por Natacha Cortêz
Tpm #160

Uma estranha proximidade com a morte influenciou a cineasta Anita Rocha da Silveira. Em seu primeiro longa, Mate-me Por Favor, ela flerta com a finitude da vida

O filósofo francês Alain Badiou defende no livro Elogio ao amor que a absoluta imprevisibilidade do encontro de dois estranhos tem o poder de “assumir ares de destino”. Aos 17 anos, quando conheceu Cecília Beatriz em uma das aulas da faculdade de comunicação social da PUC do Rio de Janeiro, Anita Rocha da Silveira viveu o que Badiou descreveu. “Foi um encontro, o primeiro da minha vida. Ela e eu gostávamos dos mesmos filmes, dos mesmos livros, dos mesmos caras. Fazíamos tudo juntas porque assim era melhor. Nunca tinha sentido um vínculo como aquele com ninguém”, recorda, sentada com as pernas sobre os pés em um sofá cinza onde permanece com o tronco rígido, mas com as mãos e braços inquietos constantemente.

É véspera de sexta-feira 13 e estamos em seu apartamento no Flamengo, Rio de Janeiro. Após uma hora de conversa, Anita decide, enfim, falar de Cecília – a amiga cujo fim trágico acabou por influenciar seu estilo cinematográfico. Aos 19 anos, Cecília se jogou da janela do apartamento da mãe, em Niterói. “De cara pro mar”, diz Anita, afeita aos detalhes mórbidos. “Era maníaca-depressiva, tinha uma mãe ultrarreligiosa e pai ausente. A mãe tirou a medicação dela e a levou para ser curada na igreja”, conta. Na época, sentiu culpa por não conseguir evitar a morte da melhor amiga e raiva dela pelo abandono. Foi procurar respostas para o que lhe era inexplicável. Estudou bipolaridade, finitude, gente que escolhe acabar com a própria vida; conversou com especialistas e parentes da morta. As respostas vieram, mas talvez do único jeito que poderiam acontecer, através de um processo catártico. “O bipolar costuma se matar na fase maníaca porque se sente invencível”, aprendeu. Cecília está em nos argumentos cinematográfico da diretora, existem traços seus em cada esboço de personagem, em cada curta-metragem (são três até então) e em  seu longa de estreia, Mate-me por favor. “Bia, a protagonista, flerta com a morte a todo momento. Precisa experimentar situações extremas e até violentas pra se sentir viva. É como o pulo de Cecília.”

Mate-me por favor deve chegar aos cinemas em 2016 e até agora tem cinco premiações. Entre elas, foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de Veneza deste ano e levou o Prêmio Bisato d’Oro para o conjunto de suas quatro jovens atrizes. No Festival do Rio, ganhou Melhor Direção e Melhor Atriz para Valentina Herszage.

A revista americana Variety classificou o filme como “uma nova face do cinema latino-americano”. E o jornal português publico.pt considerou a obra transbordante. “As garotas de Mate-me por favor não ficam dentro de casa, não respeitam o aviso de não andar sozinhas, vão atrás do cheiro de sangue e de sexo, porque esse cenário em branco, sem história, pede que seja violado.”

Mate-me é terror, mas transgride dentro do gênero. No filme, uma onda de assassinatos de adolescentes perturba um colégio de classe média na Barra da Tijuca. Mas logo vem o sexo, a dor, a rebeldia, o ciúme, a ausência, a solidão e o flerte com a finitude da vida. O roteiro mistura terror, fantasia, dramas juvenis. Sangue, cadáver, estupro e assassinato têm outra dimensão. “A morte, ali, não é oposição à vida, mas uma pulsão no meio do vazio que pode ser a existência”, diz Anita.

Cenário macabro

A Barra não é cenário por acaso. É uma região “sem memória, estéril, feita para enjaular famílias”, descreve a diretora. Foi em um terreno baldio, perto das locações do filme, que, em 1992, o corpo da atriz Daniella Perez foi encontrado morto. Anita tinha 7 anos e acompanhou a notícia da protagonista da novela de De corpo e alma, apunhalada 18 vezes a sangue frio pelo seu par romântico na TV e pela esposa dele. “De repente a garota linda que eu acompanhava toda noite foi assassinada. As fotos foram publicadas nos jornais e vi tudo, o corpo, o mato alto em volta. Fiquei dias em choque.” Mas Anita não era só mais uma criança assustada com o crime de repercussão nacional, era alguém que o tomaria pra si. Ela nunca se desligou do assassinato. Quando criança, mergulhou no assunto (assim como fez com o suicídio de Cecília). Ainda hoje é membro de um grupo fechado no Facebook dedicado ao caso. A morte de Daniella Perez está em Mate-me de forma explícita: é narrada em detalhes por uma das personagens.

