Natasha Madov
Diana Assennato

por Natasha Madov
Diana Assennato
Tpm #164

Os aplicativos que contam (passos, batimentos, performance, ovulação, horas  de sono…) estão cada vez mais em alta. Mas por que estamos contando mesmo?

Parabéns! Você acumulou 210 pontos e está melhor do que 73% dos usuários.”

“Você precisa acordar em 6 horas e 43 minutos.”

“A qualidade do seu sono caiu 29% de ontem para hoje.”

“Uau! Você gastou 859 calorias!”

“Você correu 8 quilômetros. Faça esta rota novamente para medir o seu progresso.”

Apps que monitoram o sono, medem os nossos gastos, os batimentos cardíacos, rastreiam nossos passos, calculam nossa performance no esporte, a ovulação, a menstruação e quanto tempo passamos on-line estão cada vez mais populares. A cada upgrade de software ou hardware, a tecnologia nos presenteia com uma ferramenta nova para medir alguma coisa – que, claro, é também a possibilidade de um produto novo. Como, por exemplo, os relógios inteligentes ou os aplicativos que prometem uma vida melhor: quem não quer todas as respostas sobre si em um placar?

O problema é que o controle não está livre da cobrança que vem ao ter acesso a essas informações. Seria inútil oferecer o nosso corpo físico a serviço da tecnologia e descobrir quantos passos damos por dia se o objetivo não for fazer cada vez mais, melhor e mais rápido. Certo? Essa autocobrança começa a se tornar tóxica quando o objetivo passa a ser “ranquear melhor”. No fim das contas, o que estamos medindo: quem realmente somos ou quão perto estamos de quem gostaríamos de nos tornar?

Além disso, existe uma essência competitiva na psicologia da “gamificação” – que nada mais é do que usar técnicas de engajamento de jogos em serviços ou produtos.  Não é por acaso que muitos desses aplicativos chegam a viciar. O Strava, por exemplo, app que nasceu para medir atividade física de ciclistas e que hoje também atende corredores e nadadores, acabou virando, ao longo dos anos, uma grande rede social. Nele, a única coisa que importa é o seu ranking: com relação a você mesmo, a seus pares, aos atletas do Brasil e do mundo. Não à toa, esportistas amadores começaram a levar a brincadeira a sério e a extrapolar seus limites para subir de posição. Parece mentira, mas alguns usuários morreram tentando conquistar o título de KOM (algo como “o rei da montanha”).

Quando o porquê estamos medindo se perde e passamos, simplesmente, a medir, deixamos de exercer a nossa autonomia sobre a tecnologia e corremos o risco de sermos escravizados por ela. Assim, passamos a agir sob comandos, praticamente da mesma maneira que as linhas de código agem sobre máquinas: “O seu Uber chegou”, “Hoje é o melhor dia para gastar no seu cartão”, “Está na hora de dormir”. Então… calma: quem controla quem, mesmo?

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