por Micheline Alves
Tpm #55

Pode ser observando as pessoas na rua, pode ser tomando vinho em um restaurante, pode ser assistindo a uma boa sessão da tarde no sofá: Danuza Leão sabe ser só e feliz ao mesmo tempo

“... Uma semana mais tarde, era meu aniversário. Sentei num café, pedi uma garrafa de champanhe e brindei sozinha, bem como eu gosto, a meus setenta e dois anos.” A frase está em Quase Tudo, o livro de memórias que Danuza Leão lançou no fim do ano passado, pela Companhia das Letras. O trecho diz muito. Não só porque revela a idade de Danuza, coisa que até então todo mundo queria saber e ela nunca contava, mas porque mostra exatamente como ela mais gosta de ficar: sozinha.

A história de Danuza todo mundo conhece. Ela foi a primeira modelo brasileira a desfilar em Paris, foi casada com um dos homens mais poderosos da imprensa brasileira (Samuel Wainer, com quem teve três filhos), teve mais dois maridos depois dele (Antonio Maria e Renato Machado), perdeu um dos filhos (o também jornalista Samuca), foi dona de loja e relações-públicas de boate, virou colunista de jornal e autora de best-sellers.

Hoje a rotina se divide entre textos para o jornal, palestras, eventos de divulgação do livro... ou uma das milhares de coisas que ela inventa para fazer no Rio de Janeiro, onde mora — sozinha.

Homens ainda existem (um dos trechos mais comentados do livro é sobre uma noite que ela passou recentemente com um desconhecido em Paris). Maridos, nunca mais. Danuza se acha independente demais para dividir a casa com alguém. Prática, bemhumorada, franca, ela choca as feministas ao declarar que “mulher é muito chata”. Mas dá uma lição de liberdade, para eles e elas.

Tpm. Segundo o IBGE, a maioria de separações judiciais no Brasil é determinada pelas mulheres. Por outro lado, estamos sempre querendo casar de novo. Mulher tem dificuldade de ficar sozinha?
Danuza Leão. Eu acho muito natural que as mulheres tenham mais coragem de ir embora, e que queiram arranjar outro homem. Se não deu certo com esse, pode dar certo com outro. Mas a coisa mais difícil de mudar é essa busca do príncipe encantado. Nunca vi em nenhum livro ou revista que algum homem estivesse procurando sua princesa encantada. Mas nós, sempre. Mesmo a geração mais novíssima de todas continua com essa coisa. Mulher quando se separa diz “pois é, não deu certo, mas continuo procurando o homem certo, o meu príncipe”.

Você já foi casada e feliz assim. Por que hoje cultivar a solidão?
De vez em quando eu bem que gostaria de ter um homem do meu lado. Mas me convenci de que sou muito independente, quero muito fazer minhas coisas do meu jeito. Eu gosto de escolher aonde vou, em que restaurante vou comer. Talvez seja egoísta da minha parte, mas realmente não quero ninguém que me diga o que fazer. Para ser desse jeito, a pessoa não pode ter homem do lado.


Sua geração foi preparada para ser esposa. De onde vem tanta independência?
É uma independência que nos foi dada, a mim e a minha irmã, por meu pai. Uma coisa de educação. Se os pais valorizam certas coisas, se dizem que é para baixar a cabeça e aceitar o que o homem diz, assim vai ser. Comigo não foi assim. E eu jamais embarquei nessa história de feminismo. Anos atrás, houve o projeto de uma revista só feita por mulheres e me convidaram pra trabalhar. Nem pensar! Não me meto nessas coisas. Essas liberdades a gente adquire individualmente. Não adianta um movimento.

Como foram suas separações? Foi tudo sempre prático, sem nenhum drama?
Foi sempre com muito drama, muito sofrimento, como todas, eu acho. Eu tenho a ligeira suspeita — ligeira, não é uma certeza — de que eu também não me caso há muito tempo porque sei como vai ser a separação. Que é inevitável, né?

E fidelidade? A solução é a gente esquecer essa parte? Eu não conheço casamento aberto que tenha dado certo. Você conhece?
Eu, quando estou com um homem, simplesmente não consigo olhar pra outro. Sou absolutamente fiel. Não sei se é uma coisa minha ou de mulher. Para mim, o grande drama da traição é a mentira, a falsidade. O marido dizer que tem reunião e ir se encontrar com outra mulher; a mulher dizer que vai ao cabeleireiro para ver o amante... É impossível conviver com a mentira.