 

“Eu precisava trabalhar a morte não como oposição à vida, mas como uma pulsão no meio do vazio que pode ser a existência”
Anita da Rocha Silveira

As primeiras produções cinematográficas da jovem estudante de cinema – que abandonou o curso de comunicacao social no segundo ano – já eram ensopadas de sangue. O Vampiro do meio-dia (2008), seu primeiro curta, levou prêmio de Melhor Roteiro e Melhor Montagem no Festival Ibero-Americano de Cinema do Ceará. Só com O vampiro foram cinco outros troféus e oito exibições em festivais, além de R$ 10 mil em prêmios, que ela usou para gravar Handebol (2010), seu segundo curta. Com este, mais seis prêmios, entre eles o The International Critics’ Prize no Festival Internacional de Curtas de Oberhausen, Alemanha. Com o lucro de Handebol, filmou Os mortos-vivos (2012), exibido na França, Colômbia, Romênia, Portugal e Holanda.

Produzido pela Bananeira Filmes, de Vania Catani, Mate-me ainda faz parte de uma nova safra de filmes brasileiros, dirigidos por jovens cineastas e que vão além dos cenários tão retratados em anos anteriores, como a favela. Outro exemplo é Boi neon, do pernambucano Gabriel Mascaro, também premiado em Veneza. Enquanto a diretora fala de adolescentes cariocas de classe média, Gabriel traz uma história situada no Nordeste brasileiro que conta o drama particular de um vaqueiro.

Do VHS a Veneza

Anita, 30 anos, é carioca, nascida e criada em Santa Teresa. Maria Alice, a mãe, matemática e professora universitária, conta que a filha nunca teve babá e que a levava a tiracolo para qualquer programa. O mais especial era ir ao cinema. “Não interessava se o filme era impróprio para crianças. Comecei a ir com 3 anos. Ela lia as legendas no meu ouvido pra eu acompanhar a história”, diz a filha.

Com o pai, também matemático e professor universitário, Anita ia semanalmente à videolocadora. Aos 5, gravava filmes no videocassete para rever depois. Ela assistia a mesma fita 30 vezes – “literalmente”, testemunha a mãe. Esperança e glória (1987), de John Boorman, foi um deles. Pouco depois, se encantou por histórias de suspense e morbidez, como o thriller Twin Peaks (1990), de David Lynch. Aos 11, teve a fase Hitchcock. “Um corpo que cai (1958) me marcou. Os pássaros (1963) só vi mais tarde, minha vó dizia: ‘Espera ficar mais velha’.”

Um cadáver

Aos 15, um fato extraordinário assustou a família a ponto de trocar a bucólica Santa Teresa pelo Flamengo: na porta de casa, o corpo de um homem baleado. Foi seu primeiro contato cara a cara com um cadáver. No novo bairro, Anita começou aulas de atuação no grupo de teatro O Tablado. Formava-se ali seu grupo de colegas de produção.

Até chegar em seu primeiro longa, Anita trabalhou como roteirista e como segunda assistente de direção (com foco no elenco) de filmes de grande orçamento, como Histórias de amor duram apenas 90 minutos (2009), de Paulo Halm, autor da atual 
novela da Globo, Sete vidas. Experiente, não teme dizer: “O cinema é sexista e isso é factual, não existem lendas atrás dessa afirmação. Há inúmeros relatos de mulheres subestimadas e humilhadas apenas por serem mulheres”. Em um dos festivais onde apresentou o filme, ouviu de um renomado profissional da área os parabéns por ter sido “promovida a homem”, já que agora dirigia um longa-metragem. Na faculdade, professores recomendavam que as garotas se especializassem em montagem porque “é um ofício que se assemelha à costura”, conta. A diretora chegou a fazer montagem: “Por muito tempo, era o que aparecia de trabalho”. Ela não se esquivou de nenhuma atividade que o cinema exigiu. “Anita seguiu uma carreira vitoriosa como curta-metragista, seus filmes competiram em Cannes e, como era de se esperar, logo dirigiu seu primeiro longa”, diz Halm. “Mate-me é um filmaço, bem narrado e denso. Essa menina (grave isso!) vai longe!”

Créditos

Anna Fischer

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