por Marilia Miraglia

A jornalista Marilia Miraglia viajou para a zona de conflito entre Síria e Israel - e amou

O Oriente Médio sempre foi um tema que me atraiu – das páginas de jornal às telas de cinema, passando por livros e cursos, como o que fiz com Aziz Ab'Saber, um dos geógrafos mais importantes do país, cuja família é libanesa, como a minha.

Com férias atrasadas, a ideia martelava na minha cabeça. “Por que não?”, me perguntei várias vezes. Queria conferir ao vivo tudo o que eu já tinha aprendido. Foi assim que tracei meu roteiro: em 30 dias, iria do norte ao sul do Líbano, passando por campos de refugiados e pela fronteira com Israel, patrulhada pela ONU.

Por sugestão de Tariq Saleh, amigo brasileiro que é correspondente da BBC no Líbano, comprei minha passagem até Damasco, capital da vizinha Síria, e incluí a cidade na programação. O conselho valeu ouro: apenas cinco dias antes da partida, dois grupos rivais – Hizbollah e Amal – foram às ruas de Beirute e paralisaram a capital libanesa.

Mudança de rumo
Resolvi embarcar, então, tendo com destino apenas a capital síria. Depois de 21 horas de voo, segui do Aeroporto Internacional, encravado no meio do deserto, para chegar por volta de cinco da manhã a uma cidade que não impacta por sua imponência ou sofisticação. Ao contrário, as construções, meio amontoadas, assustam quando vistas por fora.

Nas ruas, não há nomes familiares. Nada de marcas de eletrônicos, fast-food ou grifes famosas. Elas não estampam cartazes, mas dão lugar a fotos do presidente Bashar al-Assad, que sustenta uma ditadura iniciada no governo de seu pai. Somente agora o país está encarando uma lenta abertura – o comércio de bebidas alcoólicas, por exemplo, existe há apenas alguns anos, e mesmo assim é preciso bater perna para encontrar cerveja ou vinho.

Passado o impacto inicial, ânimo refeito, saí em direção ao centro antigo, Old Damascus, um verdadeiro túnel do tempo que reúne referências romanas, muçulmanas e cristãs. Além do trânsito caótico, são marcantes também os chamados para a oração, emitidos cinco vezes por dia pelos minaretes das muitas mesquitas.

A cidade antiga, que ainda conserva parte de sua muralha, é uma vizinhança composta de casas milenares. E por trás de construções rústicas, sem atrativos, estão palacetes com amplos pátios de pé-direito alto e fontes no centro. É fácil ficar horas percorrendo as vielinhas, admirando a arquitetura interna dessas construções e conhecendo os souqs, ou mercados árabes, coloridos por joias, xales e roupas e perfumados por temperos, doces e frutas.

Ao contrário do que se pode pensar, o árabe é um povo hospitaleiro e gentil. Mas, apesar de receptivo e atencioso, muitas vezes quer levar vantagem. Por isso, sempre negocie preços – essa atitude praticamente faz parte da etiqueta. Antes de sair, vale se informar no hotel sobre quanto se deve pagar em refeições e presentinhos.

Ainda dentro da cidade antiga, está a colossal Umayyad Mosque, umas das mais importantes do mundo islâmico. No enorme pátio central da mesquita, todo revestido de mármore e cercado por colunas, você se sente minúscula. Ao redor dele, estão as salas de oração, onde a devoção dos visitantes reforça a atmosfera sagrada. Para as mulheres, só é permitida a entrada com trajes muito discretos. Por isso, em geral, estrangeiras alugam uma espécie de capa numa sala anexa.

Uma mulher “ocidental”, aliás, desperta olhares, com direito, às vezes, a indecifráveis frases em árabe. Na Síria, o uso do véu não é obrigatório, mas o recomendável é mesmo andar com calças compridas e blusas que cubram os ombros.

Conheci, em Damasco, turistas de todo o mundo, com quem fiz refeições no melhor estilo árabe: fartas, servidas em várias cumbucas, com enorme profusão de sabores e aromas. Entre as boas pedidas, o meu preferido é o Beit Jabri, restaurante instalado numa das construções mais antigas de Old Damascus. E, para sobremesa, opções na redondeza não faltam. Há docerias que exibem pilhas de guloseimas – bem doces e repletas de nozes e castanhas – ou sorveterias, com o imperdível sorvete de leite coberto por pistache.

