Resistir para existir e existir para lutar

Mano Brown e Criolo falam da troca de referências nos ensaios e chamam atenção para momento do Brasil e a necessidade de atuar politicamente

por Guilherme Henrique em

Trip / Rap / Hip hop / Música / Política

Criolo parece não perceber a movimentação que acontece ao seu redor momentos antes de a entrevista concedida à Trip começar. Encostado na parede de azulejos brancos e sentado em um banco de madeira, ele tenta acompanhar o dialeto de uma voz feminina que ecoa do seu celular.

“Quem é?”, pergunta Mano Brown, que consegue distinguir o som alheio entre ruídos de flash, testes de microfone e a conversa paralela de duas assessoras. “Miriam Makeba”, responde Criolo. A partir desse momento, os dois passam a compartilhar um mundo paralelo, isolados e entregues à interpretação da cantora sul-africana, falecida em 2008, aos 76 anos.

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“O tempo todo é isso, mas de modo natural. Do mesmo jeito que eu mostrei um som aqui, ele também já mostrou outra coisa”, explica Criolo. A naturalidade com que essa troca tem acontecido há alguns meses será colocada à prova nos shows que ocorrem  dias 15 e 16 de junho no Espaço das Américas, em São Paulo, na próxima semana, no Rio de Janeiro, e, no mês de agosto, em Porto Alegre.

“Ele [Mano Brown] está vindo de um disco reconhecido internacionalmente, que venceu o Grammy. Eu fiz um álbum dedicado ao samba dos anos 40 e 50. Agora vamos subir no palco para fazer um show de duas horas só de rap. Ponta a ponta”, comenta Criolo. A parceria iniciada com uma apresentação em Belo Horizonte, em janeiro, foi remodelada. Clássicos da carreira de ambos serão revisitados com novos arranjos e melodias, sob coordenação do produtor Daniel Ganjaman.

Considerados expoentes de duas gerações do rap, Criolo, 43, e Mano Brown, 48, possuem idades próximas. A possibilidade de diálogo com o mesmo público ou geração, no entanto, não se aplica ao extremo sul de São Paulo, de onde vieram: Grajaú e Capão Redondo, respectivamente. “Quando eu estava pensando em escrever algo, ele já estava 'Brasil, tamo aqui'”, afirma Criolo. O primeiro álbum a colocar o rapper no cenário nacional foi Nó na orelha (2011). Antes disso, Mano Brown, à frente do Racionais Mc’s, já havia feito discos como Holocausto urbano (1990), Sobrevivendo no inferno (1997) e Nada como um dia após o outro dia (2002).

Para além da música, Criolo e Mano Brown entendem que subir no palco, juntos, é também uma forma de resistir aos retrocessos do país. “Esse lance do show é bom, mas a gente está vivendo um momento que é muito maior”, argumenta Brown. “O Brasil vai passar por um momento difícil daqui pra frente. Precisamos de todos, não só cantando, mas atuando na vida”, completa. “Esse show é uma afronta total, um murro, uma voadora, contra toda uma arquitetura da desgraça, do mal”, vocifera Criolo.

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As metáforas e abstrações de Criolo não estão desconexas da realidade. Ao contrário: parecem encontrar reflexo na voracidade com que Mano Brown ataca o verbo e as contradições do país. É a partir dessa poética distinta, mas relacionada, que os dois tentam decifrar os caminhos musicais e políticos do país.  

Trip. Como surgiu a ideia de fazer esse show?

Mano Brown. Foi uma decisão que partiu das nossas produtoras, não é?

Criolo. Houve um convite para nós cantarmos no festival em Belo Horizonte…

Mano Brown. Não partiu de nós dois, mas das mulheres que trabalham com a gente. Elas que conversaram: Boogie Naipe e OLOKO.

