por Natália Heine Pesciotta

Coletivo paulistano junta 22 autoras em antologia: “O pretexto é a poesia, mas o que queremos é mostrar que existimos”

Quando subiram no palco da Ação Educativa, em São Paulo, para o primeiro lançamento do livro Pretextos de Mulheres Negras, as 22 autoras da antologia poética tinham algo em comum além da cor da pele: o discurso. As meninas, poetas profissionais ou amadoras, dividiam a vida entre antes e depois da obra. Emocionavam-se com a mudança de autoestima durante a criação do livro. “Para nós, que só temos referências brancas a vida toda, foi uma escola não de como ser uma mulher negra, mas de como é lindo ser uma mulher negra”, resumiu Nayla Carvalho, uma das participantes.

A obra foi totalmente feita por mãos femininas negras: capa, projeto gráfico, fotos, produção. É um dos frutos da militância da jornalista e poeta Elizandra Souza. A moradora da zona sul paulistana, que conversou com a Tpm sobre o projeto, também se auto afirmou por meio de versos. Na adolescência, editou um fanzine com poemas chamado Mjiba. A palavra, que virou uma tatuagem em seu braço, vem de um dialeto do Zimbábue. Quer dizer “jovem mulher revolucionária” e era usada para denominar guerrilheiras do país africano.

Desde 2004, o Mjiba é um coletivo em busca de espaços para as mulheres negras na cultura, que Elizandra toca com as irmãs e amigas: Thais Vitorino, Carmen Faustino, Elisângela Souza e Elidivânia Souza. O grupo foi o responsável pela antologia de poemas, depois de ter promovido várias programações femininas de hip hop. Mas qual é, afinal, a revolução dessas jovens paulistanas? “A construção de mulheres negras com autoestima, valores e dignidade”, dispara Elizandra. “A proposta é audaciosa, mas é uma construção diária.”

“Nossas intuições e sensibilidades sempre foram consideradas de menor valor em uma sociedade em que precisamos o tempo inteiro ser fortes, companheiras, prestativas e cuidadoras”, diz a apresentação do livro. Na obra, porém, as moças ganham espaço para voltar-se para si e versar sobre relacionamento, sexo, amor, discriminação racial.

Elizandra, redatora da Agenda Cultural da Periferia e autora de Águas da Cabaça, fala um pouco mais sobre o projeto, sua militância e pretextos.

As autoras do Pretextos de Mulheres Negras falam do livro como algo essencial para a própria autoestima. Você também passou por um processo de afirmação? Todas as mulheres negras precisam de referências. Mesmo as que possuem um pouco mais de conhecimento, a todo momento precisam se repensar e se refazer, pois a sociedade o tempo todo te diz que você não é o padrão de beleza, que você é feia, que você é pobre, que você não deve ganhar igual aos homens brancos. Dentro da hierarquia social, somos as últimas. Pra mim, o essencial na construção da autoestima foi o hip hop, que me fez sentir pertencente. Você acha que não se encaixa no mundo: não está nas revistas, nas propagandas, só em imagens negativas... E aí o hip hop me fez perceber meus valores e pertencente a um povo. Em um segundo momento, foi o movimento de mulheres negras que me fizeram me ver como uma. Até então eu não conhecia a questão de gênero. Inconscientemente me masculinizava nos espaços da cultura hip hop. Usava calças largas para ficar "menos sexy", para que as minhas ideias prevalecessem. Hoje acredito que este caminho foi importante. Eu fui me construindo, enfrentando o mundo, encrespando meus cabelos, me afirmando com os meus versos.

 

“Todas as mulheres negras precisam de referências. A sociedade o tempo todo te diz que você não é o padrão de beleza, que você é feia, que você é pobre.”

