Ópera peso leve
Ela já fez backing vocal para Marcelo D2 e hoje faz bonito no canto lírico brasileiro
Gabriela em seu apartamento, no Rio
em 13 de março de 2009
Ela já fez backing vocal para Marcelo D2, deu aulas de canto na favela do Vidigal e é um dos grandes nomes da música erudita no Brasil. Conheça Gabriela Geluda, a carioca que canta a ópera de seu tempo
Paulina Milsztajn pariu sua terceira filha e ficou muda por um mês. Aos 23 anos, a médica e cantora de coral tinha uma voz aguda e límpida, uma coisa meio Julie Andrews, estrela do filme A Noviça Rebelde. Por causa de uma complicação na cesariana, ela precisou ser entubada e ganhou um nódulo nas cordas vocais. Quando sua voz soou novamente, o timbre era outro: “Estava mais para Maria Bethânia do que para a freirinha austríaca”, conta.

Da mãe que mudou de voz nasceu Gabriela Geluda, a menina que hoje é uma das maiores representantes do canto lírico no Brasil. Por ironia do destino, ela não conheceu a voz com que a mãe cantava e encantava: a de soprano, tal como a dela. Aos 35 anos, já tendo passado do popular ao erudito, a carioca canta e interpreta as óperas contemporâneas da compositora brasileira, Jocy de Oliveira, de 77 anos.
Pós-graduada em música antiga pela Guildhall School of Music & Drama, em Londres, Gabriela foge do estereótipo da cantora de ópera sisuda. É que o trabalho de Jocy, por usar elementos incomuns nas óperas tradicionais, acaba virando um espetáculo multimídia. E a cantora também não é lá muito comum para o meio em que vive. Com um longo caminho na música popular, nos últimos tempos ela se dedica por inteiro ao canto lírico.
A loira que canta e interpreta Medéia – a personagem grega que matou os próprios filhos – não só fez backing vocal no acústico de Marcelo D2 (2004), como viajou meio mundo, incluindo Sérvia e Paquistão, soltando a voz ao lado de DJs consagrados. Em 2006, lançou, com o ex-marido, o baixista Mauro Berman (ex-Planet Hemp), o CD Demoacustico, pela conceituada gravadora londrina Far Out (a mesma de Marcos Valle e Azymuth). E, assim que voltou ao Brasil, Gabriela deu aulas de canto na ONG carioca Nós do Morro, na favela do Vidigal.Subo neste palco
Toda de preto, Melissa nos pés e cabelos soltos, a soprano chega duas horas antes de o espetáculo Solo, que esteve em cartaz no Sesc Vila Mariana em agosto, começar. Ajeita o vestido vermelho que usará na peça e que, nua, vestirá perante o público. Checa se as cordas de uma tambura estão bem afinadas e, de frente para a platéia ainda vazia, verifica se a luz de um holofote está bem centrada nela. Afinal, durante 80 minutos ininterruptos, ela vai interpretar sozinha as personagens míticas Ofélia, Desdêmona, Medéia e uma diva.Dali a duas horas, será difícil para o público identificar o 1,60 metro de Gabriela. Talvez porque, enquanto canta, ela abre o peito, muda as feições e assume o tom dramático que a ópera, apesar de contemporânea, requer.
Especialmente à prática da meditação, descoberta em uma viagem à Índia dez anos atrás, e a uma espécie de reeducação postural chamada Técnica Alexander, Gabriela atribui o seu progresso. “A Jocy foi me dando os personagens de acordo com o meu crescimento pessoal. Primeiro fiz o papel de uma figura mais jovem e etérea, em Illud Tempus. A Medéia já é uma mulher superforte.”Jocy concorda: “Para uma soprano que tem a voz como instrumento, ela está no auge da carreira”.
A mãe, Paulina, com a voz grave – e orgulhosa – conta ao telefone que celebra diariamente o timbre herdado pela filha: “Passei a minha voz pra ela. Já que não posso cantar, minha filha pode. É muito gratificante”.
Tpm+
Conheça a voz e a presença de palco de Gabriela Geluda
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