Do ponto de vista musical, vi que vocês estavam trocando algumas referências antes da entrevista começar. Isso acontece nos ensaios?
Criolo. Antes de ir para o ensaio, a gente desenha o que vai cantar e como será o show. O tempo todo é isso, mas de modo natural. Do mesmo jeito que eu mostrei um som aqui, ele também já mostrou outra coisa. Essas influências estão intrínsecas, vai acontecendo naturalmente, de uma fala, um pensamento, uma memória, um rolê, uma música que eu ouvi em um show dele. A gente está falando sem parar, e isso fica impresso no ambiente da construção, porque não é só escolher a música e ir lá cantar. Existe algo natural que se cria e se fortalece. Não é racional. “Ah, vou falar de tal coisa agora.” Em alguns momentos rola, mas, na hora do ensaio, estamos mil grau pra apresentação acontecer. Essa é minha visão desse cinco minutos, daqui meia hora posso falar outra coisa…

Há algo que vocês trouxeram e o outro se surpreendeu?

Mano Brown. Essa surpresa acontece durante o ensaio.  Converso sobre música com ele [Criolo]. Eu falo: “Você tem influência de Juca Chaves”. O Juca Chaves tem o sarcasmo, a maneira de abordar uma situação crítica com certa ironia e bom humor, o que falta no Brown às vezes. Eu sou um ouvinte. Antes de analisá-lo como pessoa, analiso o som dele. Conheço a mistura com a música afro, o samba, um perfil forte na MPB. O Brown já é o lance do soul, funk, dos anos 70 e 80, que ele tem também, mas com um espaço para outras influências. Durante o ensaio, vejo que ele e o Ganjaman têm caminhos diferentes do meu, para outros países, outros tambores.

Isso é curioso, porque vocês têm uma diferença de idade pequena, mas compartilham influências diferentes…

Criolo. É que na nossa época oito anos era muito tempo. O relógio… 

Mano Brown. Parecia que andava em câmera lenta.

Criolo. Isso. É outro rolê. Tem um espaço grande, até mesmo de vivência, de corre, de música. Quando eu estava pensando em escrever alguma coisa, ele já estava “Brasil, tamo aqui”.

Mano Brown. Mais ou menos, mais ou menos…

Criolo. Aquela coletânea girou tudo…

Mano Brown. Essa época ainda era um segmento grande. Mas ainda era só um segmento.

Criolo. Mas girou tudo que havia de black music.

Mano Brown. É, do nosso universo, sim.

Criolo. E do nosso universo em vários lugares do Brasil.

Mano Brown. Sim, espalhado. Mas a gente chegava com dificuldade em outros lugares. Porto Alegre era um tempo, Belo Horizonte outro tempo, Rio de Janeiro…

Criolo. Depende de quem está levando a música pra lá, como isso acontecia. Orelhão de ficha, né?

“A gente lançou o Cores e valores e o pessoal pegou nojo. “Cadê aquelas que faziam a gente chorar?” Música pra fazer chorar não tá tendo”
Mano Brown

Vocês têm dimensão do que esse encontro significa? Não só musicalmente, mas também como resistência pelo momento em que estamos vivendo.

Criolo. Acho que é um aceno de que esse “resistir para existir e existir para lutar” é uma prática da vida cotidiana. Segundo as estatísticas, existem muitos pontos que avisaram aos meus pais, de um modo não verbal, que eu ia morrer. De fome nos primeiros meses, de tiroteio. Eu estou com 43. Você está com quanto?

Mano Brown. 48.

Criolo. Pois é. E estamos no palco fazendo um som.

