Ainda não sei o que Mel achou, talvez porque o livro esteja na minha bolsa até hoje.

Passeando pelo bairro dias depois topei com Mel e com Bruna, a irmã mais velha, andando de bicicleta. Mel estava aprendendo a andar sem as rodinhas e enquanto se equilibrava gritava: “Não quero morreeeeer”. Fui até ela:

“Tenho más notícias. Um dia você vai morrer”.

Ela cruzou os braços, franziu as sobrancelhas e disse:

“Eu sei disso, Milly. Só não quero que seja hoje, nem assim, tá?”, e voltou para a bicicleta.

Houve uma época durante a qual eu quis ter filhos, mas ela passou e não me arrependo da decisão de não ter tido. E a verdade é que meus nove descendentes me fazem entender esse outro tipo de amor e de relacionamento, e de quebra me presenteiam com aquilo que as crianças nos oferecem de forma mais clara do que outros: a noção de que as coisas mais reais estão sempre em transformação e que existir é mudar constantemente.

Créditos

Ilustração: Laura teixeira

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