por Natacha Cortêz
Tpm #158

A pesquisadora, designer e educadora Rita Wu é exemplo de uma geração inquieta e interdisciplinar

Rita Wu transgride tudo o que se espera de uma garota de ascendência chinesa, educada para se acomodar e manter o silêncio. Desde a infância, todos seus movimentos foram em nome da inquietação. Aos 11 anos, a biblioteca da Universidade Federal de São Carlos, cidade onde cresceu e onde seu pai era e ainda é professor doutor em Engenharia Química, foi seu laboratório lúdico. Ali, sonhava em ser o próximo Stephen Hawking. “Queria ocupar a cadeira do Hawking em Cambridge, que antes foi de Isaac Newton. Sonhava em ganhar o Nobel de Física, em inventar o teletransporte”, diz.

Hoje, aos 29, ela redefiniu seus sonhos – gosta de ser identificada como designer e educadora.

Foi na faculdade de arquitetura e urbanismo que Rita “descobriu todas as outras coisas”, aquelas que não estavam na biblioteca. Chegou a fazer estágio na prefeitura de São Paulo na área de urbanismo e participou da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, em 2007, com a obra Re-Visões - São Paulo das águas. Ainda durante o curso de arquitetura, estudou tecnologia gráfica no Senai e, por dois anos, psicologia na USP.

Em sua monografia, juntou corpo, máquina e espaço e construiu um computador vestível. “Liguei a roupa às frequências das rampas da faculdade. Toda vibração que as rampas sentiam, a pessoa vestida sentia também.” Flertando com a música, fez o projeto De Novo, Ercília, com a artista Graziele Lautenschlaeger, no Labmis, laboratório de novas mídias do Museu da Imagem e do Som de São Paulo. Feito com estruturas elásticas, o trabalho convidava as pessoas a brincarem com as possibilidades musicais dessas estruturas, usando o próprio corpo.

Rita é interdisciplinar por natureza e “indisciplinar” por opção. Aqui, ela divide com a Tpm algumas de suas observações e estudos acerca de tecnologia, internet, gozo e relações humanas.

"A tecnologia nos aproximou do conhecimento do outro, mas, principalmente, de nós mesmos. Isso ajuda muito em qualquer processo de intimidade"

Internet & relacionamentos. Não é nenhum eufemismo dizer que a internet tem afetado todas as facetas de nossas vidas. Apesar de muitas vezes sozinhos, estamos sempre conectados, e, por isso, acompanhados. Isso mudou radicalmente como nos relacionamos. A questão da mediação tornou-se central: ela molda nossos afetos e sentimentos. Quando eu quis estudar a mediação tecnológica nos relacionamentos amorosos, saí com mais de 200 caras no Tinder. Fiquei mesmo com uns cinco. Mas a dinâmica dos encontros foi a minha pesquisa. A tecnologia nos aproximou do conhecimento do outro, mas, principalmente, de nós mesmos. Isso ajuda muito em qualquer processo de intimidade. A tecnologia ajuda a visualizar as diferenças e a ver e entender o outro, apesar das distâncias geográficas e culturais.

Technoporn. É um grupo fechado no Facebook para pessoas que partilham da mesma curiosidade: como as tecnologias ajudam a entender melhor as novas formas de sentir. Lá, falamos de novos padrões de intimidade, de utilizar diferentes objetos, que foram projetados para outras funções, para o sexo, de expressões para a sexualidade e gênero. Somos mais de 2 mil membros e o grupo tem pouco mais de seis meses.

Sociedade do cansaço. A visão da “sociedade do cansaço”, desenvolvida pelo filósofo Byung-Chul Han, diz que cansamos da mesmice de como nos relacionamos. Hoje, temos várias novas “categorias”: os abertos, os livres, o poliamor, os casamentos por conveniência, o casamento gay. Em relação ao sexo, é a mesma coisa, e a tecnologia é a grande responsável por essas novas dinâmicas e arranjos. Por isso me dedico a pesquisa de novos gadgets, desde os perfumes biólogicos, que são uma produção sintética de feromônios, até extensores clitorianos e capacitativos que permitem a mulher ter prazer e experimentar a sensação de ter um pênis. São facilitadores para a expressão da sexualidade. Assim como a internet, que é mais que a conexão de computadores em rede, mas primordialmente de pessoas em rede.

"No Tinder, no Happn ou no Grinder, quando você vai conhecer a pessoa ao vivo, já existe familiaridade"

O outro. O estranho, o outro, ao invés de causar medo, agora causa curiosidade. O que antes era distante, passou a ser um “estranho familiar”. No Tinder, no Happn ou no Grinder, quando você vai conhecer a pessoa ao vivo, já existe familiaridade.

Garoa Hacker Club, FabLab e SexHackingDay. Todo o processo de hackeamento é importante, pois é uma desconstrução de funções originais. Nesse sentido, hackear objetos, corpos e processos é um gesto político. Fazemos isso no Garoa e na Fab. Já o SexHackingDay foi um encontro na Virada Cultural de São Paulo deste ano. A ideia é desenvolver projetos e tecnologias para o sexo, como, por exemplo, o controle de vibração do celular para que seja usado como vibrador. Acredito na potência revolucionária que explode quando a tecnologia encontra o sexo e quando o sexo encontra a tecnologia. Acredito que o corpo vai além da pele e deve ser subvertido com o biohacking, o hackeamento dos seres vivos.

Tecnologia sexista. A tecnologia traz uma nova visão dos gêneros. Gosto da ideia de sexualidade neutra do filósofo Mario Perniola. Mas, de fato, a tecnologia digital infelizmente ainda é um campo prioritariamente masculino. Mulheres na tecnologia ainda causam estranhamento, mas isso tem diminuído com a ampliação de diferentes mídias e plataformas nas quais podemos nos expressar sem termos que nos sujeitar à ditadura do falo ou a uma masculinização.

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