por Bruna Bittencourt

Jesuíta Barbosa deu seus primeiros passos como ator no coletivo As Travestidas e parte desse universo do transformismo para questionar as restrições de gênero: ”É a desconstrução disso que interessa”

Jesuíta Barbosa enfrenta estereótipos, dentro e fora das telas, com delicadeza e firmeza, cuidado e arroubo. Foi como o militar que vive um romance homossexual com o líder de uma trupe teatral em Tatuagem – um de seus primeiros personagens e talvez o mais complexo até aqui – que levou o prêmio de melhor ator no Festival do Rio, em 2013. 

Naquele início, ouviu elogios de Wagner Moura a Regina Duarte e não parou mais de atuar, selecionando com cuidado seus trabalhos. No cinema, viveu o garimpeiro gay de Serra Pelada (2013), de Heitor Dhalia; o caçula que vai atrás do irmão mais velho em Berlim de Praia do Futuro (2014), de Karim Aïnouz; e o rapaz que sequestra a garota por quem é apaixonado em Jonas (2016), de Lô Politi. Experimentou produções maiores, como Trash (2014), Reza a lenda (2016), e efeitos especiais em Malasartes e o duelo com a morte (2017).

Estreou na TV como o amigo do protagonista vivido por Cauã Reymond em Amores roubados (2014). Jesuíta estava em casa: é filho daquele sertão onde a trama se desenrolava. Seguiu com Rebu (2014), Ligações perigosas, Justiça e Nada será como antes (2016) – algumas das produções mais interessantes da TV dos últimos anos.

O pernambucano de 26 anos segue no ar com a supersérie Onde nascem os fortes, interpretando Ramirinho/Shakira do Sertão, um menino “cheio de questões sexuais e familiares, que tem um pai preconceituoso e agressivo”, resume. O personagem se traveste para cantar na noite, escondido do pai, um juiz com quem tem uma difícil relação. Por uma estranha coincidência, o enredo lembra a relação de Jesuíta com o próprio pai, um delegado de polícia.

Esse universo transformista da série é um velho conhecido do pernambucano. Jesuíta encontrou no teatro a liberdade que não tinha em casa e deu seus primeiros passos como ator em Fortaleza com o coletivo As Travestidas, “um lugar de possibilidades mil, de liberdade, libertinagem, descoberta sexual”. O ator viajou com o grupo, de Petrolina (PE) a Juazeiro (CE), encarando de frente o estereótipo do macho nordestino – ali também nasceu seu alter ego, Monique.

Jesuíta parte dali para discutir o masculino, o feminino e suas limitações, um tema que ele faz questão de colocar em pauta. Para este ensaio da Tpm, brincou com gêneros: “Me percebi nesse lugar delicado, andrógino, em que sempre estive e que por muitas vezes neguei, porque a família, a religião e a sociedade impõem”.

Entre o fim das gravações da série este mês e a estreia em setembro no cinema de O Grande Circo Místico, filme de Cacá Diegues, ele planeja ficar um pouco quieto. Mas, na entrevista a seguir, Jesuíta solta o verbo: não foge a nenhuma questão, fala abertamente sobre sua sexualidade, sem deixar de resguardar sua vida privada.

Tpm. Você cresceu bem livre no sertão de Pernambuco, não?
Jesuíta Barbosa. Cresci. Com todo aquele sistema social, mas, sim, minha infância foi ótima, aberta, em um lugar propício a isso. Parnamirim é uma cidade muito pequena. Cresci com muito primo, tenho uma família enorme lá. Acho que essa liberdade foi muito importante, de poder sair de casa e andar, sem precisar dar notícia e não ficar trancafiado.

A família do seu pai é de Fortaleza? Meu pai é do interior do Ceará, de General Sampaio, uma cidadezinha bem pequena. Painho prestou concurso, mudou pra Fortaleza com a gente pra estudar Direito. Uma hora ele decidiu ser delegado da Polícia Civil. Funcionário público, melhor dizendo. 