Mano Brown. Esse lance do show é bom, mas a gente está vivendo um momento que é muito maior. Um momento de ascensão de muita gente da nossa classe, do nosso segmento, morô? Em bloco. Show do Criolo com o Brown é a ponta do iceberg. Já existem artistas atuando há alguns anos, mas que estão mais fortes nessa nova fase do Brasil, após o governo Lula. Estivemos em um evento do Seu Jorge recentemente. Tinha a Karol Conká, que vem de Curitiba e ascendeu como mulher negra, o Rael, o Mano Brown, que está aí com toda a herança e carga de 36 anos de rua, vivência, gangsta. É muita experiência sendo trocada com gente mais nova. Tem o Djonga, o BK, Luccas Carlos, os caras do Rio de Janeiro, com uma cultura própria muito forte. O rap chegou de verdade lá, sem precisar tomar o lugar de ninguém. Por que estou falando de tudo isso? Porque esse momento é maior do que o nosso show, e vai ser necessário ter todo mundo. Nós não vamos poder perder ninguém. O Brasil vai passar por um momento muito difícil daqui pra frente. Precisamos de todos, não só cantando, mas atuando na vida.

O Criolo já disse em alguns momentos dos talentos desperdiçados na periferia e você fala desses novos artistas que estão surgindo. É uma equação difícil de ser resolvida só com a música. Como solucionar esse problema entre desperdício e novas oportunidades?

Criolo. Não só os artistas né, mas de todas as pessoas em geral. Mas quem causa o problema não está lá. Essa pergunta precisa ser feita para quem está fora da periferia e manda matar a periferia, das suas formas mais variadas. Desde a desvalorização do professor no Brasil, a desvalorização da caminhada do moleque que está querendo mostrar sua poesia, e as pessoas tiram sarro dele, e aí ele é abraçado pelos Saraus que acontecem num bar, debaixo da ponte, numa praça. Você tem um cais. Um pequeno cais de um porto que lhe abraça. Mas são muitos navios, jangadas, barcos, porque cada homem e mulher é um navio cargueiro de emoção, sentimentos, de felicidade, mágoa. A favela deu respostas de como resolver, mas sempre esbarrou em quem não mora na favela, ganha dinheiro em cima da favela e depois manda exterminar todo mundo.

Como a música de vocês tem se inserido nesse diálogo com os jovens, por exemplo, que estão submetidos às outras influências musicais e também de vida, na maneira de consumir, se informar…

Criolo. Olha meu sorriso. Receber o abraço de uma pessoa que atravessa a rua pra te dar um beijo, tirar uma foto com você. Isso aí é surreal, mano. Quando eu falava que ia cantar rap os caras davam risada. Eu acho maravilhoso, me faz bem. Essa coisa do jovem… Como a gente vai saber? Daqui a pouco é metade de um centenário, tem muitas pessoas maravilhosas fazendo uma pá de trampo, que eu ainda nem conheci, já estão ganhando o coração de tantas pessoas e que vai ganhar o meu também. Posso falar pelo efeito que o rap trouxe para a minha vida: me fortaleceu para querer fazer algo de bom, que eu não sabia o que era. Escrever as letras me fazia desabafar, contar um pouco da minha vida, da minha família, algo extremamente positivo. Todo esse amor que eu recebi ele fica impresso em cada palavra, respiração, silêncio. Silêncio também é música, não é? Não sei o que seria da minha vida se eu não tivesse recebido essa mão pra me ajudar.

Mano Brown. O lance é que a gente precisa devolver o que nós recebemos. O que eu recebi? Uma oportunidade de viver de novo. Quando entrei no rap, eu já não queria nem viver. Tanto fazia morrer ou viver. Eu saía de manhã sabendo que poderia não voltar. Ou que poderia matar alguém e ir pra cadeia. Essa era a minha realidade. “Se amanhã eu estiver com um tênis legal e dinheiro para a condução, tô vivo. Se não, tô morto”. Acordava, olhava para cima e via aquele buraco no teto. Pensava: “caralho, tô vivo nessa porra por que mesmo?” Eu sei como vários vivem, já estive nessa situação. Quando ganhei essa vontade de viver, com a música, o rap, eu não tinha nada a perder. Se foi bom pra mim, tento repassar para quem está chegando. “Você quer cantar rap? Mas por quê? Ah, por que você quer sobreviver? Então tá, vou passar o que eu tiver de melhor”. É o que eu vivi, o meu conhecimento, os conselhos.

