Por que comparamos as primeiras-damas?

por Lígia Mesquita

De onde vem o simbolismo deste posto? Falar sobre esse papel cabe no mundo de hoje? A eleição americana coloca mais uma vez em debate a estrutura patriarcal em que as primeiras-damas estão inseridas

Numa rápida busca na internet pelos nomes de Melania Trump e Jill Biden, as mulheres que podem conquistar o posto de primeira-dama dos Estados Unidos em 2021, o termo "versus", antagonizando as duas, é frequente. Até aí, nada muito novo: são duas pessoas diferentes, com personalidades distintas, e que representam os campos políticos opostos de seus maridos, Donald Trump e Joe Biden, em disputa nas eleições americanas.

Mas estamos em 2020 e as comparações entre postulantes ao título continuam sendo feitas reforçando estereótipos de gênero que remetem a concepções do papel da mulher dentro de uma sociedade patriarcal: suas qualidades enquanto esposas e mães, a capacidade de demonstrar compaixão e, claro, seus estilos e atributos físicos.

A atual primeira-dama americana, Melania, 50, é cobrada por ser pouco engajada e por ter expressado, desde o início do mandato de Trump, que seu foco seria cuidar do filho, Barron, de 14 anos. A eslovena também tem seu casamento constantemente colocado em debate pelo fato de ser 24 anos mais jovem que Trump – e por ele ser um bilionário. As falas e ações da ex-modelo são frequentemente desqualificadas pois, como sabemos, numa sociedade machista uma mulher bonita não está apta a ter opinião, já que beleza e inteligência não podem caminhar juntas.

Para a pedagoga e antropóloga Jaqueline Conceição, o papel que se espera de uma primeira-dama não cabe mais num mundo em que já houve alguns avanços na luta por igualdade de gênero. “É um cargo social que não tem nenhuma utilidade a não ser reforçar a estrutura do patriarcado de apontar o lugar da identidade feminina”, afirma a fundadora do Coletivo Di Jejê, que pesquisa questões étnicas-raciais e de gênero.

O lugar simbólico destinado à mulher que ocupa esse posto, segundo ela, reforça esse espaço doméstico do cuidado – da casa, da alimentação, do vestir, dos doentes, o que é uma das facetas do assistencialismo. “A total falta de poder dessa mulher reforça o poder do sujeito político”, diz.

Em 2004, questionada pela revista Veja sobre qual o papel de uma primeira-dama, Ruth Cardoso, que ocupou o posto entre 1995 e 2002 no governo do marido, Fernando Henrique Cardoso, respondeu: "Primeira-dama é um ser humano, não é uma Barbie. Não podemos ter um modelito que sirva para todo mundo. Assim como não existe modelo para presidente, não pode existir modelo para primeira-dama. Cada uma desenvolve o trabalho para o qual se sente mais apta".

O próprio termo primeira-dama, que surgiu em meados do século 19 nos EUA, é visto por historiadores e cientistas políticos como anacrônico. E algumas das mulheres que são chamadas assim não gostam. Jackie Kennedy, por exemplo, dizia que primeira-dama parecia nome de um cavalo de corrida.

No Brasil, é ainda pior: a maioria das primeiras-damas passaram a ser chamadas pelo pronome “dona” antes de seus nomes: dona Ruth, dona Marisa Letícia, dona Marly. Esse tratamento, afirma Conceição, é resquício do processo de escravidão, do lugar do imaginário da sinhazinha. "Assim como tantas outras coisas no Brasil, isso é um retrato direto da forma de organização política, social e cultural que a escravidão deixou", diz.

Tradicionalmente, o principal papel dessas mulheres é o de humanizar a figura do marido. Jill Biden, 69, teve uma participação importante na campanha do democrata Joe Biden e é apontada como uma das maiores incentivadoras para que ele tivesse uma mulher, a senadora Kamala Harris, como candidata a vice. Mas ela também não deixa de lado essa função de mostrar ao eleitor quem é o homem e pai Biden, contando, por exemplo, como ele lida com o luto pela perda do filho. Em um discurso em agosto, ela disse que, assim como o marido conseguiu curar uma família desfeita por uma tragédia, ele teria condições de "curar uma nação".

Mas Jill não deixou de bater de frente com a sociedade patriarcal declarando que pretende continuar trabalhando mesmo que o marido vença, o que a tornaria a primeira mulher de um presidente americano a manter seu emprego fora da Casa Branca.