Seus pais se conheceram em Pernambuco? Foi. Painho foi pra lá trabalhar no Banco do Brasil e conheceu mainha. Ela era cabeleireira, cantora, fazia cover de Elba Ramalho.

LEIA TAMBÉM: De um jeito nada óbvio, Wagner Moura falou à Tpm de família, casamento, medo e assédio

Vem daí sua veia artística? Sem dúvida, muito da minha mãe. 

Você tem artistas na sua família? Meu vô era violonista, dedilhava um violão como ninguém. Era um cara que viajava, participou do programa do Chacrinha. Vivia no Rio de Janeiro querendo criar uma vida para ele, mas não era fácil, né? Cresci tendo ele como minha referência de artista. Tenho um tio que é cantor, o filho dele é também. Acho que Pernambuco, por ser minha infância primeira, um despudor, é bem mais emotivo pra mim, mais apaziguador.

Do que Fortaleza? Que é esse outro lado da moeda, a coisa paterna, um pouco mais rígida, uma cidade grande, violenta.

É engraçado porque tem muita gente que está numa cidade pequena e anseia pela cidade grande. Naquela época, não ansiava por essa cidade grande, não. Chorava porque não queria ir embora. A gente entrava no carro e eu ficava: “Ahhhhhhh, nããão, não quero ir pra Fortaleza”. Porque realmente era um lugar em que a gente se trancava em casa.

Você teve uma criação religiosa. A igreja foi seu primeiro palco? Sem dúvida. Minha mãe incentivava muito: “Vai fazer a primeira leitura, menino, sobe ali. Dona Menina tá te chamando, vai lá!”. Fiz um anjo quando tinha uns 7 anos. Errei todas as falas. Minha mãe era a pessoa que me montava, que me vestia de Chaves, criava personagens no São João. Mainha é uma artista.

Mas você gostou? Não, foi péssimo! Minha avó puxou minha orelha e disse: “Por que você foi fazer?”. Disse: “Mas, vovó, meu Deus”. O padre ficava dando as falas para mim. Não lembrei.

Como foi sua adolescência em Fortaleza? No colégio, entendi que podia ser mais criativo do que na minha casa. Acho que às vezes [a adolescência] se torna uma fase muito hostil, muito difícil, em que você fica em função de escola, de dizer quem você vai ser quando for mais velho. No colégio, achei uma beiradinha em que pude fugir, que era o teatro.

E você já se deu conta ali de que queria ser ator? Difícil dizer o que queria ser, mas aquilo era o que me fazia bem, para minha saúde. Quando entrava naquela aula de teatro e as pessoas trabalhavam o corpo, se alongavam, conseguia respirar melhor. O teatro me renovava. Era só o que queria fazer, tinha uma liberdade dentro daquele lugar que não tinha em casa. Mas ainda que o colégio deixasse essa aula acontecer, também segurava. Nunca fui bom em matemática e, quando tirava nota baixa, era: “Então você não vai mais fazer teatro”.

Seu pai era um delegado, mas sua mãe tinha essa veia artística. Você tinha esse acolhimento dela? Sim, ela dizia: “Você quer fazer teatro? Vá fazer teatro”. Minha mãe era muito chegada, e ainda é, a gente tem uma ligação incrível.

E aí você foi prestar vestibular em artes dramáticas? Foi. Prestei pedagogia, publicidade e licenciatura em teatro. Aos 17, você não sabe direito o que quer fazer e tem que dar conta do que as pessoas querem que você faça, do dinheiro que precisa ganhar. Passei em pedagogia e em licenciatura em teatro. Encarei e disse: “Pai, vou fazer teatro”.

Você já tinha encontrado As Travestidas? Já. Tinha feito curso preparatório em Fortaleza, várias oficinas, já estava mais ambientado. Era um universo possível, minha turma, com a qual me sentia bem em ficar perto. Foi ali no teatro que fui descobrindo minha passagem para a vida adulta e só me fez bem.