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Brown, recentemente você disse que 2018 não era um ano para celebrar porque seus fãs estavam traindo você. Como é o relacionamento de vocês com as pessoas que não aceitam uma mudança de repertório, estilo?

Criolo. Primeiro de tudo: é direito dele. Não vibrando negativo, seguindo sua vida, sem atrapalhar ninguém… Já temos poucos, ainda falar o que o cara precisa escutar só porque você está cantando é um bagulho louco. Acho que o grande lance não é tentar colocar em bandejas o pensamento do outro que lá está, mas a força de cada um por se permitir seguir seu coração musicalmente. A audácia de fazer algo completamente diferente, mas que não é diferente porque está dentro de você. Apenas outras pessoas não estavam tão próximas para sentir essa energia. E você é um ser todo musical, a sua força está no seu gesto e ele estará sempre presente.

Mano Brown. Esse lance do conflito com a plateia.... Sou o campeão nisso. Sempre tive conflito com o pessoal que me acompanha. Lembro uma vez, bem antes da internet, Instagram, essas coisas, quando a gente fez a música 1 por amor, 2 por dinheiro, em 2002. Uns 3 ou 4 moleques se reuniram com umas notas de R$ 2 e foram para frente do palco me provocar. No final do show eu chamei eles pra trocar ideia e falei: “Seus arrombados, me respeita. O que vocês tão querendo dizer com isso aí?”. “É que agora você tá falando de dinheiro...”. “O dinheiro faz parte da vida, moleque. Você vai ser homem e vai entender a responsabilidade de lidar com o dinheiro. Alguém tem que fazer o serviço sujo nessa porra”. Hoje, esses moleques devem ter seus 35, 36 anos, correndo atrás de dinheiro que nem louco pra pagar as contas. Muitas vezes eles não entendem o que a gente fala e é um exercício diário pensar pra trás e acompanhar a maioria. Não dizendo que sou pra frente, mas tem coisa que as pessoas realmente não estão vendo. Tem uma cortina de fumaça na frente dos fãs, da molecada. Há uma enxurrada de informação que precisa ser peneirada. Triagem. Muita coisa chega de forma distorcida. Tem uma geração que não conhece o Brown ex-favelado, um pé no crime, um pé na música. Eles conhecem o Brown da rádio, do clipe, da lenda. Como se o Brown fosse um superstar. Eles não conhecem, então questionam. Muita gente não faz ideia da responsabilidade real da caminhada que nós estamos. É artística, profissional, mas é a vida real. Risco de vida, inclusive. É compromisso sério. É uma geração engajada, nós provocamos isso e é pra ser assim mesmo, questionando. A única maneira de explicar as mudanças é não explicando, mas fazendo música. A música mostra a mudança do mundo.

“[Esse encontro] é um aceno de que esse “resistir para existir e existir para lutar” é uma prática da vida cotidiana”
Criolo

A partir do momento que o artista está tentando entender o seu público, ele cria uma nova perspectiva pra si, não? Como é criar essa nova perspectiva a partir das influências do público? É recorrente?

