por Lola Benvenutti
Tpm #158

Profissionais do sexo, atrizes pornô ou noivas virginais, todas nós temos que aprender a dizer não. Faz um bem danado

Mulheres americanas recém-iniciadas na vida adulta buscam independência, grana e fama na indústria do pornô “caseiro”, que descobrimos no documentário Hot girls wanted estar mais para indústria do que para caseiro. Mas o que chama a atenção no filme lançado em abril deste ano no Netflix aparece lá pelo meio do longa dirigido por Ronna Gradus e Jill Bauer. Num dado momento, o deslumbramento das meninas com carrões, festas e grana rápida dá lugar a relatos de desgaste físico e emocional. Tá. E, de repente, as falas inicialmente permeadas por ideias ligadas a liberdade, fuga da opressão familiar e ganhos financeiros são substituí-das pela descrição de uma prática específica, que, além de angustiante, é muito comum no meio, sendo muitas vezes a porta de entrada nesse mercado: o chamado facial abuse (abuso facial).

Resumindo de forma elegante, nesses filmes, encontrados aos montes na internet, assistimos sempre a um homem forçando o pau goela abaixo até que a garota vomite. Se parasse por aí, poderia ser considerado um fetiche bizarro, mas, nas cenas, o rapaz em questão agride verbalmente e fisicamente sua parceira e, a pior parte, algumas vezes faz com que a moça coma seu próprio vômito. Em alguns filmes há um potinho de comida de cachorro em cena.

Fiquei pensando nos monstros que esses filmes criam, não só por se tratar de cenas extremamente violentas, mas por reforçar um padrão que faz com que os homens nos tratem como marionetes. Homens que pensam que trepar por 7 horas seguidas, nas posições mais malucas, é ser bom de cama. Homens que se esquecem de explorar o corpo feminino e do prazer das preliminares. Homens que se esquecem da sensibilidade, da atenção, do afeto e da sensualidade que o momento exige e tornam-se máquinas de trepar. Embora as pessoas tenham os desejos mais diversos e afirmem que os filmes são apenas uma maneira de se excitar, no limite, esses pornôs ensinam modos de agir que deixam as mulheres profundamente insatisfeitas. Sexo é uma dança, sexo é poesia e fruição. É degustar o corpo do outro sem pressa, com vontade, com intensidade, mas sem um roteiro e sem regras prédefinidas.

Com esses filmes, legitima-se um modo de agir: violência, brutalidade, estupro. Legitima-se o “sim” em detrimento do “não”. Nós, mulheres, temos que aceitar complacentemente os desejos desses homens e fazer aquilo que não gostamos? Alguém aí curte vomitar enquanto chupa um cara – e ainda comer o próprio vômito? No filme, algumas moças relatam que quando acaba a filmagem fica claro que aquilo era encenado e que os caras se mostram preocupados com elas. Mas será?

Nesse ponto, fiquei pensando em mim, em quanto tempo demorei para aprender a dizer não. Meu caso era tão delicado quanto o dessas atrizes: eu era a puta, recebia para transar e precisava satisfazer os meus clientes, cumprir o meu papel. O que as pessoas esquecem é que, mesmo sendo profissionais do sexo, somos humanas e temos sentimentos (que, às vezes, omitimos para cumprir nossos papéis com “maestria”). Dizer não é um exercício diário que exige prática e dedicação – e faz um bem danado.

Quando comecei a dizer não a clientes para práticas que não me agradavam e para comportamentos que para mim eram ofensivos, minha vida melhorou muito. Foi por isso que não fiquei presa a um limbo de humilhação e negatividade. Vejo que essas garotas também precisam aprender a dizer não. Precisam saber que o estigma não irá acabar, mas que depende de nós não introjetá-lo e não nos resignarmos diante do que esperam de nós. Essa é a liberdade de putas, de atrizes pornô e de todas as mulheres que lutam pelo seu prazer: saber dizer não ao que não faz bem.

Quem faz a diferença

Essa questão gerou até um movimento, o Make love not porn (faça amor, não faça pornô), criado pela inglesa Cindy Gallop, cansada de ver os homens com os quais saía reproduzindo os padrões de filmes adultos (saiu na Tpm: bit.ly/naofacaporno). Os filmes da sueca Erika Lust também vão na contramão dos estereótipos. Formada em ciências políticas e especialista em feminismo pela Universidade de Lund, na Suécia, Erika resolveu lutar pela igualdade entre mulheres e homens no mundo pornô depois de trabalhar em uma produtora de cinema.

Aqui no Brasil, quem tem feito um trabalho interessante nesse sentido é a XPlastic, produtora de conteúdo adulto por assinatura que trabalha com modelos alternativos. Conversei com a Mayara Medeiros, diretora de produção. Ela garante que as modelos adoram trabalhar com a XPlastic porque há um interesse pelo prazer feminino e mais liberdade na hora de gravar. “Falamos: 'A câmera está ligada! Façam o que quiserem'. Isso acaba sendo um estímulo criativo, já que muitas meninas sugerem ideias de cenas. Não gosto de fazer a linha de que tudo ali é maravilhoso, não podemos esquecer que o que fazemos é ficção, é trabalho. Mas queremos que seja o mais divertido possível para que o público sinta isso e se divirta também”, diz Mayara.

Para ela, a indústria da pornografia tem, sim, sua parcela de responsabilidade social como qualquer outra possui ou deveria possuir. “Não dá para mostrar uma cena em que a menina é violentada e não mostrar depois a atriz falando como se sentiu, o que achou. Na minha opinião isso deveria vir em todo filme pornô, como cenas extremas. É como o aviso atrás do maço de cigarro”, diz. Para ela, é preciso mostrar que, por trás da violência consentida, existe respeito. “O Kink, site especialista em práticas de fetiches, incluindo humilhação pública, faz isso em todas as suas cenas. Os atores conversam antes ou depois, ou os dois, e isso é mostrado. É o mínimo e deveria ser uma regra”, completa.

Vai lá: lolabenvenuttioficial.com.br

matérias relacionadas