por Natacha Cortêz
Tpm #167

Uma executiva, uma médica, uma humorista (que trabalha também como motorista de Uber) e uma bolsista de doutorado respondem abertamente sobre a relação que têm com o dinheiro

Riqueza é um conceito abstrato, porque boa parte do que vale na vida não entra na planilha de contas. Mas quando estamos falando de finanças, encontramos um discurso comum entre as brasileiras: a independência financeira é prioridade e equilibrar os desejos com as possibilidades é o desafio geral. Pra onde sua conta bancária te leva? Ela paga os seus sonhos ou te deprime, impondo uma série de limites? Uma executiva, uma médica, uma humorista (que trabalha também como motorista de Uber) e uma bolsista de doutorado, com rendas mensais entre R$ 2 mil e R$ 32 mil, respondem abertamente sobre a relação que têm com o dinheiro, planos e como enfrentam a crise econômica. O saldo é um desenho claro de que terminar o mês sem grana não é apenas uma questão de quanto se ganha, mas de como cada uma administra o jogo da vida.

Cidade onde mora: São Paulo, SP.

Profissão: Diretora de marketing.

Algo que precisa, mas não consegue comprar: Deveria estar pagando previdência privada, mas as prioridades são outras agora.

Um sonho de consumo: Trabalhar sem me preocupar prioritariamente com dinheiro.

Um sonho de consumo para este ano: Decorar meu apartamento. Devo gastar uns R$ 30 mil nisso.

Você paga aluguel? Não, tenho meu próprio apartamento. Pago o financiamento.

Mora sozinha? Com meu marido e meu filho, de 1 ano e meio.

Como é a divisão dos gastos da casa? Arco com 65% das despesas mensais, enquanto meu marido 35%.

Guarda dinheiro, faz investimento? Desde o meu primeiro salário, aos 16, faço poupança. Nunca quis depender financeiramente de ninguém. Mas não consigo guardar 30%, que ouvi ser o recomendado. Investimento, não faço.

Quantos cartões de crédito você tem? Dois, mas uso apenas um. Evito parcelar e tenho pavor de juros.

Qual foi a última compra que te exigiu um delicado planejamento financeiro? Troquei de carro. Tinha um Honda Fit 
e agora estou com um Honda HRV.

Quanto se preocupa com dinheiro? Depois de ter filho, penso mais 
em dinheiro. Mais do que gostaria, na verdade.

Qual é seu principal gasto mensal? Moradia: R$ 3.500 da parcela do financiamento. Com IPTU, condomínio, as contas de casa e a empregada, meus gastos ficam em R$ 8 mil todo mês.

Qual é seu segundo maior gasto mensal? Com meu filho: médico, escola, alimentação etc.

O que adoraria comprar no supermercado, mas não ousa pelo preço? Azeites especiais. Já vi alguns custarem R$ 100. Só compraria se tivesse muito mais dinheiro.

Quanto gasta por mês com salão 
de beleza? Uns R$ 400. Faço pé, mão, depilação e pinto o cabelo.

Você está sentindo a crise? Com certeza. Cortei consideravelmente as saídas pra comer e eliminei meu personal trainer.

Qual foi a melhor coisa que o seu dinheiro comprou na vida? A festa do meu casamento, em 2010. Custou uns R$ 70 mil.

Qual foi a primeira grande coisa que comprou com seu dinheiro? 
Dei entrada no meu apartamento. Eu ganhava R$ 4 mil na época e tive que economizar de verdade.

Pra onde foi nas suas últimas férias? Pra uma praia na Bahia. Ficamos hospedados num hotel.

Quanto você gasta em um almoço durante a semana? De R$ 15 a R$ 50.

Pensando em dinheiro, o que mais te preocupa no futuro? Perder minha independência financeira.

Mais tempo ou mais dinheiro? Tempo. Pro meu filho e pra mim mesma.

Dinheiro é… Meio, não fim.

Cidade onde mora: Vinhedo, SP.

Profissão: Médica especializada 
em urgência e emergência.

Algo que precisa, mas não 
consegue comprar: Casa própria. Estou capitalizando o valor da entrada, que é alto, de R$ 60 mil a 90 mil.

Algo que quer, mas não consegue comprar: Um iPad Air 3. Custa R$ 3.800. Me recuso a gastar tanto 
com impostos. Estou aguardando pra comprar no exterior.

Um sonho de consumo: Um Kia Sportage. Sou apaixonada por esse carro, mas custa R$ 120 mil.

Você paga aluguel? Sim, R$ 1.700. É o meu segundo maior gasto mensal.

E qual é seu principal gasto no mês? Meu carro, um Honda Fit 2014. Tem a parcela do financiamento (R$ 1.478), cerca de R$ 600 de combustível e o seguro.

Mora sozinha? Com o meu marido.

Como é a divisão dos gastos da casa? Pago 70% das despesas, meu marido 30%. Isso é temporário, enquanto ele estuda pra um concurso.

