Lurdes em Amor de
Mãe, Regina Casé
volta ao cinema

por Denise Meira do Amaral

Personagem principal na novela das nove e prestes a estrear o filme Três Verões, a atriz dá vida a mulheres ”protagonistas na vida, mas obscurecidas na dramaturgia”

Regina Casé vem se consolidando como uma das maiores atrizes da nossa geração com personagens que por décadas foram invisibilizadas. Representando mulheres nordestinas e domésticas, que compõe grande parte de nossa sociedade, ela brilha tanto na TV, como Lurdes, a protagonista de Amor de Mãe, como no cinema, como a astuta caseira Madá, de Três Verões, papel pelo qual foi premiada como melhor atriz no Festival do Rio, no fim do ano passado.

O novo filme de Sandra Kogut, que estreia no próximo dia 19, faz um retrato sobre os recentes episódios de corrupção que assolaram o país, a partir do ponto de vista dos empregados de uma mansão de luxo no litoral fluminense.       

Em conversa por telefone com a Tpm, durante o trajeto entre sua casa e o estúdios da Globo no Rio – uma brecha rara em meio às gravações diárias de Amor de Mãe –, Regina Casé, 66 anos, falou sobre o orgulho que sente por representar essas personagens. “Está começando um movimento de trazer à tona pessoas que sempre foram protagonistas na vida, mas obscurecidas na dramaturgia. Uma mulher como a Madá ou como a Lurdes nunca tiveram um lugar nas telas”. 

Sobre o aparente repeteco de personagens, ela relembra que muitas atrizes interpretaram a vida toda papéis de madames, mas nunca foram questionadas. “É como se só as mulheres ricas tivessem personalidades e individualidades, enquanto as pobres fossem todas iguais.” Na entrevista a seguir, ela também falou sobre ser mãe pela segunda vez, se tornar avó e criticou o atual momento político: “Existe hoje um desencanto. Uma violência absurda, um ódio, medo”. 

 Tpm. Como você definiria a Madá, de Três Verões?

Madá é uma daquelas inteligências que você fica pensando: "Caraca, se essa mulher fosse bióloga, astrofísica…". Porque a capacidade dela de solucionar problemas, de resolver a vida dos outros, é impressionante. É muito legal mostrar mulheres que estão escondidas e invisibilizadas na cozinha ou no quarto de empregada. 

Tpm. O filme traz para primeiro plano pessoas que normalmente estão nos bastidores.

Sim. É o começo de um movimento que está mostrando todas as pessoas que foram sempre tão protagonistas na vida, mas obscurecidas na dramaturgia. Uma mulher como a Madá ou como a Lurdes nunca tiveram lugar nas telas, mas, na vida real, têm um tamanho enorme. Muitos personagens que antes entrariam somente para dizer “aceita um café?” são agora todo um universo. Em Três Verões, vemos na manchete do jornal que o patrão foi preso, que ele está com tornozeleira eletrônica. Mas tudo gira em torno dos empregados – a empregada que deixou de ser atendida pelo SUS por verbas desviadas por corrupção, por exemplo. Isso nunca constou na história. É muito legal que o filme tenha esse olhar vivo cada vez maior para esses personagens que são tão importantes. 

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Três verões se passa em um momento de muitas mudanças no Brasil. Como você avalia esse período?

Acho que a gente não consegue avaliar claramente tudo que aconteceu. Estamos ainda mergulhados em muitas mudanças. O que sinto, assim como no filme, é que as coisas foram acontecendo sem as pessoas se darem conta. Isso é um grande mérito do roteiro da Sandra [Kogut] e do filme. Não tem uma bomba que cai. Aquilo vai se processando e, quando as pessoas percebem, a vida já está totalmente desarticulada. A Madá é demais, ela é até levada [pela polícia] por [condução] coercitiva [para prestar esclarecimentos sobre as atividades do patrão]. E, no fundo, essas palavras entraram para o vocabulário. Acho incrível que em uma cena ela explica para outro personagem o que é data venia. Uma caseira de praia explicando isso para todas as pessoas... É impressionante. 

Em Amor de Mãe, sua personagem Lurdes aparece em quase todas as cenas da novela. Como tem sido sua rotina de gravação?