Criolo. Tem uma coisa interessante aí de não haver uma dicotomia entre público, pessoas, vida, e o seu trânsito nisso. Eu não me enxergo à parte. Assumir isso já é se enxergar à parte, então eu tenho os mesmos sentimentos que o meu povo tem. As emoções me levam às canções.  Sou um brasileiro que vive a vida de brasileiro. Ando ali, corro aqui… Até os trinta e poucos anos entregando currículo em tudo quanto é lugar. Imaginar a população, recortar o público e depois eu me recortar e sair da população e também não me ver mais como público… O que eu estou fazendo então? A gente está vivendo e nisso nasce a canção. Você é um ser vivo que sofre as influências de tudo ao seu redor. De tudo que chega pra você e daquilo que não chega, porque alguém que vibra ruim pra você, pra ela foi só uma conversa de bar, mas às vezes alguém pode adoecer. “Ah, falei mal daquela pessoa… Amanhá é outro dia”. Mil pessoas falando. E se alguém adoece? Porque nós somos energia, e eu não me ponho à parte dessa energia. Você pode analisar tudo, mas a canção vai vir do que o seu coração está pedindo. Há quem analise friamente, como pessoas que tratam o ser humano como peça de mercado, mas os sentimentos da canção real só vêm do que o teu coração aponta e também o teu desejo, porque a gente quer viver mais um pouco, pra cantar que tudo de ruim acabou, que todo o sofrimento que nós vivemos hoje e desde quando nascemos, é passado. Acho que ainda tem muito desse sentimento que faz você parar sua vida e viver essa, porque senão eu não consigo respirar amanhã se tirarem a música e a palavra de mim. Não dá pra separar público… É como se a gente pegasse o recorte de uma revista e colasse numa outra. São pessoas vivas, em trânsito. O DJ Dan Dan fala sobre isso: se a gente puder ser, durante um show de 1h20 a trilha sonora de um bom ambiente pra você, já é uma honra cabulosa. Uma visão que apareceu na sua cabeça, um livramento, uma pessoa querida que um dia pode não estar mais com você, e existir a recordação de tal música, tem tudo isso. É tudo ligado ao sentimento, emoção. Tem outras coisas, mas o verbo é falho. A gente não consegue expressar.

“Tem uma cortina de fumaça na frente dos fãs. Há uma enxurrada de informação que precisa ser peneirada. Muita coisa chega distorcida”
Mano Brown

Mano Brown. Se o que eles pensam sobre mim interfere no que vou fazer daqui pra frente? Claro. É por eles que a gente está aqui. Não ignoro nunca o que eles pensam. Mas tem uma onda. Quando você coloca isso na música, eles mesmo estranham. No Natal estava na favela com os moleques e um cara falou: “Pô, Brown, saudade daquelas músicas do sofrimento, que você nunca mais fez”. “Vocês tão sofrendo pra caramba, né? Como é que foi o Natalzão? Aleluia de whisky, cerveja, todo mundo comendo demais, gastando pneu de moto que custa R$ 12 mil, relógio de R$ 2 mil, camisa de R$ 700. É pra cantar o quê mesmo…?”. “É, Brown, o mundo mudou”. Os meus raps sempre foram a verdade do que eu vejo. Não dá pra inventar uma situação ou dramatizar o que já é dramático. Eu desenho do jeito que está, e do jeito que está pode não agradar. “Não tá assim não”. “Tá sim, pode crer”. “Pô, mas eu gostava mais daqueles raps antigos”. “É, pois é, mas não tá mais assim. Você não é mais aquela pessoa, eu não sou, a quebrada não é”. O mundo mudou e isso vai para os meus raps. Aí a gente lançou o Cores e valores (2014) e o pessoal pegou nojo. “Cadê aquelas músicas que faziam a gente chorar?” Música pra fazer chorar não tá tendo.

 

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Como vocês avaliaram a entrada do álbum Sobrevivendo no Inferno no vestibular da Unicamp? Pode haver uma mea-culpa, dizendo que não há mais racismo e que até o álbum do Racionais está no vestibular?

Criolo. Mas isso partiu deles em algum momento? Alguém de lá falou isso?

Não, mas há um debate sobre esse tema.