Guarda dinheiro, faz investimento? Guardo por volta de R$ 2 mil por mês na poupança para quitar meu carro e dar entrada em um imóvel. Não invisto.

Poupa para a aposentadoria? Não, mas estou me organizando pra isso.

Quantos cartões de crédito você tem? Dois, mas só uso em emergências.

Qual foi a última compra que te exigiu um delicado planejamento financeiro?
Uma viagem à Paris e à Suíça. Planejei por seis meses. Fomos eu e meu marido e ficamos um mês.

Alguém mais depende do seu dinheiro? Meu pai e minha mãe, que são idosos e não aposentados, além da minha irmã, a quem ajudo enquanto ela estuda pra concurso público.

O que adoraria comprar no supermercado, mas não ousa pelo preço? Não economizo no mercado. 
Se quero comprar um leite de amêndoa que custa R$ 30, compro.

Quanto gasta por mês com salão de beleza? Meu único gasto é com depilação: R$ 70 mensais.

Você está sentindo a crise? Sim, meu poder aquisitivo caiu muito. O que comprava com R$ 100 há dois anos não compro mais.

Qual foi a primeira grande coisa que você comprou com seu próprio dinheiro? A festa do meu casamento. Custou uma pequena fortuna.

Quanto você gasta em um almoço durante a semana? Cerca de R$ 15.

Com o que você gostaria de gastar menos do que gasta atualmente? Plano de saúde. Gasto R$ 600 por mês.

Mais tempo ou mais dinheiro? Dinheiro.

Dinheiro é… Tranquilidade.

Cidade onde mora: Rio de Janeiro, RJ.

Profissão: Humorista e motorista da Uber. Faço dupla jornada.

Algo que precisa, mas não consegue comprar: Um apartamento no Rio de Janeiro para o meu pai, que é viúvo.

Algo que quer, mas não consegue comprar: Um apartamento maior. Gostaria de ter outro filho e um apartamento amplo seria bom.

Paga prestação? Sim, R$ 1.200. É nosso maior gasto. Para a compra em 2013, eu e meu marido juntamos dinheiro e usamos nossos FGTS.

Mora com quem? Com meu marido e nossa filha.

Como é a divisão dos gastos da casa? Eu e meu marido dividimos tudo igualmente.

Guarda dinheiro, faz investimento? Guardo 10% do que ganho na poupança para emergências. Não invisto.

Você poupa para a aposentadoria? Pago previdência privada em cima de cinco salários.

Quantos cartões de crédito você tem? Dois.

Qual foi a última compra que te exigiu um delicado planejamento financeiro? Meu carro, um Hyundai Tucson, em 2012.

Um sonho de consumo para este ano: Trocar de carro.

Qual seu segundo maior gasto mensal? R$ 800, da escola da minha filha, que está na 2ª série do ensino fundamental.

Quanto gasta por mês com salão de beleza? Já gastei mais. Hoje, R$ 500 a cada três meses com manicure e cabelo.

Você está sentindo a crise? Sim. Aqui em casa sentimos o preço da gasolina e os preços no supermercado.

O que adoraria comprar no supermercado, mas não ousa pelo preço? Chocolates e alfajores importados. Quase nunca compro.

Qual foi a melhor coisa que o seu dinheiro já comprou? O apartamento onde moro.

Qual foi a pior coisa que o seu dinheiro comprou? Cigarros para 
o meu pai.

Pra onde você foi nas suas últimas férias? Búzios, em fevereiro deste ano. Ficamos num resort.

Com o que gostaria de gastar menos? Combustível.

Pensando em dinheiro, o que mais te preocupa no futuro? 
O agravamento da crise.

Mais tempo ou mais dinheiro? Tempo. Assim eu poderia ganhar mais dinheiro e também ter mais lazer. Atualmente as 24 horas são extremamente corridas.

Dinheiro é… Essencial, mas não vivo em função dele.

Cidade onde mora: Curitiba, PR.

Profissão: Sou formada em jornalismo e história. Trabalhava como jornalista quando pedi demissão para fazer 
o doutorado. Hoje vivo do dinheiro da bolsa de estudos.

Algo que precisa, mas não consegue comprar: Mais livros e viagens para congressos. Preciso dessas coisas para complementar o currículo, exigência da própria Capes, que me dá a bolsa.

Um sonho de consumo: Viajar para um festival de música punk no interior da Inglaterra.

Paga aluguel? Não, moro em um apartamento que era da minha avó e atualmente pertence ao meu pai.

Mora com quem? Com meu namorado.

Como é a divisão dos gastos da casa? Dividimos igualmente as contas da casa e ele me apoia no meu sonho de ser professora.

Guarda dinheiro, faz investimento? Não. No momento não consigo.

E quanto à aposentadoria? Também não. Quero tentar concurso público para professora, conto com isso.

