por Gaía Passarelli

O nômade digital está em alta. Não faltam sites e blogs para alimentar o sonho de ’’largar tudo e conhecer o mundo’’. Mas será?

Sem hipocrisia: viajo bastante, inclusive a trabalho. Recomendo e acredito no poder que uma viagem tem de nos tornar pessoas melhores. Vivemos num tempo em que viajar é possível, abre mil portas e ensina muito, principalmente no que diz respeito a compreender o mundo e nosso papel nele. Só que "largar tudo e viajar o mundo", sejamos sinceros, não é fácil. Aliás, é bem difícil. Mas isso não impede que sites de viagem explorem a idéia numa embalagem saída do Pinterest: bonita, fresca, jovem, cool, invejável, acessível. Vendável.

Cursos de travel writing usam lifestyle para vender seu produto. Há uma porção de cursos assim no mundo, presenciais ou não, sempre espalhando essa crença de que você pode ser pago para viajar escrevendo/fotografando/filmando suas aventuras. Basta pagar o curso e estar pronto para "trabalhar duro". A realidade não é assim, claro. Primeiro porque existem milhares de sites de viagem por aí, incluindo blogs pessoais (como o meu) e de conteúdo pessoa jurídica (editoras, agências de viagem, seguradoras). Segundo porque nem todo mundo tem algo a dizer quando viaja. Terceiro, e mais importante, que você vai precisar de uma mesada, herança ou poupança, porque viajar é caro, a vasta maioria das press trips não estão te pagando e se você pensa em começar a viver de publicar reportagem em 2015: boa sorte.

Mesmo assim, blogueiros de viagem usam esse discurso vencedor "eu consegui, você também pode!" São posts que garantem picos de audiência, elogios e freebies. Normalmente trazem links para cursos como os acima e raramente contam detalhes de quando/como ganham dinheiro suficiente para sobreviver.  Interessante exceção é o Wandering Earl, que desde 1999 está "living the dream" mundo afora (o slogan do site é "a vida de um nômade permanente"). É um blogueiro que se preocupa em mandar a real sobre como sua vida é. Numa publicação recente ele abordou a falta de transparência de vários colegas: "o que está acontecendo é que há tantas pessoas viajando e escrevendo sobre isso, que todo mundo quer fazer parte desse grupo que vive a vida ideal". Leia aqui

Lifestyle é um produto.

Marcas também se beneficiam desse lifestyle irreal. Com as ferramentas certas, criadores de conteúdo de qualquer tipo podem trabalhar de qualquer lugar do mundo, fazendo os próprios horários. Basta ter o computador, a câmera, o tablet, o app, o cartão de crédito que pontua milhagem. 

Mas as marcas mais importantes são os próprios destinos. Você já reparou como países tem slogans? "Incredible India", "Amazing Thailand" e "Brazil Sensational" são alguns (aqui tem outros). Logotipos acompanham.

A indústria do turismo é uma das que mais cresce no mundo e conta com "influenciadores" na missão de transformar potenciais comprados em turistas reais em um mercado concorridíssimo. Esses influenciadores não são mais apenas os agentes de viagem, autores de guias Lonely Planet e editores da Travel + Leisure. Também são travel bloggers que estão sendo pagos para viver experiências inesquecíveis em locações exóticas, registrando tudo no Instagram. É legal? Claro! Dá pra viver disso? Talvez. Mas só se você não fizer questão de ter coisas como plano de saúde ou dinheiro guardado. E você vai precisar ganhar aquele iPhone 6 de um parente rico.

Realidade não vende.

Largar tudo e viver no nomadismo pode ser gratificante para alguns, mas o backstage da estrada é feito de horas no computador trabalhando remotamente em funções que pagam mal, artigos recusados pelas poucas revistas que pagam cachê, amizades que você não tem tempo de cultivar e muita saudades da família. O perrengue financeiro, psicológico e físico não entra na pauta de quem explora a ideia porque é mais fácil vender a imagem de liberdade e autenticidade que millennials desejam.

Se a pessoa que escreve mora num quarto e sala minúsculo numa cidade grande e vive de fazer copy writing ganhando U$0.10 por palavra… dá pra confiar? Recentemente houve o caso de uma blogueira de viagem super popular "desmascarada" por não viver a vida que mostrava no site. O que ela vendia é uma imagem. Pessoas compram essa imagem como se fosse real, porque ela vende como se fosse real. Só que lifestyle não é algo que dá pra devolver e estornar no cartão de crédito.

Não estou dizendo que long term travel é ruim. Não é. Quem tem coragem de encarar essa vida é provavelmente uma pessoa interessantíssima, cheia de histórias e com uma visão do mundo que vale a pena conhecer. 

Mas é uma pessoa com quem quero tomar uma cerveja, não alguém que quero imitar.

Gaía Passarelli, 38, vive em São Paulo com o filho e dois gatos. Está tentando aprender a cuidar de plantas. Escreve sobre viagens no blog How to Travel Light em //gaiapassarelli.com.

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