por Kátia Lessa
Tpm #154

Ela é a primeira mulher a surfar, na remada, as ondas de Jaws, no Havaí e integrante da primeira dupla feminina de town-in, praticante de canoagem, SUP e windsurf. Conheça Andrea Moller

Pelas ruas do north shore de Maui, no Havaí, não há quem não saiba quem é Andrea Moller. Pergunte aos surfistas da praia de Hookipa ou aos big riders locais, e a resposta vai ser algo como: “Ela vive por aqui, é corajosa e faz coisas que muita gente não consegue”.

Nascida em São Paulo e radicada em Ilhabela, no litoral paulista, Andrea foi a primeira mulher a dropar Jaws, no Havaí, uma das ondas mais temidas do planeta, sem o auxílio de um jet ski. Fez parte da primeira equipe de stand-up paddle do mundo e da primeira equipe feminina de town-in, duplas que usam jet ski para entrar em grandes ondas. Aos 35 anos, a waterwoman já foi nomeada três vezes para o Billabong XXL Big Wave Awards e é campeã absoluta na travessia do canal que vai da ilha de Molokai pra Oahu. Esse percurso, que dura em média 7 horas, ela percorre quatro vezes por ano, em competições de modalidades diferentes: canoas individuais, canoas de três ou de seis pessoas e stand-up paddle. E como se o currículo aquático não bastasse, Andrea trabalha como paramédica na ilha de Maui, onde mora há 17 anos, e é mãe de Keala, de 12.

A paixão pelo esporte veio cedo. Filha de uma professora, Andrea concluiu o ensino médio aos 16. Com um ano de vantagem em relação aos colegas de sala, a família achou que ainda era cedo para que ela mudasse de cidade e começasse a pensar em faculdade.

Sem a escola e sem a pressão do vestibular, ela passou a dedicar boa parte de seu tempo ao esporte. Começou a participar de competições de windsurf, atividade que aprendeu com o pai, ex--atleta e ídolo, e não parou mais. “Foi nesse ano que virei atleta. Crescer na ilha foi o que me fez ser o que sou hoje. Minha turma era de gente como o kitesurfista Guille Brandão e o iatista Robert Scheidt, todo mundo ali gostava de desafios. Não tinha essa de ‘sou mulher, não vou’, eu fazia tudo o que eles faziam”, diz.

Scheidt, amigo de infância, não esquece a parceira de aventuras: “Lembro particularmente de uma ida e volta para a praia de Castelhanos, de bike. Naquela época a trilha era duríssima e levava umas 5 horas para ir e voltar. No final, todos desistiram e colocaram as bikes no carro, só sobramos ela e eu, e eu pensei: ‘Essa menina tem garra e determinação impressionantes’. Não é à toa que agora está detonando no Havaí”, diz.

O irmão de Andrea, Marcos Moller, lembra que os sustos na família começaram cedo. “Eu praticava vela oceânica, coisas mais calmas, e ela buscava sempre o mais radical”, diz. “Quando éramos adolescentes, a Andrea foi correr uma prova de mountain bike. Caiu e ficou desacordada. Meus pais ficaram assustados e tentaram fazê-la desistir da bicicleta. Foi então que o foco dela passou a ser o mar.”

Hawaiian dream

Nessa época, a avó de Andrea resolveu que seria uma boa ideia se a garota fosse para os Estados Unidos estudar inglês para o vestibular. Ela passou três meses em San Diego, e um dia foi conhecer o Havaí. Apaixonada pelo cenário e pelo clima esportivo, decidiu ficar. “Meus pais eram rígidos, eu sabia que não poderia ficar por lá sem fazer nada. Então resolvi me matricular na faculdade de hotelaria. Liguei pra minha mãe e disse: ‘Mãe, San Diego é só balada, e a faculdade é o mesmo preço do intercâmbio’.”

Andrea chegou ao Havaí em 1998. Quando não estava na faculdade, trabalhava fazendo protótipos de velas para o windsurfista Robby Naish (por US$ 7,50 a hora). “Logo no primeiro ano comecei a competir no windsurf. Além disso, passei a fazer parte de um clube de canoagem, que acabou tendo forte influência na minha vida. Eu era nova, não dominava a língua, eles me abraçaram como uma família”, diz.

Quando os estudos chegaram ao fim, Andrea já não conseguia voltar. Aos 24 anos, engravidou de um americano e parou de sonhar com uma vida em sua terra natal. “Nunca trabalhei no Brasil, nunca dirigi no Brasil, nunca tive um marido brasileiro, então o Brasil é um mundo imaginário pra mim. Quando vou a São Paulo, as pessoas têm que me ajudar a escolher até a roupa que vou vestir. Fico perdida, virei uma gringa caiçara”, ri.