Criolo. Ah, um debate, então tá bom, porque achei que tivesse partido deles. Escrevi um bagulho sobre isso recentemente: “Acabo de sair do palco, suor escorrendo a adrenalina do momento, passando uma mensagem pra refletir realidade. Renascer in loco, no palco, alguém melhor do que o que se jogou do penhasco, que é se assumir frágil no verso e forte na luta. Isso é estar no palco. Isso e tantos outros sentimentos não-verbo, e total-verbo, construção, análise, sintaxe, não-gramática. Muito mais emoção do novo, que preenche a fonética da dialética da nova gíria. Proteção em palavra, de um povo sofrido, esquecido, horrorizado e por muitos amaldiçoado. A importância que todos nós já dávamos ao natural, pois já o é o nosso dia-dia, mandamentos da favela, privada de ir e vir. Hoje a Academia percebe que não dá pra reescrever e forjar o miolo da literatura que nasce do berço da solução, sugado por tantos problemas. O aceno bem-vindo, esforço de muitos, já sabido tardio, mesmo assim celebrado o reconhecimento da voz, da ginga e do entendimento ao redor, relato não-frio, histórico e real de uma mentalidade que massacra e exclui no Brasil”.

Mano Brown. Quem escreveu isso?

Criolo. Eu escrevi. Veio tarde o reconhecimento, mas veio. E eu acredito que muita gente se esforçou para isso acontecer. Há de se celebrar, mas até quem tá meio deles tá ligado que veio tarde.

E você, Brown?

Mano Brown. Eu prefiro ver como luta, tá ligado? Não conquistamos nada. É um grão de areia em um caminhão de retrocessos que a gente tem. Mas foi o que o Criolo falou: há de se celebrar esse pequeno sei lá o que… Reconhecimento. Eu tenho que entender que essa luta é grande, então preciso reconhecer que é uma conquista. Eu participei, mas muita gente lutou para chegar lá. Não dá para desprezar. Pode ser que haja isso de “ah, vamos deixar isso aqui pra não dizer que não passou ninguém”. Seria uma maldade do caramba se fosse assim, essa esmola. Posso estar desavisado, mas não sinto isso.

Há uma coisa que o Criolo diz sobre a dificuldade do brasileiro se entender como povo. O historiador Sérgio Buarque de Hollanda falava  sobre sermos “desterrados em nossa terra”. A entrada do álbum é uma maneira de explicar o país de outra perspectiva?

Criolo. Eles estavam descrevendo o Brasil. Os caras fizeram isso no álbum, com música. Um álbum monstro, que entrou pra história e está sendo reconhecido em outros cantos. Acredito que eles fizeram com o sentimento deles, com tudo que estava amassado no coração. Foi um recorte, e que agora está sendo reconhecido como uma obra cabulosa, necessária, porque vai além do rap, e isso é muito forte. Algo escrito por alguém que estava vivendo aquilo. E tiveram o reconhecimento em vida, então isso já grita, esperneia muita coisa. Boxe. Não tem pra onde correr. Malandro, os caras não entendem o que é atravessar a cidade em 1988 pra cantar uma música, sem a condução da volta e sem saber se vai voltar pra casa. Se eles abrirem os sabores do que tinha na trincheira da noite… Vários não voltaram. “Cadê fulano?”, “Morreu”. “Por quê?” “Era de outro bairro e ninguém conhecia.” Foi lá cantar uma música. Talvez esse irmão que se foi tenha sido o maior escritor de rap do país e o Brasil matou. Então, essa obra é um recorte de uma realidade que infelizmente ainda acontece. As minhas palavras jamais vão alcançar a importância de quem estava lá pra botar a cara a tapa e jogar essa pancada no mundo. Não pensa que é vida de bonito, que tá doce. Tem perseguição, sumariação de ideias. Esse resistir que você falou há pouco também está nisso: não é só no tanto de água que eu tenho que beber nas minhas refeições balanceadas. Não é esse tipo de resistir. É de outro bagulho. Olhar o impacto que essa obra tem e tudo isso que está acontecendo, talvez porque as pessoas tenham que se deparar com quatro nomes, de quatro caras de quebrada que revolucionaram a música popular brasileira. E dói. Dói pra muitos ver o reconhecimento de um preto favelado. Dói pro cara falar “como o meu filho vai fazer o vestibular e precisa ouvir o disco desses caras?”. Tem todo o sentimento envolvido daquilo que te magoa e faz você escrever essa canção, daquilo que você quer para o seu povo, a consequência do que vem depois, do mundo inteiro querendo sua cabeça. Sempre tem alguém que puxa o bonde. O vento bate na cara primeiro de quem está na ponta. Vários vão nu vácuo, né? Mas alguém tá puxando. Tem esse lado humano, também, de uma terra sem lei, sem dono, onde não estar vivo é só o detalhe para alguém que mora muito longe.