Se isso realmente ocorrer, a doutora em educação e professora há três décadas terá que explicar sua decisão de não querer abandonar sua carreira – o que também não fez nos oito anos em que o marido foi vice-presidente no governo Obama. Explicação que não é cobrada de maridos de líderes políticas como Angela Merkel e Theresa May.

Em entrevista à revista People em 2016, Michelle Obama contou como Jill conciliava sua vida profissional com os compromissos ligados à Casa Branca. Disse que a professora estava sempre corrigindo trabalhos de alunos nas viagens oficiais em que faziam juntas. “E eu dizia: Você tem um trabalho! Me conta como é ter um trabalho?”, declarou Michelle. Era uma pergunta retórica, já que a então primeira-dama americana tinha uma carreira muito bem-sucedida como advogada, mas decidiu deixar a profissão de lado no período em que o marido presidiu os EUA em nome de uma causa maior.

Tinha consciência do enorme poder simbólico, o chamado soft power, que tinha nas mãos, ainda mais sendo a primeira mulher negra nesse papel. Ela usou então sua voz para, entre outras coisas, falar sobre o poder da educação e inspirar principalmente adolescentes negras a vencerem, assim como ela, uma estrutura social que trabalha para sua invisibilidade. 

“A Michelle Obama é uma advogada brilhante e desempenhou um papel mais ligado à força de sua imagem, à comunicação. Nem ela nem outras primeiras-damas têm um papel institucional ou poder de influência política porque não foram eleitas. O poder delas está mais nessa questão da imagem, da mídia”, diz a socióloga e estudiosa das questões de gênero Fátima Pacheco Jordão, fundadora do Instituto Patrícia Galvão de direitos das mulheres. “Não me lembro, por exemplo, de nenhuma pesquisa eleitoral ou de avaliação de um governo em que a atuação de uma cônjuge seja levada em conta.”

A professora e socióloga Ruth Cardoso, morta em 2008, afirmou em entrevista que não teve poder algum durante os oito anos de mandato do marido, Fernando Henrique Cardoso. “Não fui eleita para nada, como qualquer primeira-dama. Tinha apenas uma posição privilegiada para conseguir apoios e firmar parcerias na área social.”

Para a jornalista Ciça Guedes e o historiador Murilo Fiuza, que traçaram o perfil das primeiras 34 brasileiras a ocupar esse posto no livro Todas As Mulheres dos Presidentes (Editora Máquina de Livros, 2019), mesmo que a primeira-dama não precise ter uma atuação pública, sua visibilidade pode contribuir para que problemas cruciais sejam abordados.

Neste quesito, segundo os autores, Ruth Cardoso "revolucionou" a abordagem da questão social no país, criando políticas públicas de efetivo ataque às desigualdades sociais ao combater a fome e o analfabetismo. "Ela foi fundamental para o que hoje se reconhece como o início da redução da extrema desigualdade no Brasil, marcas dos governos de Fernando Henrique e de Lula."

Para a antropóloga Jaqueline Conceição ao ganharem destaque dentro da dinâmica social por suas personalidades e por construir formas de atuação política que saiam da sombra de seus maridos e da alienação do espaço doméstico, as primeiras-damas demonstram a outras mulheres que elas podem fazer o mesmo. 

No Brasil, no entanto, há quase um silêncio absoluto na historiografia em relação a essas mulheres, segundo Guedes e Fiuza. Esse foi um dos motivos para que eles contassem a história delas em Todas As Mulheres dos Presidentes.

"Uma imagem que resume esse desprezo está no quadro do espanhol Gustavo Hastoy, que retrata o marechal Deodoro da Fonseca em uma mesa, rodeado por seus ministros, recebendo da mão do sobrinho Hermes da Fonseca a caneta usada para assinar o projeto de lei da primeira Constituição republicana, de 1891. É possível identificar todas as 19 pessoas da imagem, menos uma: Mariana Cecília de Sousa Meireles, mulher de Deodoro. Ela é a única personagem que está de costas, é impossível ver seu rosto. Mariana está enterrada no mausoléu erguido em homenagem a seu marido, no Rio, mas não há uma única identificação de que ali também estejam seus restos mortais", dizem os autores.

Para eles, a história de Mariana é a síntese das mulheres que desempenharam o papel de primeira-dama em 130 anos de República e que foram sempre tratadas como coadjuvantes: "Com raras exceções, elas passaram à história como meras citações nas biografias dos maridos."

Créditos

Imagem principal: Creative Commons

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