A premissa d’As Travestidas é se vestir como mulher? Como nasceu o grupo? Nasceu de Silvero Pereira, um pesquisador de teatro [que interpretou a travesti Elis Miranda na novela A força do querer]. Ele fez essa pesquisa em cima de um texto de Caio Fernando Abreu, Dama da noite [sobre o universo da prostituição]. Começou a abrir isso para outras atrizes e atores, e a gente foi se chegando. Criou-
se esse coletivo naturalmente. Um lugar de possibilidades mil, de liberdade, libertinagem, descoberta sexual, tudo isso era muito importante pra gente na época. Esse ambiente era facilitador.

Deve ter sido muito importante para abrir a cabeça. Era uma brincadeira de se montar, de criar esse universo trans, de transição mesmo, de entender o que era feminino, onde é que estava o masculino, o que era eu no meio disso, o que a gente era no meio disso.

E o que você aprendeu dessa época? O coletivo foi a base de uma transformação, de entender que poderiam haver rupturas, que as coisas não precisavam estar dentro de caixas. Foi um ambiente para entender que existiam quebras necessárias para continuar vivendo, porque senão ia ser mais difícil. Depois, a gente começa a entender outras funções enquanto artista, a partir da sexualidade e do transformismo. É um universo que não acontece só em função do feminino, acontece desde o teatro grego. Não é só se travestir e se perceber como mulher, é muito maior que isso. No fim das contas, acho que o feminino e o masculino, esse lugar do macho e da fêmea, são arquétipos que a gente criou e defende como os dois únicos caminhos. Não é isso, a gente começa a entender que é a desconstrução disso que interessa. É complicado dizer isso aqui, mas um trans homem e uma trans mulher são sempre uma imitação do que é o feminino ou o masculino, a gente tenta se igualar.

Reproduzimos esses arquétipos. É uma reprodução, há muitos estudos que começam a desconstruir esse lugar. Muitas vezes, amigos, pessoas próximas, dizem: “Pô, mas você fica colocando esse lugar de sexualidade, não diz que é gay, não diz que é hétero, como é isso?”. As pessoas têm necessidade de representatividade. O universo gay precisa que as pessoas se juntem em uma massa que defenda o gay, o universo trans, também. E, às vezes, eles ficam díspares, se confrontam. A gente precisa começar a pautar isso e ir além dessas estipulações. É desmistificar.

Você é cobrado? Um amigo falou: “Cara, entendo seu lugar porque você fala além de tudo isso, mas as pessoas precisam de representatividade”. Disse: “Poxa, não consigo me enquadrar em nenhum desses lugares”. Acho eles limitadores.

Mas quando você disse que podia ficar com homens e mulheres, as pessoas repercutiram muito. Achei engraçado. As pessoas têm pudor, tabu em relação ao sexo. Talvez seja necessário criar um pudor para que o sexo aconteça, para que exista tesão, mas acho bom a gente dizer que não é realmente assim. Fico com quem eu quiser e também não 
fico com quem não quiser.

LEIA TAMBÉM: Maeve Jinkings é a presença feminina mais marcante do melhor do cinema nacional – além de ser uma mulher que goza sem culpa

Seja homem, seja mulher. Não é sobre homem ou mulher, acho que é sobre corpo falante. Se tenho você na minha frente, e a gente se comunica, poxa, isso é um negócio que transcende, não sei para onde a gente pode ir, né?

Poucos atores discutem isso hoje, ainda mais quando estão na Rede Globo. Isso é uma conversa que você tem com seus colegas? Acho que essa discussão talvez seja uma das mais importantes hoje. A gente conseguiu que uma geração que vem agora, por exemplo, da minha irmã, que tem 19 anos, tenha uma mentalidade completamente diferente. Mais aberta, mais liberta. Acho isso tão bom, são jovens mais disponíveis para quem chega, para o diálogo.

Você acha que é algo geracional? Talvez, talvez sejam ciclos. Um inicia, cria a discussão, o outro resolve, e outro fica no desbunde e vive o momento. Te confesso que essa discussão era mais presente quando eu estava em Fortaleza.

