por Carol Ito

No comando do Vai na Web, projeto que ensina jovens de periferias cariocas a programar, Cris dos Prazeres abre caminhos entre o morro e o mercado de tecnologia

“Imagina uma pessoa da favela, que domina a linguagem da programação, criando soluções que atendam à humanidade? Como conhecedora da realidade nacional, ela sabe pensar nas necessidades do outro”, afirma Zoraide Gomes, conhecida por Cris dos Prazeres. Há três anos ela vem transformando essa ideia em realidade à frente do programa Vai na Web, que oferece aulas gratuitas de programação para jovens pobres do Complexo do Alemão e do Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro.

Cris bateu um papo com a Tpm durante a conferência anual .Futuro, que rolou neste mês, no Rio, e reuniu profissionais de diversas áreas para discutir os impactos da tecnologia na transformação da sociedade e do mercado de trabalho.

Cris atua desde os anos 90 como consultora de projetos sociais nos morros cariocas, facilitando o diálogo entre serviço público, empresas e moradores. Em uma de suas palestras, chamou a atenção de Igor Couto, CEO da 1STi, empresa de tecnologia que ajudou a criar o Vai na Web. “Ele perguntou o que eu achava de criar um projeto de tecnologia para jovens de favela. Falei que achava o máximo! É o mercado que mais vai empregar nos próximos 50 anos”, explica.

“Eles se sentem extremamente importantes programando, dominando uma linguagem de ponta”
Cris dos Prazeres, cofundadora do Vai na Web

Assim nasceu o Vai na Web, que já formou mais de 200 estudantes, com idades entre 16 e 29 anos. Mais da metade (55%) conseguiu uma colocação no mercado de tecnologia e 48% voltou a estudar no ensino regular ou entrou para a universidade. “Eles se sentem extremamente importantes programando, dominando uma linguagem de ponta”, comenta Cris.

Os estudantes têm aulas gratuitas três vezes por semana, que vão além do aprendizado de linguagens de programação: um dia é reservado para palestras voltadas para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais. “Entendemos que o aluno tem que pensar no lado humano, ter escuta ativa, se comunicar com menos reatividade. Já tivemos aulas sobre comunicação não violenta, por exemplo”, explica Cris, acrescentando que o método também os prepara para encarar o mundo corporativo. “Não queremos só qualificá-los para o mercado, mas também trabalhar a condição de estarem dentro de uma empresa, eles precisam se sentir em casa.”

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Evelyn Mendes, 23, moradora do Morro dos Prazeres e estudante do curso de tecnólogo em gestão financeira da FGV, é um dos destaques do programa. “Ela era uma menina tímida, evangélica, que nunca pensou em ser programadora. Em um ano e meio, aprendeu a programar em quase todas as linguagens que a gente ensina”, conta Cris. Depois de frequentar o programa, entre 2017 e 2018, foi convidada a representar o Brasil em um projeto da universidade de Stanford (Estados Unidos), em março deste ano, para ajudar a desenvolver o aplicativo Match4Action, que conecta voluntários do mundo todo às ações sociais que precisam de apoio.

A mil por hora

Natural da Praia do Janga, litoral de Pernambuco, Zoraide estudou até a sexta série do ensino fundamental. “Foi até onde a escola me aturou”, brinca, falando sobre a insatisfação em relação ao modelo de ensino público. “Sempre fui muito inquieta, era punida ao falar, me expressar, discordar do professor. A escola não entende que o aluno tem seu próprio saber. Existem milhares de perfis como o meu no Brasil inteiro, jovens que não se adequam a esse modelo de educação, que têm desejos e sonhos que não são olhados.”

“Eu acredito na capacidade de conectar redes para desenvolver ações conjuntas. Não dá pra esperar só a ação do Estado”
Cris dos Prazeres, cofundadora do Vai na Web

Ela foi apelidada de Cris na infância e “dos Prazeres” veio por conta de um projeto social que desenvolveu no Morro dos Prazeres, zona sul do Rio de Janeiro, onde mora desde os anos 90. “Aos 14, percebi o crescimento da epidemia de HIV entre mulheres de periferia e criei um grupo comunitário, o Proa (Prevenção Realizada com Organização e Amor), para conscientizar sobre a doença, discutir como elas eram tratadas nas unidades de saúde, pressionar por políticas públicas”, relembra. “Eu acredito na capacidade de conectar redes para desenvolver ações conjuntas. Não dá pra esperar só a ação do Estado.”

Outro projeto liderado por ela é o ReciclAção, que há seis anos desenvolve ações voltadas para a educação ambiental, também no Morro dos Prazeres. Em 2015, o projeto recebeu o certificado da Fundação Banco do Brasil como uma das melhores tecnologias sociais do país. “A gente faz coleta seletiva, fala sobre reuso de resíduos e consumo consciente dos recursos naturais, com oficinas, games, encontros e campanhas educativas”, conta a ativista, que está sempre ligada no 220. “Eu faço um milhão de coisas, acordo às 4 horas da manhã, sou mãe, sou avó e beijo na boca do crush”, brinca.

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