 

O que você pretende mudar com sua militância? A ideia é a construção de mulheres negras com autoestima, valores e dignidade. A proposta é audaciosa, mas é uma construção diária. Essa é uma bandeira que levanto desde a época que fazia fanzine no começo do ano 2000, que também tinha o nome de Mjiba (“jovem mulher revolucionária”, na língua chona, do Zimbábue), assim como o coletivo que participo hoje, que promove o evento de hip hop Mjiba em Ação.

Como você tomou conhecimento do termo “mjiba”? A palavra deu nome para fanzine, coletivo e você tem ela até tatuada no braço... Conheci num livro de uma escritora do Zimbábue: Zenzele - Uma carta para a minha filha (de Nozipo Marraire, editora Mandarim, 1996). Peguei o livro emprestado em uma biblioteca pública entre 1999 e 2000 e fiquei alucinada. Mudou a minha percepção de vida, aprendi muito sobre africanidade, como é ser mulher negra e como lidar com o racismo.

Qual foi o critério para escolher as autoras que participaram do Pretextos? O pretexto é a poesia, mas o que queremos é mostrar que existimos dentro da sociedade e dentro da produção cultural da periferia. Não foi uma seleção de autoras, elas foram convidadas para compor o livro, como uma reunião de amigas e conhecidas – algumas por afinidade pessoal, outras por afinidade poética e outras pela militância cultural. A ideia surgiu para pluralizar essas vozes dentro da literatura periférica, pois mulheres são raras publicando textos. O livro traz também o universo das autoras. Fizemos entrevistas com as participantes para elaborar a apresentação de cada uma e muitas tiveram dificuldade em responder sobre suas referências. Essas perguntas foram uma forma de elas refletirem sobre elas mesmas e sua construção.

 

“Depois das fotos e dos encontros, também passamos a nos olhar no espelho e até conseguir coisas básicas como passar um batom vermelho.”

 

Em vez de simplesmente reunir poemas das autoras, o projeto do livro as produziu, fotografou, entrevistou e ainda promoveu a troca de experiências. Qual a importância desses encontros? Os encontros foram algo não programado dentro do projeto. As fotos seriam durante o evento Mjiba em Ação, mas a fotógrafa não podia ir no dia. Marcamos então um piquenique no parque para fazer as fotos e foi incrível. Gostamos tanto que combinamos outras vezes. Foi muito espontâneo a vontade de conversar sobre nós mesmas. Tanto que queremos nos encontrar mais. A importância maior é a troca de conhecimento e a vivência de estarmos juntas, fortalecendo umas às outras. Conseguimos nos perceber melhor dentro da sociedade, da literatura periférica. Depois das fotos e dos encontros, também passamos a nos olhar no espelho e até conseguir coisas básicas como passar um batom vermelho.

Que tipos de obstáculo e superação vocês identificaram em comum entre vocês? A autoestima da mulher negra é inconstante. Tem dias em que acreditamos que somos imbatíveis, mas tem outros em que o racismo e machismo nos derrubam. Temos em comum essas questões, envolvendo o tipo de pele, cabelos crespos, sociedade, relacionamentos amorosos, além de dificuldades financeiras, desvalorização profissional, invisibilidade... Por isso minha atuação é para criar referências positivas para nós mesmas e para as nossas crianças. É tudo construção. Um dia, em alguma geração, tudo isso não será mais uma problemática.

Qual objetivo você espera que o livro atinja? Chega um momento que você se vê sozinha, e muitas amigas também sozinhas. Aí você junta todas em uma antologia e percebe o quanto somos parecidas. Se nosso trabalho está junto, a possibilidade dele ser visto é muito maior. Tem mais força 22 poetisas negras do que uma. Mas, ao mesmo tempo, espero que daqui alguns anos boa parte destas autoras tenha o seu próprio livro, com as suas ideias, os seus cheiros, os seus versos... Esta é a luta para pluralizar as vozes negras femininas.

Vai lá: Veja as datas do lançamento do livro na página do Coletivo Mjiba no Facebook

(*) Natália Heine Pesciotta é jornalista, repórter da revista Almanaque Brasil e colaborou para a Tpm

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