por Milly Lacombe

Não há como antecipar o fim das coisas, então o segredo deve ser considerar que todas as coisas estão acabando, e que elas são preciosas justamente por isso 

Era a noite de ano novo de 2008 para 2009 e eu estava na casa de veraneio de minha irmã, cercada de muitas pessoas, porque minha irmã é festeira e receberia 2009 em grande estilo. Como sempre acontece quando várias mulheres estão juntas se preparando para uma festa, havia entre a gente uma manicure. Eu não pinto as unhas, nunca pintei, mas minha irmã teve a grande ideia de decidir que para a festa de virada de ano eu pintaria, e emendou, aparentemente em uma colocação que nada tinha a ver com a anterior: “Gente, a cor do dinheiro é amarelo, não vamos esquecer”.

Na minha cabeça o raciocínio foi bastante simples: se a cor do dinheiro é amarelo, e se eu teria que pintar as unhas para que minha irmã me deixasse em paz, então eu as pintaria de amarelo. Bizarramente, a manicure tinha essa cor de esmalte e assim foi. Como eu estava a fim de abundância, pintei pés e mãos.

Devidamente amarelada, me joguei na festa com a certeza de que aquele seria o ano em que eu finalmente ficaria rica.

No dia 3 de janeiro, já em São Paulo, fui trabalhar, ainda inundada da certeza de que enricar era uma questão de semanas, meses talvez. No espelho do elevador que me levaria à mesa de trabalho, vi as unhas amarelas e ri. Cheguei à redação, peguei um café e fui para o meu cubículo. Minutos depois, eu nem bem tinha ligado o computador, uma voz me disse que a diretora de redação queria falar comigo a sós. Lá fui eu para a sala de reunião encontrá-la. Alheia à iminência de meu enricamento, ela provavelmente me passaria uma pauta. E foi com horror que a escutei dizer, depois de uma introdução bastante doce: “Você está demitida”.

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Aquilo não poderia estar certo. Como ficar rica sem um emprego? Em menos de meia hora eu estava no elevador outra vez, com uma caixa de papelão contendo meus pertences nas mãos, como nas cenas dos filmes hollywoodianos. Ao enxergar meu reflexo no espelho, vi as unhas amarelas, só que dessa vez não ri. Em vez disso, liguei para minha irmã, contei sobre o efeito do amarelo e avisei que estava indo pegar a acetona na casa dela.

LIÇÕES DE HUMILDADE

Quem poderia imaginar que um emprego que eu considerava tão sólido fosse acabar daquela forma? A demissão e o pé na bunda são lições de humildade, com a vantagem para o primeiro, que, ao contrário do segundo, normalmente libera um fundo de garantia. Mas a verdade é que, quando saí para o recesso de fim de ano, eu não fazia ideia de que aquela fase da minha vida tinha acabado.

Não há mesmo como prever quando daremos o último beijo em alguém, ou quando iremos pela última vez a um lugar que amamos, ou quando viajaremos pela última vez para aquela casa de praia de que tanto gostamos, ou quando veremos uma pessoa pela última vez. Não há como antecipar o fim das coisas, então o segredo deve ser considerar que todas as coisas estão acabando, e que elas são preciosas justamente por isso, porque seria altamente tedioso que nada acabasse nunca.

Talvez pensando assim consigamos praticar dois dos valores que mais fazem falta hoje: a sinceridade e a coragem. Mas não a sinceridade para dizer “gorda assim você não vai conseguir transar”, ou a coragem para dizer “eu odeio você”. Esse tipo de iniciativa está sobrando atualmente, nas ruas e na voz de alguns comunicadores, e elas não exatamente revelam sinceridade ou coragem, apenas vulgaridade e covardia.

Sinceridade é dizer que se ama e coragem é dizer isso sem saber se vamos escutar a mesma coisa de volta. Sinceridade é dizer “sinto a sua falta” e coragem é dizer isso sem saber se aquela pessoa sente a mesma coisa. Sinceridade é elogiar o cabelão da mulher negra que, elegante, cruza com você no metrô, e coragem é dizer isso sem conhecê-la. Sinceridade é dizer “eu admiro muito você”, e coragem é dizer isso a quem não faz ideia de que é admirado.

INDIVÍDUOS TRAVADOS

É curioso que tenhamos medo de verbalizar as coisas boas que passam por nossa cabeça com receio de soar ridículos, porque o ridículo mora na agressão, na opressão, na coerção, não no afeto, no carinho, na gentileza. Quando exatamente nos transformamos nesses indivíduos travados, apavorados com a vulnerabilidade, capazes de deixar sair os piores monstros dos quartos mais escuros, e ao mesmo tempo ferozes guardiões do melhor que existe dentro da gente?

Por que é aceitável, em nome do politicamente incorreto, fingir que liberdade de expressão é liberdade de opressão? Não é liberdade ofender outra pessoa, ou um grupo de pessoas. A liberdade de expressão termina quando começa a opressão, essa ferramenta que reforça todos os mecanismos de controle e de repressão que tanta desigualdade e dor causam.

Sinceridade não é dizer todas as escrotidões que passam pela nossa cabeça, assim como liberdade não envolve o direito de dizê-las. Liberdade é o oposto disso, e diz respeito a valores como atenção, dedicação e a capacidade de ficar no presente e se dedicar ao outro. “Atenção é a forma mais rara de generosidade”, escreveu Simone Weil. “Elevada a seu maior nível, atenção é o mesmo que uma oração. Ela pressupõe fé e amor.”

Nas trincheiras do dia a dia sobra pouco espaço para que dediquemos total atenção a outro ser humano: temos que checar o celular, ver se alguém mandou WhatsApp, se alguém publicou alguma coisa nova, se alguém curtiu o que publicamos. Fora isso, tem as constantes vozes em nossas cabeças, que insistem em nos levar para o passado, onde o que existe é saudade, ou para o futuro, onde o que existe é preocupação. Dar a mais completa e imperial atenção a outro ser humano e, com ele, permanecer aqui e agora, é uma manifestação divina.

É, talvez, o que devamos buscar incansavelmente, e única tarefa à qual precisemos nos dedicar. Porque se o divino existe, ele está no presente. E se essa maluquice terrena faz algum sentido, ele é o fato de sermos capazes de olhar nos olhos de uma outra pessoa e, com a alma fincada nesse agora eterno, dizer “eu te amo”.

Créditos

Imagem principal: Nadiuska e Priscila Furtado

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