A Shakira, de Onde nascem os fortes, foi criada para você? Você a levou para a história, para o roteirista George Moura ou para o diretor José Luiz Villamarim? Não tinha Shakira na história. Era um rapaz que era filho de um juiz, mas eles disseram: “É Jesuíta quem vai fazer, ele tem aquela história com As Travestidas...”. Estava muito a fim de trabalhar isso na televisão e no cinema. 

Você se preparou para o papel, subiu no salto. Mas acho que a minha preparação foi lá n’As Travestidas, foi na rua, foi ter saído de salto, foi ter experimentado a reação das pessoas. Como alguém se vestir de uma forma diferente, se colocar com uma atitude diferente, muda o ambiente social. Tem um desrespeito muito grande, preconceito, perigo, mas, ao mesmo tempo, é uma afronta, é uma necessidade nossa sair, ver como o rosto das pessoas se desconstrói. Ainda hoje elas não sabem lidar com isso.

Vocês iam para cidades como Petrolina e Juazeiro apresentar as peças? A gente ia para o interior. Juazeiro, por exemplo, é a terra de Padre Cícero, de beatas, de gente muito religiosa. Mas um lugar que recebia a gente muito bem – olha que contraste.

E qual era a reação das pessoas? Era boa e ruim. Você fica à mercê da sociedade, né? Mas é importante essa afronta, essa coragem das meninas de sair, de colocar a cara no sol e dizer: “Tô aqui, eu existo e resisto”. E ir pra uma esquina, porque é um lugar que as colocam. Ela é marginal porque fica à mercê. Uma travesti se prostitui porque não consegue ser caixa de supermercado, não consegue trabalhar numa loja. Acho que hoje em dia tem alguns lugares que estão começando a se abrir, mas ainda é muito complicado, a mentalidade é muito, muito pequena. Então, admiro elas, acho que são deusas. São pessoas que a partir da coragem – que é o que mais admiro no ser humano – conseguem transformar a sociedade.

Voltando a Fortaleza: como apareceu o teste para seu primeiro filme, Cine Holliúdy (2013)? Vinha fazendo teatro e todo tipo de teste para peça; criava grupos. A gente começou um trabalho autoral, mas, sempre que abria uma possibilidade, íamos lá fazer testes, que eram pouquíssimos. O diretor disse que só me chamou [para o filme] porque eu era muito magro [risos]: “Queria colocar você ao lado de um gordo para fazer O Gordo e o Magro”. E eu: “Obrigado pela parte”. Mas foi minha primeira experiência, foi boa, porque eu era daquele lugar, desse cearense falado. Acho um filme muito divertido.

O soldado de Tatuagem é até hoje um dos seus papéis mais fortes. Em algum momento essa história assustou você? Como foi a reação dos seu pais? [Não me assustei] nem um pouco. Esse filme foi muito especial na minha vida, muito delicado e muito respeitoso o tempo todo. Minha mãe disse: “Poxa, que lindo, meu filho”. O retorno do meu pai é sempre mais difícil, tenho que perguntar, mas tenho certeza de que ele gostou, ele adora cinema. Era a pessoa que me levava para ver filmes.

Quais são as suas primeiras lembranças de cinema? Rei leão [1994], Fantasia 2000 [1999], Zoando na TV [1999], da Angélica.

E como você foi parar na TV, em Amores roubados? Fiz um teste em Recife. Aí me chamaram para um outro dentro do estúdio. Depois, fiquei sabendo que ia fazer, mas acho que foi pelos filmes, né? Disse: “Vou fazer isso muito bem”. E foi bom! E no sertão, né? Já estava naquele universo, me faz bem… Eu estava em casa, recebendo aqueles atores que não sabiam lidar muito bem com aquele lugar.

Você conta que a equipe de Onde nascem os fortes passa mal com o clima, enquanto você está ambientado. É, e é bom receber! As pessoas ficam de galocha, vestindo coisas como se estivessem indo para um safári. E entendo, não julgo. Mas digo: “Não precisa, não, bota aí um chinelo”. E perceber como são esses corpos ali, se descontruindo.