Eu gravei absolutamente todos os dias desde que a novela começou, com exceção dos domingos. Está uma loucura, foi uma mudança muito grande. Você vai para outro país, outro planeta. Eu não estou nem me queixando, porque está sendo um dos trabalhos mais felizes e bonitos da minha vida. Mas eu não vejo mais ninguém, não ando mais na rua! Em poucos dias eu vejo a luz do sol. Acordo às 6h30 e fico um pouco com o Roque [seu filho de 6 anos], até ele ir para a escola, às 7h. Então começo a fazer minhas coisas. As gravações acabam às 21h, todos os dias. 

O que fez você voltar a fazer novela, após um hiato de quase duas décadas?

O convite da Manuela [Dias, autora da novela] e do Zé [José Luiz Villamarim, diretor] foi muito lindo, muito amoroso. E quando eles disseram quem era a Lurdes, vi que existiam um milhão de Lurdes. Não tive dúvidas. O que tive foi um dilema porque estava com um programa já pronto com o [antropólogo] Hermano Vianna, com equipe toda montada, contratada. O programa ia estrear em outubro, mas em julho ou agosto me convidaram para a novela. Foi um dilema abrir mão de tanto trabalho. E de um lugar que eu já estava acostumada, onde sempre tinha a última palavra, um lugar que eu decidia praticamente tudo, que eu escolhia a minha equipe. Na novela, entrei em uma equipe em que não conhecia praticamente ninguém. Me sentia como uma menininha indo para o primeiro dia na escola. Foi uma mudança muito radical. 

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No Carnaval, tinha muita gente fantasiada de Lurdes. Por que houve essa identificação tão grande com o personagem?

Estou numa felicidade que não cabe em mim. É um momento que sinto todas as pessoas com muita agressividade, ódio, antagonismo, e, ao invés de pontes, estamos construindo muros. Só estamos nos relacionando com quem temos a ilusão de sermos iguais. Considero quase um milagre a Lurdes aparecer nesse momento e contexto. Tive sorte de poder ser essa emissária, essa mensageira de tanto amor, mas um amor sem ser boazinha. Ela complexa, é frágil, mas é forte; acerta, mas erra. Não há dúvida que ela ama, ama, ama demais quem é diferente, ama quem trata ela bem, ama quem trata ela mal. É impressionante a capacidade dela de amar. E considero uma sorte, um prêmio poder ser um veículo desse amor que acredito latente no Brasil.

Acha que ela tem feito sucesso por conta desse amor que está nos faltando?

Acho. E também por ela carregar essa dualidade. Só esta semana tive uma cena com o Chay [Suede] triste, com choro. As pessoas adoraram. Mas, no dia seguinte, elas morreram de rir porque estava tomando gin com a patroa. Porque a vida é assim, não é só um drama nem só um mar de rosas. A Lurdes significa tanta coisa, um Brasil que a gente está morrendo de saudade.

Que Brasil é esse?

Um Brasil amoroso, cordial, delicado, cuidadoso. O mundo todo está em um momento muito difícil. Estamos perdendo várias características nossas, o nosso melhor. Passei anos fazendo um programa que era o Brasil Legal, mostrando pessoas anônimas de todos os cantos do Brasil, sua grandeza, sua beleza. Viajei mais de 40 anos mostrando pessoas que não tinham nada, que viviam com dificuldade, mas sempre dando seu melhor. A gente está com saudades disso tudo.

Existe hoje um desencanto, uma violência absurda, um ódio, um medo. Acho que todo mundo queria chegar em casa no fim do dia e encontrar a Lurdes para ter uma conversa com ela [gargalhada]. Ou também ser sacudido por ela, levar uma bronca. A Lurdes simboliza também um novo momento da mulher brasileira. Quando uma personagem da minha idade, pobre, nordestina, empregada doméstica ia ser protagonista? Ia fazer piada com a mocinha da novela? 

Você fez muito sucesso como a Val, de Que horas ela volta?, e agora chegam a Lurdes e a Madá. O que elas representam?