Depois de formada, Andrea trabalhou com hotelaria. Participou da organização de banquetes de casamento, fez bicos aqui e ali e durante dez anos foi instrutora de mergulho em um barco. Quando tudo parecia estabilizado, já casada e mãe, decidiu investir num antigo sonho: trabalhar com algo ligado à medicina. “Lembro de chegar em casa e falar para o meu ex-marido que ele ia ter que ficar com a minha filha três vezes por semana pelos próximos cinco anos porque eu tinha decidido ser paramédica.” E assim foi.

Atualmente, sua rotina é dividida entre os treinos e a vida na ambulância. Como paramédica nas regiões de Haiku, Pahia e Makawao, Andrea tem uma folga de quatro dias para cada plantão de 48 horas. E é nesse período que aproveita para treinar, em um esquema que alterna as modalidades. Quando não tem onda, gosta de pedalar, nadar e treinar propriocepção (que aprimora o equilíbrio, a resistência e a consciência corporal).

Em 2004, quando a filha tinha apenas 1 ano de vida, Andrea conheceu quem a faria quebrar barreiras no esporte: a também brasileira Maria Souza, uma surfista que já era conhecida na região. Ex--mulher da lenda do surf Laird Hamilton, ela encarava tudo que o surfista fazia. Certa vez encasquetou que queria fazer town-in e começou a procurar outra mulher para formar uma dupla. Maria chegou a ir ao Brasil para uma feira de surf em busca da parceira ideal, mas não encontrou. Foi então que lembrou de “uma garota mais nova que praticava windsurf em mares sinistros”, conta.

Missão Jaws

O contato deu certo. As duas racharam a compra de um jet ski, pesquisaram sobre mecânica, treinaram resgate e formaram a primeira dupla de town-in feminina da história. “Os homens ficam alucinados em ver duas mulheres superseguras no mar. Andrea é guerreira, inteligente e aprende tudo rápido. Chamamos uma à outra de esposa, pois temos um casamento no mar. Quebramos uma barreira e até hoje não tivemos sucessoras”, diz Maria.

Um ano depois, quando Laird Hamilton apareceu na praia com uma invenção que viraria uma febre, o stand-up paddle, a dupla foi pioneira novamente. “O Laird apareceu com o dele, e a Maria se empolgou. Procuramos um shaper e pedimos uma prancha para cruzar o canal de Molokai a Oahu. A prancha era tão grande que nem cabia na sala, o shaper dizia que nós éramos loucas, mas deu certo. Hoje sou recordista dessa travessia”, orgulha-se Andrea. Preconceito dentro da água ela só diz ter sentido de forma indireta. “Era uma coisa velada, mas a gente sentia uma pressão enorme para não fazer merda, pra não perder o biquíni na onda, essas coisas. Não somos as melhores surfistas, mas provamos para os caras que mulher também pode, é só pensar na Maya Gabeira.”

Um dia, Andrea estava em casa quando o amigo surfista de ondas gigantes e também brasileiro radicado em Maui, Yuri Soledade, ligou e avisou que Jaws estava quebrando grande. Sem a “esposa”, ocupada naquele dia para entrar no mar com o jet--ski, ela resolveu que cairia na bancada usando apenas a força dos braços. “Quando o mar quebrava daquele jeito eu ficava louca, não sentia nem fome, só arrepio”, lembra.

O mar estava gigante e só de descer o cliff para chegar às pedras a mão de Andrea já suava. “Hoje eu uso um colete que infla e me leva à superfície, caso eu tome uma vaca, mas na época era só um shortinho de lycra e muito foco.”

Ela lembra que o barulho das ondas era tão assustador quanto atraente. “É claro que dá medo, mas não é um medo que paralisa, é um medo que instiga. O Yuri me ajudou muito, me fez acreditar que eu podia, me acalmou. Quando você dropa uma onda, não sabe exatamente o tamanho que ela pode ficar, porque você está de costas, e aí tem que dar conta do recado e pronto”, diz. Andrea só acreditou no feito quando viu as imagens depois. Ela conta que foi uma adrenalina tão grande, que busca aquela sensação de novo em tudo o que faz.

Longe de se aposentar e com planos de surfar Nazaré, em Portugal, a onda na qual Maya Gabeira sofreu um grave acidente em outubro de 2013, a maior waterwoman brasileira não se preocupa com o medo. “Quando eu quero uma coisa, o medo vira respeito. Durante todo o meu tempo de atleta eu já era mãe, então nunca bobeei para o risco”, diz. “Tenho fé em Deus e acredito que quando você faz alguma coisa com o seu coração, e não para mostrar para os outros, você está protegido. E sinto o maior orgulho de mostrar para outras mulheres que eu sou mãe, que eu trabalho e que, se eu posso cair em Jaws, elas também podem.” 

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