por Noor Shakouj

Mesmo com medo, Noor está tentando levar uma vida normal em Istambul. Arrumou um trabalho que vai contra as crenças de sua mãe e sua irmã. Pensa em seguir seu rumo - mesmo que não saiba qual é - e não descarta uma nova tentativa de ir à Europa

De 21 a 05 de outubro, 2015

E já se foram mais de duas semanas desde que voltei a Istambul. Uma semana depois que chegamos - eu, Diala e Mulham. Ele tentou, sozinho, ir de novo à fronteira para chegar à Europa. Ficamos três dias sem notícias, seu celular estava desligado. Quando apareceu em casa, estava todo machucado. A polícia o pegou e ele apanhou mais uma vez. Vê-lo voltar de novo, com seus planos desfeitos, trouxe mais desesperança. Mostrou que realmente não somos bem vindos e que não podemos nos arriscar agora. 

Depois da volta, acho que entrei em uma crise de depressão. Os dias aqui não têm sido fáceis. Se no começo eu estava revoltada e querendo de qualquer maneira ir para a Europa, passei boa parte dos últimos dias apenas querendo dormir. Mas não é possível. Preciso ganhar a vida, voltar para o rumo, mesmo que eu não saiba exatamente qual caminho seguir. 

Arrumei um trabalho em um bar. Minha mãe e minha irmã ficaram um pouco chocadas quando contei. Elas, que ainda moram na Síria, seguem a religião à risca e não enxergam um bar como um ambiente que eu deveria frequentar. Na verdade, elas não gostam nada dessa ideia de eu estar tão próxima do álcool e de uma vida que vai completamente contra a religião. Mas, sem documentos aqui, não tinha muitas alternativas, e eu disse a elas que prefiro contar o que estou fazendo do que esconder a minha realidade. 

Tenho tentado levar uma vida normal. Trabalhar todos os dias, sair com meus amigos para dançar. Mas a ideia de seguir para a Europa ainda não me saiu da cabeça. Sei que por terra não consigo seguir agora, penso na possibilidade de em algumas semanas encarar essa viagem por mar. Estou me preparando novamente, dessa vez mais psicologicamente.

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