por Helena de Angelo

A chef Helena de Angelo fala de sua experiência em um ambiente que você nem imaginava ser hostil para uma mulher: a cozinha

Ah, seu avô e amigo machista engraçadinho sempre disseram: “Lugar de mulher é na cozinha”. Você, mulher emancipada, rebateu a idéia com unhas e dentes: lugar de mulher é onde ela bem entender! Desde que a mulher entrou no mercado de trabalho, grandes questionamentos sobre diferenças baseadas no sexo foram iniciadas; o mundo corporativo é constante alvo de avaliações estatísticas sobre salários e cargos ocupados por homens e mulheres. Mas isso se encerra no mundo das carreiras tradicionais. E se uma mulher quiser entrar na cozinha profissional, alcançar altos postos e chefiar seu próprio restaurante? Que tipo de barreiras e expectativas ela encontrará neste mercado?

A mulher precisa abandonar alguns papéis de gênero esperados pela sociedade ao entrar na cozinha como profissional. Os cabelos têm que estar sempre presos; as unhas, curtas e sem esmalte, e nada de maquiagem. Uniformes padronizados e suor na testa o tempo todo. O desgaste físico também é alto, com constantes queimaduras e cortes nas mãos e braços, costas doloridas por carregar peso e pernas inchadas depois de longas horas de trabalho em pé. Persistir é difícil. A mulher é alvo de piadas e brincadeiras diárias, em um tom misógino, onde sua integridade física já foi quebrada pelo próprio ofício. Homens gritam e xingam o tempo todo na cozinha, mas se uma mulher fizer o mesmo, ela tem sua sexualidade e educação julgadas, pois ela não cumpre o papel esperado de uma mulher: sempre polida e gentil. 

Na divisão de cargos, há enorme preferência para que as mulheres cuidem das sobremesas e saladas, com a justificativa de sermos mais cuidadosas, enquanto dificilmente assumimos os preparos de carnes e acompanhamentos elaborados. Assumem-se uma agilidade e rapidez superiores dos homens em cortes e preparos padronizados, fatores marcantes para a escalada de cargos. A mulher está muito presente nas bases de preparos e setores menos glamurosos dos restaurantes, mas é raro alcançarmos postos de chefia. Basta um exercício simples de elencar os melhores ou mais reconhecidos chefs no mundo e vemos que a grande maioria é de homens.

Entendem porque tantas mulheres desistem da profissão? Não existe um fator aspiracional para a mulher encarar esse ambiente hostil, vendo uma lista reduzida de quem conquistou espaço entre os homens.

 

"[na cozinha de um restaurante] A mulher é alvo de piadas e brincadeiras diárias, em um tom misógino, onde sua integridade física já foi quebrada pelo próprio ofício"

 

Aos 26 anos, depois de uma breve carreira no mercado financeiro e um mestrado em economia, resolvi abandonar a vida de mulher moderna e ir para a cozinha. O primeiro entrave da profissão foi meu amadorismo: desde adolescente cozinho para familiares e amigos, mas não havia feito nenhum curso ou trabalhado formalmente. Resolvido este passo, encontrei uma segunda barreira, e certamente a pior, o sexismo. Mulher, jovem e com pouca experiência no ramo, um prato cheio para piadinhas machistas. 

A primeira experiência marcante aconteceu num projeto que fiz para uma padaria. O cozinheiro líder não aceitava ser treinado por uma mulher, ainda por cima mais nova que ele. Ao invés de me chamar pelo nome, falava sempre “menininha” ou “mocinha” e ignorava a minha autoridade. Fiquei bastante abalada e cheguei a questionar se estava fazendo um trabalho ruim, até entender o verdadeiro motivo do desrespeito.

Trabalhei em outros lugares, em outros projetos, e uma constante me acompanhava: machismo em todas as cozinhas. Até eu ir para Londres, trabalhar em um restaurante renomado, tendo apenas mais uma mulher dividindo a cozinha comigo. Porém, nada de machismos ou piadas sexistas. Na terra de Florence Nightingale [a revolucionária enfermeira britânica que ficou famosa por ser pioneira no tratamento a feridos de guerra] consegui entender porque tão poucas mulheres chegam a posições altas no ofício. Tive ótimos chefs ao longo da minha experiência, homens que apoiaram cada passo da minha carreira, mas não evitavam que seus subordinados assediassem moralmente as mulheres na cozinha, com a exceção da minha experiência na Inglaterra.

Para algumas mulheres, os obstáculos foram transpostos. Temos exemplos maravilhosos de grandes chefs que encararam as brigadas e assumiram os próprios restaurantes, como Carla Pernambuco, Roberta Sudbrack, Helena Rizzo (oi, xará!), Bel Coelho, entre outras. Muitas mulheres têm a cozinha como alma e nos inspiram dia após dia (um parêntese especial para Lourdes Hernandéz). E por que não falar em figuras clássicas como a Palmirinha?

A mulher não precisa seguir os papéis de gênero esperados pela sociedade para alcançar postos altos na carreira escolhida, independente do setor. Não desista de ser uma cozinheira, uma chef, uma dona de restaurante. A competência é a melhor resposta para o machismo. 

(*) Helena de Angelo é economista, cozinheira, CDF e rebelde sem causa. Viciada em paixões de duas semanas:  Bloody Mary e chocolate. Atualmente trabalha como consultora para cozinhas e faz marmitas e eventos para pessoas queridas

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