Desde Amores roubados você não parou, emendou um filme atrás do outro. O que foi mais difícil até aqui? No começo, me joguei de um jeito que depois até recuei. Essa coisa juvenil, fazia tudo com muita garra, força, vontade e, quando terminava, ficava muito cansado, doente. Depois de Praia do Futuro, passei duas semanas acamado, por não saber dosar e botar limites. As pessoas se aproveitam da sua juventude. Depois, acho que a gente vai conseguindo ganhar uma maturidade, um controle emocional, vai ficando tudo mais dosado. Mas parei de trabalhar um tempo. Fiquei um ano meio parado. 

Quando foi isso? Foi tipo há dois anos. Fiquei muito caseiro, decidi ficar quieto mesmo, me perceber, morando só, numa cidade diferente, no Rio de Janeiro.

E como foi esse sabático? Foi bom de início, depois comecei a ficar apreensivo. Mas acho que foi uma experiência interessante para mim. Estava precisando dar uma baixada, uma respirada, tanta coisa aconteceu, foi tudo tão turbulento e bom também. Naturalmente, precisei dar uma pausa.

Acalmou? Tô mais calmo. Eu era assim antes, [com o olho] arregalado, dilatado. Eram lugares, pessoas, culturas novas, gente que falava de um jeito diferente do meu. Demorei para acostumar com isso. Acho que minha personalidade é assim, leva um tempo para eu saber lidar. Sou um pouco arisco, confesso, desconfio e tal, mas agora estou aprendendo que não preciso.

Você atuou em algumas das produções mais interessantes da TV dos últimos anos. Houve um momento em que você abriu mão de um contrato longo para escolher o trabalho que quer fazer? Você nunca fez novela, por exemplo. Pois é, mas não me chamam [risos]. Agora que apareceu alguém dizendo: “Vamos fazer?”. Disse: “Talvez, vamos conversar”. De jeito nenhum vou fazer um trabalho que não queira, que não seja importante para mim, que não acho que vai valer a pena, nem que seja como experiência de vida, um processo pelo qual talvez precise passar. Não acho que você tem que fazer o que não quer.

Mas às vezes você abre mão de um contrato maior, de ganhos. Isso é tranquilo para você? Sem dúvidas. Não acho que dinheiro pode estar à frente de sua necessidade artística. Se você escolhe ser artista, não pode colocar o dinheiro em primeiro lugar, porque aí você se anula. O norte não é o dinheiro, não, minha gente. Sempre tive essa consciência, desde que me percebi nesse ambiente. Você entende que não vai ter dinheiro, então acho que se esforça para fazer seu trabalho bem, para ter satisfação, pela beleza que acontece nele, pelo que é apresentado, pelo retorno, quando as pessoas chegam para falar com você, para dizer como aquilo mexeu [com elas]. Isso é muito importante, mas não quero parecer piegas, dinheiro é uma necessidade.

Estamos discutindo nesta edição uma nova masculinidade, que abandona o estereótipo de virilidade. Você vê isso entre os homens que te cercam, uma nova construção masculina? Eu queria ver mais. Não sei se é sobre abandonar a virilidade, acho que é sobre a gente começar a experimentar outros lugares. Posso ter uma virilidade e, ao mesmo tempo, experimentar um outro lugar, porque é uma experiência do corpo. A gente coloca nomes nas coisas: chama de bicha, de machudo, de boy magia, de sapatão. Na performatividade queer, você subverte isso. É dizer: “Sou sapatão. Sou bicha, sim. E aí?”. Isso vira um potencial. Acho que é mais subverter, não abandonar as coisas. Quero que as pessoas se modifiquem, esse é meu papel aqui, minha vida muito íntima se abrindo. Neste ensaio, por exemplo, me percebi nesse lugar delicado, andrógino, que sempre estive e que por muitas vezes neguei, porque a família, a religião e a sociedade impõem. Agora, digo: “Por que preciso fazer isso?”. Não! Olha como é bonito, como é grande me perceber assim. Me senti muito, muito livre e muito feliz, de poder falar isso aqui, de que isso me faz bem. Sei como isso é necessário para as pessoas lerem e entenderem que não é tão difícil assim, que é só uma atitude. A gente se anula, não é pra anular, é pra agir. Precisamos de coragem e atitude.

