por Antonia Pellegrino
Tpm #160

MILF: Aceitar, combater ou devolver na mesma moeda

Talvez as leitoras da Tpm não saibam porque não têm idade, mas (algumas) mulheres, que têm filhos (e continuam “dando caldo”), podem ser chamadas por alguns homens e reconhecidas por algumas mulheres sob a alcunha de MILF.

MILF: mother I’d like to fuck. Ou, em livre tradução (politicamente correta): mãe com quem eu gostaria de ter intercurso sexual.

E o amigo que me explicou o termo, ainda disse: “Você é MILF”. Porque eu sou mother. E a parte do I’d like to fuck eu até espero que sim. Sou contra esse tipo de coisa americanizante de chega de fiu fiu, acho que o brasileiro tem sim uma exaltação da sexualidade, uma volúpia que é bem nossa, e que nos caracteriza, então, sim, chega de assédio, mas deixa o fiu fiu, que sem ele a rua fica muito chata. Mas enfim, voltando: mesmo casada, acho bom o I’d like to fuck, pois tenho mojo, estou viva. Mas... MILF?!

MILF recende a leite coalhado. MILF inscreve sobre o corpo da mulher um estigma. O corpo da MILF é um corpo rodado – rolado em camas, expandido pela gravidez, inundado por fluídos e fluxos que rasuram sua pele permanentemente em estrias, cujo canal vaginal foi desbravado pela circunferência da cabeça de uma criança (ou mais), depois, sugado por ela, que agora berra ao seu redor – e, ainda assim, há quem a queira comer.

Ou seja, a MILF tem mais é que agradecer de joelhos que ainda exista cavalheiro disposto a encará-la. MILF, a que cheira a leite e ainda dá caldo, a talvez coroa, meio coitada, mas que se malhar ainda segura, que se colocar silicone dá pro gasto, entre risos, entre dentes, MILF.

MILF é um termo regressivo de cunho machista, mas combatê-lo diretamente me parece tão regressivo quanto o próprio termo.

Não combatê-lo não é aceitá-lo. É deixar de lado. Deixar que nossas histórias de maternidade se inscrevam orgulhosamente sobre nós, mas não sob as quatro letrinhas canalhas de MILF.

E inscrever sobre os homens a zoeira, a maldade, a perfídia, a maledicência? Termos com os quais possamos falar dos corpos dos homens e seus atravessamentos, suas barrigas, carecas, fracassos.

 

TPP: te pego, pançudo

FEF: fracassado que eu foderia

CQD: careca que eu dava

TPGMMMEG: teu pau grande me machuca, mas eu gosto

BQEG: brocha que eu gamo

 

Aos meninos,

com amor,

Antonia

Créditos

Ilustração Bia Sanchez

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