Por mais esclarecidas que sejam as pessoas, descobrir uma traição dói muito, né?
Nossa, dói tanto! O cara dizer que estava não sei onde e você saber que não era verdade... E ele ainda chegar e dizer “Oi, meu amor, estava morrendo de saudade de você”, não dá. Eu tenho uma teoria muito louca, que nunca consegui colocar no papel, que é a seguinte: o culpado de tudo é o sexo. A relação com um homem pode ser a melhor do mundo, de amigo, até com coisas mais amorosas, mas só enquanto não houver sexo. Na hora que entra sexo, entra a idéia de possessão, você não suporta que ele olhe para o lado, não suporta nada. Não estou achando que deveríamos abolir o sexo, mas o fato é que só se ele não existisse é que tudo ficaria realmente tranquilo.

“Me dou muito bem com homen e de uma certa maneira dou razão a eles: somos insuportáveis principalmente apaixonadas ”
Danuza Leão

Você conhece homens que levem a vida como você, sozinhos?
Tem muito homem que consegue viver assim! Homem que tem pavor de ter uma mulher atrelada a ele. É que se criou essa idéia de que homem precisa de uma mulher para organizar a vida dele... Pois conheço muitos que resolvem muito bem as coisas práticas e não querem mulher por perto. Eu conheço um, por exemplo, que combina de se encontrar com a menina, chama a garota de programa e, antes que ela chegue no apartamento, ele liga para o serviço de despertador e pede para ser chamado às duas da manhã. Aí, às duas, ele lá com a moça, o telefone toca. É o despertador, mas ele finge que tem alguém e responde “Não me diga, não é possível! Estou indo praí!”. Para poder descansar, para não ficar naquela conversa com a mulher.

Você já disse que uma reunião só de mulheres é a coisa mais chata do mundo. Você tem amigas mulheres? Não muitas. Me dou muito bem com homem e de uma certa maneira eu dou bem razão a eles: somos insuportáveis, principalmente apaixonadas. Mulher é muito chata, só fala de homem, se o cara telefonou, se não telefonou. Outro dia fui a um restaurante e tinha uma mesa com seis homens. Homens famosos, legais. Tomei um drinque, depois fui para a mesa, comi, pedi sobremesa... quando levantei para ir embora eles continuavam lá felicíssimos, sem mulher do lado.

Em que situações você já desejou muito ter um homem a seu lado?
Ah, tem uns domingos meio esquisitos, né? Mas como sou bastante ocupada, e se não tenho o que fazer eu logo arranjo, isso me tira muito esses momentos. Hoje de manhã, por exemplo, já veio alguém aqui mexer no computador. Daqui a pouco vem um carpinteiro. Estou com o dia cheio desse tipo de coisa, então não vou ter nem um minuto pra pensar em solidão. Vai ter dia em que vou ter, claro, vou estar mais livre e pode pintar. Mas tem tanta coisa que eu posso inventar. Adoro uma boa sessão da tarde, por exemplo. Ontem vi Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, adoro assistir a essas coisas. Ou então invento outra coisa, saio, vou cortar o cabelo.

O fato é que você gosta de fazer as coisas sozinha.
Tem gente que tem tendência a ficar mal. Eu não tenho vocação para a depressão. Esses momentos são raros, e logo passam. Mas não vou atrás de nada nem de ninguém pra eles passarem. É por minha conta. Gosto muito de sentar num lugar e ficar observando, para poder escrever. Se estiver com muita gente do meu lado, me distraio e não observo. Então, hoje em dia, além do prazer, isso é uma coisa do meu trabalho. Se bem que no Rio é meio complicado, porque eu tenho uma cara muito manjada. Tem sempre alguém que vai perguntar “está esperando alguém?” ou “quer sentar com a gente?”.

Como é sua relação com seus ex-namorados?
É de inimizade para sempre. Dependendo de como foi o amor e de como terminou, não dá mais pra olhar para a cara da pessoa. Mas, olha, eu não tenho nada contra o casamento. Acho que não tem nada melhor do que aquela época em que você está casada e as coisas estão funcionando. Só que não dura para sempre. Eu, sozinha, estou vivendo a melhor fase da minha vida.

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