Apesar de eu ainda ouvir “a Regina só faz papel de pobre, lá vem outra empregada, de novo outra nordestina, isso vai ficar tudo igual”, tem sido muito útil para deixar claro esse preconceito gritante. Tem atrizes que estão na casa dos seus 80 anos, só fizeram madames e grã-finas, e nunca ninguém questionou isso: “Outra grã-fina? Vai ficar tudo igual”. É como se cada mulher rica tivesse uma personalidade e individualidade diferente e todas as pobres fossem iguais: uma massa de gente que está no mundo para servir. Eu mesma não tinha consciência disso antes. Então, tenho um orgulho enorme de estar representando todas essas mulheres que têm um peso na construção do Brasil e que não estavam sendo reveladas. Tem outro orgulho que é pelo meu histórico de vida, do meu trabalho, da educação que recebi dos meus pais, dos meus avós, de já poder ter convivido tanto com tantas Lurdes a ponto de conhecer cada gesto, cada piscada de olho, cada maneira de sentar. Tudo isso está em mim. Amo essas mulheres do povo. E conheço elas muito de perto, estive na casa delas. Há 40 anos convivo com elas nas periferias, nos sertões, nas grandes cidades, conheci inúmeras Lurdes. Tem gente que junta dinheiro na vida, não tem? Mas o meu patrimônio é o número de Lurdes que tenho em mim. E vou te dizer: Lurdes não é só mulher não, viu? Tem meu avô Casé, meu tio que era palhaço em Caruaru, o Lorival. Às vezes, há gestos ou tiradas da Lurdes que percebo que tirei do Lorival. Se guardei isso em mim, é porque achei bonito. Se no meu tesouro tem guardado esse resto do Lorival e de todas essas mulheres é porque soube durante minha vida amar muito essas pessoas e fui muito amada por elas. Fui recebida sempre de portas abertas. Todas abriram seu coração, fizeram comida boa para mim, tomaram banho de rio comigo. Elas estão em mim. É como se a Lurdes tivesse colocado um revelador de fotografia em mim. Revelou o melhor de mim. Uma coisa tão bonita que tinha e nem eu mesma sabia. Talvez o que tenha me dado a chance de fazer a Lurdes é justamente não ser a mocinha, não ser a bonitinha, não estar no padrão de beleza. Se eu tivesse feito muitas plásticas, se estivesse toda esticadinha, com silicone e no shape, talvez não pudesse fazer a Lurdes. 

Como foi ser mãe novamente? Você uma mãe agora muito diferente com o Roque do que foi com Benedita?

A minha maternidade tardia do Roque me provou que a natureza é burra porque sou uma mãe muito melhor para ele do que fui para a Benedita [Regina adotou Roque quando ele tinha quatro meses, com o marido Estevão Ciavatta]. Com menos medos, ansiedades, dúvidas. Sou uma mãe com uma maneira de ver o mundo muito melhor. 

Como é ser mãe de um menino negro no Brasil? Você já disse que muitas vezes o Roque é o único negro nos lugares. Ele já fala algo sobre isso?

Eu converso com ele sobre tudo, sobre isso também. Qualquer menino negro que viva numa classe com grana vai ser o único porque vivemos num país com muita desigualdade social e, claramente, um país racista. Eu prezo muito quem pratica o macroativismo, mas procuro apresentar soluções para o dia a dia. Por exemplo, na escola do Roque já conseguimos colocar conteúdo negro nas aulas e dar bolsas para crianças negras. Imagina a gente ter conseguido colocar 30 crianças negras em uma escola cara, particular? Então acho que o Roque me provoca a não me conformar e a pensar: o que podemos fazer juntos para mudar o mundo?

E se tornar avó? Foi muito diferente de se tornar mãe?

Acho que teria sido mais diferente se eu não tivesse o Roque. Ser avó é um sonho, um negócio de outro mundo de tão bom. Atualmente, está muito confuso porque às vezes o Brás [filho de Benedita Casé e João Pedro Januário] me chama de mãe, eu troco o nome deles o tempo todo...  Eles são muito mais irmãos do que tio e sobrinho. Fico pensando que minha volta como atriz está sendo tão maravilhosa, um reconhecimento tão grande, que falo: “Nossa, mas por que me distanciei tanto da carreira de atriz?”. Mas, olhando para trás, não estava à toa na vida. Só existe Roque, só existe Benedita porque me dediquei à construção de uma família de uma maneira... Os programas que fiz são todos correspondências do mesmo amor, da mesma vontade de ir ao encontro de tudo isso que vemos na Lurdes. Ela é um pouco do Esquenta, do Brasil Legal, da Central da Periferia. Eu abri mão de uma coisa [da carreira de atriz] para ganhar muitas outras coisas.

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