Você está se colocando, mas preserva sua vida pessoal. Em uma coletiva de imprensa, perguntaram se você estava namorando um ator e você preferiu não responder. Porque o que acontece na mídia é isso. Fica numa pequenez absurda. Não é sobre quem está comigo, é sobre mim, sobre um lugar muito profundo meu. Se você quiser me perguntar e quiser que eu fale alguma coisa, vou falar da minha parte mais íntima, e não de quem está comigo, de relações diretas que acontecem. É sobre outra coisa e é muito melhor falar sobre isso, né? Acho que aprendi a encontrar o melhor lugar de me colocar, devagarinho.

Que lugar é esse, Jesuíta? Acho que é isso de me preservar, de preservar quem está comigo, talvez. Ensinar também a mídia, a imprensa, que não é por aí, senão vira esse floreio, essa brincadeirinha de “você tá com fulano, com sicrano”. Não, fuxico, não, meu povo, pelo amor de Deus. Fico me perguntando: “Como dá pra ser essa pessoa interessante pra se colocar? Do que posso falar que vai valer a pena?”. A gente precisa escolher. Às vezes, você precisa dizer: “Isso aqui não dá”.

A relação de pai e filho que você vive com o personagem de Fábio Assunção em Onde nascem os fortes te ajudou a rever sua relação paterna? Nossa... Ontem, mandei uma mensagem para Fábio, uma foto minha: eu, muito pequenininho, à frente de um viveiro de pássaros. Meu pai, numa época da vida dele, pegava pássaros do sertão, colocava nesses viveiros, misturava coisas. Às vezes, tinha cobra; às vezes, tinha coruja, gavião. De repente, entrei num estúdio que tinha como cenário um viveiro enorme, que era do pai do meu personagem.

Que coincidência. Muita. Mandei essa foto para Fábio e disse: “Jesus, esse trabalho que a gente faz…”. Às vezes, ele nos envolve de uma maneira, tem uma psicologia intrínseca, um negócio surreal que acontece, é um trabalho cada vez mais difícil. Porque se mistura muito com a tua vida… Me espantou porque também é uma relação paterna violenta. Tem muita semelhança: um pai que diz o que o filho tem que fazer e acha que aquilo que está fazendo é bom para ele. Tem os valores de uma época e ele não conseguir entender que as coisas vão se modificando. Isso que está acontecendo com essa personagem aconteceu também na minha vida. Fico contente com esse trabalho, mostrar essa transição, de a personagem entender que ela pode sair desse ambiente difícil, impositivo e ganhar liberdade e, ainda mais importante, pela arte, porque ela é uma artista, uma performer, uma cantora. Tem muitas semelhanças. Cresci num ambiente muito machista. Segurava o caderno assim [imita], mas não podia, vinha alguém e dizia: “Segura com o braço lá embaixo”. Corria, e alguém dizia: “Você não pode correr assim!”. Hoje em dia acho engraçado.

E como você se libertou disso? Foi a arte que me libertou, sem dúvida. Arte é libertação, né? A sociedade precisa entender como uma necessidade, assim como quem governa. Arte não é só um entretenimento, que de vez em quando você vai ali e vê. É constante, é uma troca, uma vivência, uma conversa, uma desconstrução. Ela precisa ser presente.

E de onde vem essa atuação naturalista, contida, que não grita, não excede? Ela grita! Você acha que não grito?

Acho que não. Às vezes, acho que grito tanto…

De onde vem isso? Os filmes que assistia, de que gostava, eram esses, os naturalistas. Acho que atuar é isso, você reage, só posso reagir com o que tenho, não posso inventar. Então, pode ser a relação que for, com uma mãe, com um irmão, você reage com tudo que já vivenciou. Acho que essa é a beleza de atuar, é dividir isso, colocar para fora aquilo que você já vivenciou. Então, é uma terapia também, destravei muitos lugares meus trabalhando com isso.

