Gleice Simão: críticas e racismo no Masterchef

por Camila Eiroa

A candidata mais atacada em um dos programas de culinária mais assistidos da atualidade fala sobre racismo, críticas durante a competição e o assassinato do irmão: “Me sinto mais madura agora”

Ela nunca tinha assistido a um episódio inteiro de MasterChef, mas sabia que as pessoas choravam muito por lá. Inclusive, quando resolveu ligar a TV, chorou pela saída do candidato Baiano e resolveu não dar mais sua audiência para "um programa desse". Se ela pensava em se candidatar? Nunca.

Aos 20 anos, a paulistana Gleice Simão não só entrou no reality show culinário como se tornou a candidata mais atacada nas redes sociais enquanto participava da edição atual. Os comentários chegaram aos trends no Twitter e, na grande maioria dos casos, se resumiam a ataques racistas. "Onde já se viu, uma negra ganhar essa prova?", ela lembra de ter lido. Acusada de tentar conquistar os jurados com drama, resistiu à competição enquanto lidava com o assassinato recente de seu irmão e às críticas por não conhecer pratos mais sofisticados.

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A ideia da jovem nunca foi fazer da cozinha um território gourmet. Filha de mãe baiana e pai mineiro, Gleice se encanta pelos sabores brasileiros. "Tem gente que vai a alguma capital diferente do país pra comer em restaurante italiano, sem conhecer o sabor da Bahia, por exemplo."

A ideia ao se inscrever para o programa era levantar grana para um projeto entre amigos que queriam viajar cozinhando e contar a história da cozinha de lugares específicos, o Mochileiros da Gastronomia, que pretende retomar agora. Foi a única deles a passar na prova que lhe rendeu o avental do programa. Hoje, eliminada, acredita estar mais madura e consciente de seu lugar como mulher negra. E garante: cozinhar não vai deixar de ser seu sonho tão cedo.

“Tive uma infância muito pesada, cheguei a passar fome. Nasci com anemia profunda e minha mãe batalhou muito por mim”
Gleice Simão, do MasterChef

Tpm. Quando você se encantou pela cozinha?
Gleice Simão. Tive uma infância muito pesada, cheguei a passar fome. Nasci com anemia profunda e minha mãe batalhou muito por mim. A comida era exatamente aquilo que faltava. Minha família foi sempre muito unida. Morávamos na periferia, em frente a um córrego, quando chovia tudo o que tínhamos era destruído. Por isso não fazíamos ceia de Natal  nem de Ano Novo. Não dava gosto de montar uma mesa pra estragar. Quando começamos a comemorar essas festas, percebi que quando estávamos juntos na mesa, comendo, tinha felicidade. Era uma bagunça. Foi quando pensei que queria levar isso para as pessoas.

Sua família tem alguma ligação com a cozinha? Minha família é de dentro da padaria. Aos 16 anos eu trabalhava em uma biscoitaria junto com eles. Sempre gostei muito de atender as pessoas e ali meu sonho foi fazer gastronomia, embora eu não visse recursos financeiros pra isso. Aos 18 anos recebi uma promoção no emprego e foi uma das coisas mais importantes que já tinha conquistado até então, percebi que podia mais e mais e comecei a estudar gastronomia sozinha.

E logo entrou para o MasterChef. Sim, foi questão de um ano.

Qual foi o maior impacto dentro do programa? Acho que foi a questão da privacidade. De repente metade do mundo sabia de mim e eu não conhecia metade deles. Me reconhecem muito na rua, coisa que eu nunca acreditei que poderia acontecer.

“Passei muito mal em um episódio e ouvi algumas pessoas me dizendo para sair, que eu não estava aguentando a pressão”
Gleice Simão, do MasterChef

Dentro da competição, você sentiu que algumas pessoas não queriam você ali? Não diretamente, mas senti, sim. Passei muito mal em um episódio e ouvi algumas pessoas me dizendo para sair, que eu não estava aguentando a pressão. Isso, querendo ou não, te dá força pra eliminar essas pessoas ou pra desistir. Sabia que queriam que eu não continuasse, mas se eu pedisse pra sair, estaria sendo fraca e desistindo. Preferi me manter firme e ser eliminada quando realmente tivesse um motivo.

Muitas vezes, quando eles pediam algum prato mais sofisticado, você não sabia como preparar.  É o que eu sempre digo, não me apoio em dizer que eles têm um conhecimento maior que o meu por privilégio. Acho que todo mundo que nasce dez anos atrás de mim tem mais base, viveu coisas diferentes. Não acho que é exatamente uma questão de dinheiro, mas eles conhecem um mundo que eu não conheço ainda, comecei a ir para o mundo agora.

“Você começa a se olhar no espelho e reconhecer sua condição social, sua cor… Mas é a realidade, desculpa”
Gleice Simão, do MasterChef

Como você lidou com os ataques na internet? Confesso que realmente tinha medo de sair de casa. Eram pessoas que eu não conhecia, mas que me reconheceriam se me vissem na rua. Quando a minha ficha caiu, de que eu estava lá dentro e incomodava muita gente com aquilo, lembrei que a gente vive em um mundo muito racista. Não tinha sentido isso na pele até então. Você começa a se olhar no espelho e reconhecer sua condição social, sua cor… Mas é a realidade, desculpa, minha vida é essa. Como a da maioria da população. Li coisas absurdas, como "onde já se viu uma branca sair e uma negra ficar?".

Isso te desmotivou em algum momento? Em relação ao jogo, não. Mas me fez pensar que aquilo tudo poderia terminar logo [risos]. Ouvir que eu continuava na competição porque sentiam dó de mim foi muito ruim, eu queria estar ali por mérito. Quando chorei no programa, era porque estava pensando no meu irmão. Enquanto eu preparava o prato, nem me toquei, mas depois lembrei que foi a última coisa que eu cozinhei pra ele. Não tinha como não me emocionar.

“Tinha acabado de enterrar o corpo daquele que era o meu herói e me ligaram ”
Gleice Simão, do MasterChef

O que aconteceu com o seu irmão? Uma semana antes de começarem as gravações do MasterChef ele foi assassinado. Foi na periferia da zona sul de São Paulo. Ele e meus primos estavam na frente de casa, perto da meia noite, conversando e esperando uma pizza. Lá era uma bagunça; pancadão na rua, violência. Um cara chegou de moto, bêbado, falou umas besteiras, sacou uma arma e acionou o gatilho quatro vezes, na última saiu uma bala direto no peito do meu irmão. Meu primo também foi atingido, mas de raspão. Presenciei tudo, sabe? Peguei ele no colo com vida ainda, o último suspiro dele foi dentro do meu abraço. Uma semana depois aconteceu a mesma coisa, mataram um cara desse mesmo jeito, o que nos levou a pensar que o primeiro assassinato foi por engano. Era algo muito recente, entende? Tinha acabado de enterrar o corpo daquele que era o meu herói e me ligaram para dizer que eu tinha passado na primeira fase do programa. Não pensei em desistir em nenhum momento.

Essa realidade, somada aos ataques que sofreu, fez você repensar o seu lugar na sociedade? Antes eu tinha uma visão mais restrita, de que o mundo não estava mais tão ruim ou preconceituoso. Só entrava em contato com isso quando aparecia na mídia, quando  a Taís Araújo ou o Lázaro Ramos falavam de racismo. Com o programa consegui enxergar que não é bem assim, muito pelo contrário. Acho que estou mais forte, o MasterChef foi uma transformação, me fez muito mais madura.

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Créditos

Imagem principal: Divulgação/Band

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