“A gente lançou o Cores e valores e o pessoal pegou nojo. “Cadê aquelas que faziam a gente chorar?” Música pra fazer chorar não tá tendo”
Mano Brown

Brown, você fala sobre ser um cara utópico artisticamente. Realizar esse show  ao lado do Criolo é realizar um pouco dessas utopias?

Mano Brown. É uma coisa muito boa, mas que não chega a ser utopia. Não é algo tão distante assim. Mas é uma oportunidade de fazer algo além do que eu já fiz na música, tanto que eu nem quis mudar tanto. “Ah, é o novo Brown”. Não, é o mesmo. Eu vou tentar fazer o melhor show da minha vida. Histórico, inesquecível, ficar 3 horas depois do show curtindo, fumando, bebendo, porque é assim que eu comemoro. Sobre a ousadia na música, estou sempre procurando coisas novas, como aprendi com os mestres. Eu não desperdiço as músicas e os artistas mais velhos. São minhas influências de beco, favela, asfalto, esquina. O meu rap é rua e respira rua. Nem sempre a rua gosta de se ver como ela é. Aí dá aqueles conflitos de internet. Claro que dá pra sonhar com música. Não custa nada.

No show em Belo Horizonte vocês cantaram Jorge Ben Jor em determinado momento. Esse encontro também serve para celebrar a obra dessas pessoas que influenciaram suas carreiras?

Criolo. Sim, total. Sempre vai ter uma ideia musical, uma influência que o cara vai pegar. Tem várias dessa no show. A gente fechou o show com Jorge Ben. Qual foi mesmo?
Mano Brown. "Umbabarauma"! Essa eu tive o prazer de trabalhar com ele, no estúdio. Ele é o chefe! Esse show de BH a gente só celebrou, praticamente. Toda hora tinha uma referência.

Criolo. E os músicos também arregaçaram.

Mano Brown. Foi conceitual. A parte que eu me envolvi, acabei puxando o bonde das coisas mais antigas, que ninguém entendia muito. Romântico, música cantada. Foi a maneira de fazer essa homenagem. O Criolo faz isso muito bem. É sempre uma oportunidade de celebrar a música negra, que vem das bandas, do James Brown, da África, Cuba. A minha geração cresceu ouvindo música norte –americana. Não tínhamos referência de música brasileira, a não ser a do nosso quintal. Aquilo fascinava. Nascemos em um lugar muito pobre, de recursos mínimos, porco na lama, bode, mas que sonhava com Nova Iorque. Essa ambição me ajudou, também.

Criolo. Saber que as coisas existem muda sua cabeça, mano. Pode ser uma ideia, um olhar, um jeito diferente de ver o tamanho do mundo. Você queria estar nos videoclipes que assistia. Eram os seus ídolos, heróis. Quem não queria estar no trem, naquele clipe do RZO?

Mano Brown. Eu tava! (risos)

