Natasha Madov
Diana Assennato

por Natasha Madov
Diana Assennato
Tpm #163

Em que momento as mulheres deixaram de ser a grande força de trabalho na área de tecnologia?

Acreditem: houve um tempo em que nós, mulheres, éramos uma grande força de trabalho na área das ciências e da tecnologia. Inclusive há quem diga que a computação só existe graças a uma mulher, Ada Lovelace, visionária que entendeu – nos idos de 1800 e bolinha – que computadores poderiam executar bem mais do que apenas problemas matemáticos complexos. Se substituíssemos os números por outros elementos (como letras ou símbolos que representassem outros valores), poderíamos executar infinitas operações usando a mesma máquina. Esse é o princípio da programação moderna que Ada, uma nerd e aristocrata apaixonada por poesia e ciência, filha de Lord Byron, nos deixou de herança.

Nós, as minas do Ada.vc, fomos inspiradas por esta grande mulher para falar de tecnologia para as mesmas mulheres que hoje não se sentem tecnológicas, mesmo sendo usuárias ativas hiperconectadas. Em que momento, então, nos desconectamos da beleza e da força que a tecnologia oferece como ferramenta colaborativa e social?

Grande parte do problema está relacionado com o fato de que hoje as mulheres não têm representatividade nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, respondendo a apenas 26% dos empregos nessa indústria. Um número que só diminui se levarmos em conta a rapidez com a qual a indústria está expandindo. Ou seja: não há mulheres suficientes desenvolvendo produtos e serviços na área, por isso o que chega ao consumidor final tem um verniz masculino por natureza (é só lembrar que o aplicativo de saúde do iOS da Apple não oferecia a possibilidade de acompanhar o ciclo menstrual em sua primeira versão). Também não estamos formando: em 2015, apenas 18% dos graduados em ciências da computação eram mulheres. Uma taxa que vem caindo desde os anos 80, quando essa porcentagem era de quase 40%. Mesmo com os esforços de empresas de tecnologia em garantir “equidade” aos gêneros da sua folha de pagamento, o ambiente não é receptivo para talentos femininos.

Cultura sexista
Críticas apontam que o assédio sexual é o principal motivo para que as mulheres desistam de suas carreiras, outros culpam a cultura sexista por gerar disparidade de oportunidades. O problema parece uma bexiga d’água com milhares de microfuros: ao cuidar de um, outros ganham calibre. Governos apostam na educação para preencher esse vazio, incluindo a programação como matéria elementar desde a alfabetização. Movimentos feministas ganham espaço para propor mudanças. Até o mercado de brinquedos já entendeu a sua responsabilidade em incentivar o pensamento lógico em meninas, mas a verdade é que os esforços não são suficientes para suprir a demanda por mão de obra especializada feminina.

No começo do ano, líderes se reuniram em Davos para conversar sobre as implicações de uma quarta revolução industrial, que usa a tecnologia digital para melhorar nossas vidas. Nós mulheres corremos o risco de perder os próximos melhores empregos do mundo. Talvez o poder para começar uma transformação esteja nas mãos do consumidor final. Afinal, se aprendemos a valorizar a cadeia produtiva e o impacto da indústria que nos alimenta e nos veste, por que não exigir o mesmo da indústria que permeia todos os aspectos das nossas vidas?

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