Quantos cartões de crédito você tem? Já me enrolei com cartão e tive que pedir socorro para minha mãe. Fiquei só com um e uso o mínimo possível.

Qual foi a última compra que te exigiu um delicado planejamento financeiro? Um Ford Ka usado, de 
2011. Ainda estou pagando.

Quanto você se preocupa com dinheiro? Muito. Tenho 31 anos e não tenho os bens que na época dos meus pais eles já haviam conseguido.

Qual é seu principal gasto mensal? Cerca de R$ 1 mil com as contas da casa: água, luz, gás e supermercado.

O que adoraria comprar no supermercado, mas não ousa pelo preço? Chás importados, que vêm naquelas caixas lindas.

Você está sentindo a crise? A crise foi sentida na universidade. Bolsas e auxílios diminuíram ou foram excluídos. Quanto a mim, diminuí gastos com alimentação fora de casa.

Quanto gasta por mês com salão 
de beleza? Vou ao salão uma vez a cada seis meses pra cortar o cabelo. Gasto R$ 150 cada vez.

Qual foi a primeira grande coisa que comprou com seu dinheiro? Uma estante de livros.

Você recebe ajuda financeira? Em emergências tenho o suporte dos meus pais.

Pra onde você foi nas suas últimas férias? Interior do Paraná, na casa dos meus pais.

Quanto você gasta em um almoço durante a semana? Almoço em casa todos os dias.

Pensando em dinheiro, o que mais te preocupa no futuro? Não poder contar mais com a bolsa. Temo os cortes na educação.

Mais tempo ou mais dinheiro? Dinheiro.

Dinheiro é… Como diz aquele palito de picolé: “Não traz felicidade, mas ajuda a comprar sorvete, que é a mesma coisa”.

Miga, poupe!

Nathalia Arcuri, criadora do canal do YouTube Me Poupe!, analisa os questionários e manda a real: é preciso ter intimidade com as finanças, fazer escolhas e colocar o dinheiro para trabalhar pra você

Ler os questionários respondidos nestas páginas me trouxe uma sensação de familiaridade. Explico: ao longo dos últimos anos tenho me dedicado a pensar técnicas que possam levar mulheres como Karina, Valéria, Alexandra e Flavia ao sonho que todas nós temos: independência financeira – conquista árdua em tempos de crise. Das personagens, todas estão preocupadas com ela e precisaram mudar hábitos para não faltar dinheiro. Aí pergunto: Tirando a Flavia, que realmente corre o risco de perder a bolsa, quem mais tem motivos reais para ter medo? “Todas”, você pode pensar, afinal, a crise não escolhe em qual porta bater. Certo. Todas precisam estar preocupadas, mas poderia ser diferente.

LEIA TAMBÉM: Nathalia Acuri - "O que é mais importante: comer fora todos os dias ou pagar sua aposentadoria?"

O medo da crise expõe uma ferida que vem sendo coberta há, pelo menos, duas décadas, mas que nunca deixou de sangrar. Passamos a governar a nossa vida financeira, a ganhar salários maiores, a ter melhores posições dentro das empresas, mas não fomos educadas financeiramente para lidar com tanto poder e oferta. A ferida foi escancarada com o acesso fácil ao consumo e aos parcelamentos. Bastou vir a crise pra que uma onda de “meu Deus, e agora?” viesse à tona.

E o que acontece quando vivemos exatamente com o dinheiro que ganhamos, sem nos preocupar em proteger parte dessa renda para projetos futuros? Empate financeiro, na melhor das hipóteses. Não basta pagar todas as contas, estar em dia com todos os financiamentos e parcelas feitas no cartão. Pra que exista equilíbrio e pra que não haja medo, tem que sobrar dinheiro no fim do mês. Veja que curiosa a resposta da Karina: “A previdência agora não é a prioridade”, mas na linha seguinte ela diz que o maior sonho é poder trabalhar sem se preocupar com o dinheiro. O conceito de previdência é justamente poder proporcionar uma vida tranquila fazendo o seu dinheiro trabalhar pra você.

Outro ponto crítico de todos os questionários: ninguém investe e, pior, quem poupa, como a Alexandra e a Valéria, não enxerga isso como um potencial investimento. Lá no Me Poupe! minha maior luta é tornar o mundo dos investimentos mais divertido e menos complicado. Por algum motivo que ainda não entendi, este é um mundo distante de todas nós. Investir é acelerar sonhos e dar uma chance pra que o seu dinheiro trabalhe pra você, e não o contrário.

Lição de casa para todas: um padrão de vida desajustado à realidade pode ser o maior inimigo das conquistas. Um carro mais caro requer manutenção mais cara, seguro mais caro, IPVA… E por aí vai. Se o seu padrão de vida não está te permitindo investir, tenha certeza de que ele é alto demais pra você. Pronto, falei.

Vai lá: youtube.com/mepoupenaweb

Créditos

Ilustração: Adriana Komura

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