Criolo. Entendeu aquela diferença de oito anos agora? É isso. Agora sobre as utopias artísticas, pra mim era uma utopia cantar com o Brown. Era um sonho que eu jamais abusei sonhar, e que está se realizando. Do mesmo jeito que eu nunca imaginei fazer uma tour com o Milton Nascimento e Mulatu Astatke. Nunca me imaginei no palco com uma das vozes mais poderosas do Brasil, que extrapolou segmentos da arte, política, do que você quiser. Está aqui, vivo, e nós vamos subir no palco. O frio que você sente numa noite onde está todo mundo dormindo com fome é diferente. Então a gente sobe no palco pegando fogo, que é pra aquecer todo mundo, porque tem muitos dos nossos que continuam sentindo esse frio de alma também. Você anda daqui ali e conta quantas pessoas estão comendo comida do lixo e quantas delas têm a nossa cor. Está tudo acontecendo ao mesmo tempo. A gente subir no palco é uma afronta total, um murro, uma voadora, contra toda uma arquitetura da desgraça, do mal, que foi feita para que a gente fosse apenas o submisso e agradecesse pelo subemprego. Quando estamos no ensaio e ele canta as músicas dele, fico viajando, com mil coisas na cabeça. Mas também faço as obras, não to nem aí. A gente vai conversando, porque estamos juntos. A idade é um bagulho importante: eu já passei dos quarenta, ele também e somos filhos do extremo sul da zona sul de São Paulo. É possível sobreviver a tantos ataques, mesmo sob a mira de tantos snipers na nuca do seu filho. A real é essa. Quando você desvaloriza a escola, você está matando uma criança. Quando a tiazinha que nasceu para ser enfermeira, que te acalma com um “boa noite”, não é valorizada, você está matando um moleque da favela. Isso acontece sistematicamente, de maneira organizada, planejada. Subir no palco também é isso. É também o tiozinho da rua que odeia rap, mas que sabe que eu canto há trinta anos e vai ficar feliz por eu fazer um show com meu ídolo. A gente não consegue arrancar as emoções do que vivemos, por isso talvez o sofrimento seja maior. Vamos carregar esse momento no lugar mais bonito dos nossos corações, mas para quem quer nosso mal, a gente é jornal de ontem. Sempre foi assim e sempre será, até que percebam o tamanho do equívoco. Tem muita coisa pra acontecer. A nossa celebração é só um “vocês não tão ligado no que está vindo”. Você dá o sentido às palavras, mas ela ainda são uma ferramenta arcaica pra expressar emoção.

O que vocês têm pensado musicalmente? Um vem do samba, o outro do soul, funk…

Mano Brown. Estou fascinado pra fazer música nova. Estou “inspiradaço”. O mundo está mostrando muita coisa nova. É o lance de você observar e aprender. Não tem como ignorar o que está vendo. Eu tenho que documentar essa época.

Criolo. Acabei de fazer um disco de samba, que era um sonho antigo. De manhã penso num forró, à noite é bolero, depois um reggae, aí minha mãe pede algo e eu corro pra agradá-la. A gente tá pensando geral, sem muros. A arte não tem muros, homens têm muros. É como o Brown falou: pra colocar as nossas ideias é preciso abrir mão de muita coisa, um pouco de audácia e ir na contramão daquilo que todo mundo espera que você faça no sentido de manutenção daquilo que se conquistou. Ele não foi para uma zona de conforto ou para a contramão do que estava no coração dele, daí nasce o disco solo [Boogie Naipe]. Os caras não sabem o trabalho que dá e o preço que é para fazer isso. Eu acredito que você deixa uma contribuição: é possível seguir o seu coração. Ainda que isso traga outras mil fitas. Às vezes as pessoas ficam muito ligadas no que fez sucesso e não percebem um momento do artista, do porque que ele fez tal coisa, que é algo que não tem preço. Nós falamos em outra ocasião: ele está vindo de um disco reconhecido internacionalmente, que venceu o Grammy. Eu fiz um álbum dedicado ao samba dos anos 40 e 50. Agora vamos subir no palco para fazer um show de duas horas só de rap. Ponta a ponta. Às vezes o que você pensa esteticamente de futuro tem o seu valor, mas passar para um jovem que ele tem dentro dele todas essas energias é um papo muito mais de futuro do que um som de 2030 que ainda vai vir.

Créditos

Imagem principal: Gil Inoue/divulgação

Fotos: Gil Inoue/divulgação

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