Você tem referências como ator? Tenho muitas, tipo Juliette Binoche, que acho genial, e também como ela se coloca, sem muita formalidade. Tem atrizes que acho muito foda.

Mais atrizes que atores? Engraçado, acho que sim, sabia? Mais atrizes, sempre gostei mais de olhar pra mulheres…

Por quê? Não sei, acho que tem uma beleza na delicadeza. Adoro olhar pra homens também.

Você tem essa delicadeza como homem. Tenho esse lugar feminino aflorado. Sempre gostei de desenhar mulheres, tinha isso muito naturalmente. As mulheres cada vez mais têm acontecido. As pessoas estão querendo diretoras. Querem ser feministas agora porque sabem como é importante, ainda que elas não saibam como ser.

Mas hoje há poucas diretoras mulheres no cinema brasileiro. Pouquíssimas. Na verdade, há muitas, mas elas não têm acesso, né?

Você acha que tem uma resistência em entregar às mulheres o posto de direção, que é o mais alto de uma produção? Sem dúvida. São pouquíssimas diretoras, mas agora acho que está aparecendo esse lugar para elas, que têm um olhar tão mais delicado do que o protótipo de macho, de diretor. Há diretores fantásticos, sem dúvida, mas acho que tem que abrir para o feminino, na arte, na direção cinematográfica, na atuação, no governo também… Quando tem uma mulher à frente, parece que o lugar vai pra um outro lugar, fico animado.

O que você sente? Sinto que a condução é diferente, que o resultado daquilo vai para um lugar mais sensível, de que a gente está precisando hoje, de escuta, de diálogo. É difícil isso com o macho. Com ele, geralmente é confronto, uma briga, o meu, o seu, o que se divide, né? E a mulher tem uma abertura muito maior. Acho então que as governantes femininas e mulheres provocam essa modificação.

Nesta edição, temos a colaboração da Regina Navarro Lins, terapeuta há mais de 40 anos. Ela conta que o que mais recebe hoje em seu consultório são casais em que uma parte quer abrir a relação, mas a outra, não. Você vê isso se dando à sua volta? Acredita na monogamia? Acredito que as pessoas precisam ser fluidas porque a gente não escolhe de quem gosta, por quem sente atração. Acho que você tem que falar: “Poxa, aquilo aconteceu comigo”. Não se limitar também. Relacionamento é consenso. O mais importante de tudo é você se abrir com outra pessoa e ter liberdade de falar sobre o que quiser. Se não tem isso, não tem relacionamento, não é interessante. As relações que mais admiro são essas que têm uma abertura, uma liberdade, uma brincadeira, um jogo que muitas vezes vai num lugar que incomoda, mas depois disso se modifica. Acho que se você não tem liberdade de poder sentir algo por outra pessoa e talvez viver isso, pelo amor de Deus… Acredito nos relacionamentos que não são monogâmicos também. Com diálogo, acho que são os que duram mais, de forma mais gostosa, porque senão vira uma relação dura, não é bom, né?

Você acredita em casamento? Acredito. Acho que casar é uma comunhão. Você dividir com alguém responsabilidades ou o que chamam de lar.

Quer ser pai? Quero, mas não sei se vou ser, quem sabe... Por enquanto, acho que já tem muita gente no mundo.

Pensa em adotar? Penso bastante em ter uma pessoa, em adotar, ou em ter biologicamente, quem sabe.

Do que que a gente não falou e você gostaria de falar? Acho que essa parte vou contar para minha terapeuta [risos]. Acho que a gente falou sobre bastante coisa, gosto muito de falar sobre gênero e sexualidade. Acho que até atropelei um pouco no início. Aquela parte é a mais interessante, talvez tenha me adiantado, porque eu queria muito falar sobre aquilo. Acho que talvez seja o ponto inicial para depois a gente falar sobre relacionamento, casamento, outras ideias que vêm. Uma mudança é sempre a partir do corpo.

Créditos

Imagem principal: Marcio Simnch

Marcio Simnch

matérias relacionadas