por Amara Moira

”Parem de sugerir que ela deveria disputar as categorias masculinas”, defende a transexual e doutora em literatura Amara Moira

As regras desses esportes foram pensadas sem imaginar a possibilidade de que corpos trans pudessem competir, mas estamos ocupando cada vez mais espaços na sociedade e já não é mais possível ignorar nossa existência. Ou seja, essas regras precisarão ser repensadas, agora nos levando em consideração. Primeiro ponto.

O critério objetivo existente até o momento —  como ressaltou o médico da Comissão Nacional Médica (Conamev) da Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), João Granjeiro — é a taxa de testosterona e, considerando esse critério, critério concebido quando ainda éramos sujeira estatística e não disputávamos competições de alto rendimento, a Tifanny está lindamente dentro dos padrões. Tamanho do pulmão, da respiração, da circulação, da cintura (pontos levantados pela Tandara), nenhum desses critérios jamais foi concebido como critério objetivo para determinar qual jogadora pode jogar, qual não pode. Ninguém, aliás, aferiu a velocidade das cortadas da Tifanny em comparação com outras jogadoras para determinar se de fato ela bate mesmo mais forte, algo como fizeram com o chute de 137 km/h do Roberto Carlos em 1997. Segundo ponto.

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O terceiro ponto é olhar o jogo e discuti-lo para além de manchetes apelativas, números descontextualizados e tuítes transfóbicos. No jogo de sexta contra o Nestlé/Osasco, Tifanny errou saques, levou bloqueios (o fato de o time jogar em função dela permite que equipes adversárias antecipem cada vez mais seus movimentos) e não se saiu tão bem nos levantamentos e passes. É uma jogadora excelente, sim, sobretudo no quesito ataque, mas com deficiências como qualquer jogadora, algo que não parecem querer reconhecer. Faz diferença esse panorama na hora de considerarmos se ela leva vantagem ou basta se destacar num único quesito, ainda que fragilize o time em outros tantos?

(O contraponto com a Tandara, jogadora que com 10 cm a menos de altura fez os mesmos 31 pontos que a Tifanny, mas também desequilibrando nos saques, fazendo ótimos passes e levantamentos, jogando em múltiplas posições e surpreendendo em todas, é bastante eloquente nesse sentido. Do jeito que a discussão vai, parece que a Tifanny teria lugar em qualquer equipe feminina do mundo, quando no próprio Nestlé/Osasco é nítido que ela precisaria lutar pela vaga.)

“Tiffany poder jogar é uma mensagem para a sociedade, mas também uma mostra da nossa força, do quão longe as pessoas trans podem ir”

O quarto ponto é essa insistência em defender que qualquer mulher trans tem um corpo que se destaca em relação a qualquer mulher cis. O que isso significa? Mesmo que ela tivesse os meus 1,74 m, ainda diriam que ela leva vantagem? Mesmo se franzina? Mesmo com próteses de silicone, corpo em brutal transformação por conta da cirurgia e terapia hormonal? Seu corpo foi construído à base de testosterona, sim, mas agora não há testosterona para mantê-lo de pé, motivo da jogadora afirmar que precisa de bem mais tempo para se recuperar das partidas do que as companheiras de equipe.

Quinto e último ponto, quero pedir às pessoas que parem de sugerir que ela deveria disputar as categorias masculinas. É mais honesto defenderem que ela, por ser trans, perdeu o direito de disputar esportes do que dizer que, sem testosterona no corpo, ela deve tentar um lugar ao sol com corpos entupidos de testosterona. Melhor assumir a própria transfobia do que vir com esse argumento absurdo.

Tifanny poder jogar é uma mensagem para a sociedade, mas também uma mostra da nossa força, do quão longe as pessoas trans podem ir. E, como ela própria disse, enquanto estiver dentro das regras, vai lutar pelo direito de estar nas quadras. E nós vamos lutar com ela!

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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