por Lia Hama
Tpm #163

Aos 63 anos, Mãe Carmen de Oxum comanda um terreiro de candomblé que atrai artistas e políticos de diferentes orientações

“Nossas portas estão abertas a todos, a gente não pode negar ajuda a ninguém”, explica Mãe Carmen de Oxum. Em tempos de forte polarização no país, a yalorixá tem em seu currículo encontros com políticos dos mais diversos partidos e das diferentes esferas do poder, incluindo a presidente Dilma Rousseff, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, o prefeito paulistano, Fernando Haddad, e o deputado federal Paulo Maluf.

Aos 63 anos, Mãe Carmen comanda o terreiro Ilê Olá Omí Asé Opô Araká, com mais de 600 iniciados dentro e fora do Brasil. A yalorixá é a representante das religiões de matriz africana no comitê gestor da secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo. Tpm conversou com ela em seu terreiro em Diadema, na região da Grande São Paulo.

Tpm. Como você se tornou a Mãe Carmen de Oxum?

Mãe Carmen. Minha vida espiritual começou aos 19 anos. Tive uma doença no pulmão e fiquei seis meses internada no hospital. O médico mandou chamar minha família, disse que não podia fazer mais nada por mim e que eu devia procurar um centro para me cuidar espiritualmente. Minha família não era do candomblé, mas me levaram a uma mãe de santo. Imediatamente, ela me disse que eu precisava fazer uma obrigação de santo, uma espécie de recolhimento. Fiquei 21 dias na clausura para ser iniciada. Sou iniciada de Oxum, a santa do amor e da fertilidade. Tive que me despir de todas as vaidades para renascer. Meu cabelo foi raspado, dormi no chão, comi com as mãos e usava um urinol para as necessidades. Aí fui desenvolvendo a mediunidade, aprendendo a linguagem do iorubá.

Como sua família reagiu? Eu casei bem jovem, aos 17 anos, e já tinha o meu primeiro filho. Meu marido era representante da Bayer no Brasil, tinha um bom poder aquisitivo. Mas ele não aceitou a minha religião e o nosso casamento acabou ali.

Você já sofreu preconceito por causa da sua religião? Até hoje a perseguição é enorme. Entram nos terreiros de candomblé e quebram tudo. Somos proibidos de fazer oferendas com animais, mesmo que a comida depois sirva à nossa comunidade. Já fui presa inúmeras vezes. O camburão parava na minha porta e eu era obrigada a ir à delegacia prestar esclarecimento só por causa da minha fé.

Seu terreiro fica numa região cheia de mato, à beira de uma represa. Como chegou até aqui? Demorei bastante tempo para encontrar esse lugar, onde estou há 20 anos. Essa casa tem uma história maravilhosa. O antigo dono, Douglas, era um designer de automóveis francês, amigo do sociólogo Roger Bastide [1898-1974] e de Pierre Verger [1902-1996], etnólogo que estudou o candomblé e a cultura afrobaiana. A dona da casa, filha do Douglas, só aceitou vendê-la para minha família quando soube que faríamos um centro de candomblé aqui.

Quem são as pessoas que te procuram? Tem artistas, como o Aílton Graça e o Henri Castelli. Também já me encontrei com políticos, como a Dilma, o Alckmin e o Haddad. Muitos anos atrás, o Maluf mandou um carro com motorista me buscar, fui levada de helicóptero para encontrá-lo num lugar fora de São Paulo. Fiz bastante coisa pra ele. Mas sabe o que acontece? Muitas vezes, as pessoas fazem um trabalho num determinado momento, conseguem êxito e depois não dão continuidade. O abandono pode atrapalhar a vida deles.

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