Natasha Madov
Diana Assennato

por Natasha Madov
Diana Assennato
Tpm #161

Conversamos com a brasileira de 22 anos que está revolucionando a forma de construir moradia social

“Tenho medo de não dar tempo”, respondeu a empresária Anielle Guedes quando perguntamos o que a fazia perder o sono a noite. Não é para menos: Anielle é CEO e fundadora da Urban 3D, empresa que pretende baratear e acelerar a construção de moradia social por meio da impressão de materiais. Em vez de pedreiros, tijolos e cimento, imagine grandes robôs que imprimem paredes e levantam um prédio de cinco andares em poucas semanas, usando bem menos recursos naturais (e humanos), com 80% de economia. Pelos seus cálculos, um apartamento construído nesses novos moldes poderia custar entre 10 mil e 15 mil reais.

Anielle tem apenas 22 anos, se formou futurista pela Singularity University (a universidade criada pelo Google e pela NASA), já palestrou nas Nações Unidas e está acostumada a receber ligações de primeiros-ministros e presidentes de países que buscam soluções para moradias sociais. Sua trajetória é exponencial: aos 4 anos, ela quis aprender a falar inglês para conversar com todas as pessoas do mundo e, aos 13, já era tradutora da Anistia Internacional. Basta acompanhar o seu feed do Facebook por um dia para entender: ela já mora no futuro, só precisa de paciência para fazer ele chegar ao maior número de pessoas possível.

Apesar de jovem, seu medo de não dar tempo não é infundado. Anielle sabe que é um peixe pequeno propondo mudanças estruturais, sociais e econômicas em uma das indústrias que mais empregam no mundo. Além disso, o desenvolvimento da tecnologia que ela propõe não é nem um pouco simples e, por isso, os avanços serão faseados. Muita pesquisa de materiais, protótipos, testes, betas e parcerias comerciais e políticas sólidas precisam acontecer antes dela conseguir imprimir a sua primeira casa. “Mas ao mesmo tempo, em 15 anos, metade das crianças do mundo vão morar em favelas se a gente não mudar o modelo de urbanização e a forma como se constrói”, ela desabafa.

Conversamos com ela sobre essas e outras dificuldades de viver no futuro.

Por ora, a principal função da sua empresa é desenvolver pesquisa tecnológica, mas o que você quer mesmo é começar a imprimir casas para abrigar os 3 bilhões de pessoas do mundo que precisam de moradias sociais de qualidade o mais rápido possível. Como você lida com essa intangibilidade, esse “tempo relativo?

A solução é criar produtos intermediários, as pedras fundamentais pra que a gente possa trazer as tecnologias mais avançadas depois. A forma como eu lido com isso é própria de um visionário, no sentido literal da palavra. O visionário é alguém que vislumbra uma tecnologia e vai criando os passos no caminho para poder fazer ela acontecer na realidade. Tem que ter um olho no peixe e outro no gato, literalmente. No meu caso, a gente vai ter duas ou três tecnologias intermediárias antes de ter a máquina e o sistema construtivo final que a gente imagina. Não é muito fácil. Gera uma certa ansiedade, a gente quer que aconteça logo, mas tenho consciência de de que essa é a única forma de empurrar barreiras para fazer esse tipo de coisa acontecer.

Como a melhoria das habitações populares pode impactar a sociedade? Uma das razões da perpetuação do ciclo de pobreza é a falta de moradia adequada. Não adianta continuar mandando sapato, comida e roupa para a África. Quebrando o ciclo de pobreza a partir do básico, que é a moradia, a gente começa a ter efeitos mais sustentáveis, mexendo em infraestrutura e olhando para essa solução a longo prazo. Chamamos isso de “efeitos integeracionais”. Pense neste cenário: uma casa que vem com painéis solares embutidos e um pequeno jardim vertical para que famílias plantem os seus alimentos (dado que 70% da renda das famílias mais pobres vai alimentação). Então algo que era só uma casa passa a suportar toda a subsistência das pessoas que moram nela. É aí onde a gente passa a ter uma tecnologia que muda as regras do jogo de verdade e que tira as pessoas de uma condição de vulnerabilidade. Quer pirar ainda mais? Então imagine casas feitas de árvores, de ossos. Moradias temporárias, feitas de recursos naturais, que podem ser mudadas de lugar e que, na hora certa, se dissolvem e voltam para a natureza.

Essa é uma indústria cujo desenvolvimento tecnológico acontece de forma lenta e que empaca em questões básicas como padronização. Muita gente já tentou mudar esse cenário de forma independente. Porque vocês vão conseguir? Nosso modelo distribuído é a nossa maior vulnerabilidade e o nosso maior ativo ao mesmo tempo. Estamos construindo em partes, desenvolvendo o que a indústria é capaz de absorver, educando o mercado e trabalhando a partir das suas necessidades. Ao mesmo tempo, existe um trabalho de mudança de mindset junto à instituições como a ONU, o G20 e o Banco Mundial para mexer nessas regulamentações. Somos pequenos nesse mundo de gigantes, mas isso nos dá agilidade e independência para sentar em todas as mesas que quisermos.

No Brasil, a indústria da construção civil é uma das que mais empregam. Quais as consequências da evolução tecnológica que a sua empresa propõe? Essa indústria representa 23% do PIB do Brasil e um terço da matriz econômica de muitos países. Sem dúvida, é um dos setores que mais será afetado pela automação. Seja no hardware, ou seja, o processo de colocar um tijolo sobre o outro, seja pela automação de processos intelectuais. De fato, vamos causar um impacto muito grande, mas esse é um caminho irreversível não só para essa como para várias outras indústrias. O que muda é que vamos ter uma oferta muito menor de trabalhos braçais e uma oferta maior de trabalhos mais especializados. Para ser sincera, o caminho é inevitável: TUDO será automatizado. Se a gente pensar que faz 4 mil anos que construímos da mesma forma, parece até estranho que essas mudanças não aconteçam num ritmo mais rápido, como ocorreu com a indústria de automóveis. O processo atual da construção civil não só tem custos elevadíssimos (52% é gasto só com mão de obra) como gera muitos erros e desperdício de recursos. É uma indústria que precisa urgentemente de produtividade estratégica.

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