Paris do Oriente
Visitar Palmyra – ruínas incrustadas no meio do deserto – e Allepo – uma cidade ao norte da Síria –, dois roteiros muito procurados no país, já estava programado quando recebi um recado do Tariq avisando que a travessia para o Líbano era possível. Não pensei duas vezes e fui até a rodoviária, um lugar um pouco precário, com a ajuda do amigo Edmond, e embarquei num táxi compartilhado.

Apenas quatro horas separam Líbano e Síria e, para esse destino, brasileiros não precisam de visto. O caminho até chegar a Beirute guarda sinais do bombardeio feito por Israel recentemente, mas também marcas de um país muito mais liberal, que contrasta com a tradição árabe-síria.

A capital tem razões para ser conhecida como “A Paris do Oriente”. À beira do Mediterrâneo, Beirute tem sua orla toda contornada pelo corniche, uma espécie de “calçadão” regional pontuado por palmeiras. Depois da guerra civil (1975-1990), a cidade foi quase toda refeita e ganhou construções modernas, como o B018, uma sofisticada balada, projetada pelo famoso arquiteto libanês Bernard Khoury. A vida noturna é agitadíssima, principalmente no bairro de Gemmayzeh. Mas, ainda assim, os costumes árabes surgem aqui e ali: é difícil ver um casal abraçado, por exemplo, ou alguém abrindo uma latinha de cerveja na rua.

Na região que já abrigou os fenícios, a geografia é bem generosa. Há lindas praias por todo o litoral do país, como Jounieh e Biblos, que têm clubes à beira-mar com estruturas de resorts. Além disso, logo ao lado estão as montanhas – que abrigam os cedros, as árvores símbolo da nação –, onde é possível esquiar durante o inverno.

Por meio de amigos do Tariq cumpri os planos e conheci dois campos de refugiados. Um deles, numa cidadezinha no vale do Bekaa, lembrava mais uma vila pequena e simples, onde todos os conhecidos se encontravam para tomar café ou chá à tarde. De lá, aproveitei para visitar Baalbek, um dos mais importantes sítios romanos no Oriente Médio, superbem conservado e com estrutura de tirar o fôlego.

Foi bem diferente em Chatila, um campo que fica em Beirute, lugar retratado na animação Valsa com Bashir (sobre o massacre que aconteceu lá). É uma espécie de bairro onde vivem os palestinos que chegaram ao país quando o Estado de Israel foi criado. Como eles não receberam cidadania libanesa, vivem em um enorme amontoado de casas, com trechos de esgoto a céu aberto, em péssimas condições e sem direito a emprego formal na maioria das profissões.

O lugar fica ao lado dos domínios do Hizbollah (apontado como grupo terrorista pelos EUA, mas que no país é um partido político), que perdeu as eleições parlamentares para o 14 de Março (grupo político pró-ocidente), liderado por Saad Hariri (filho do ex-premiê Rafik Hariri, assassinado num atentado).

Conhecer a fronteira com Israel foi uma das últimas coisas que fiz, e não teria conseguido sem ajuda do Tariq. Foi preciso pedir autorização num posto do exército, já que a área é patrulhada pela ONU. Além do antigo castelo medieval de Beaufort e do porto de Tiro, vi sobretudo cidades que ostentavam as bandeiras verde-amarelas e cartazes da organização xiita lembrando que a atmosfera política do país continua sensível.

Na volta, já era tempo de pegar meu voo para casa. Cheguei com a sensação de ter conhecido mil países diferentes, em realidades que, nem mesmo depois dos melhores livros, eu conseguia imaginar. E, ao chegar, no lugar de um bom almoço de domingo, fui recebida com a indignação da minha família toda por eu não ter contado, antes de viajar, que estava indo ao Líbano.

Dicas

Quem leva
British Airlines (voo com escala em Londres e Ankara)
Air France (voo com escala em Paris)

Onde ficar

Hotéis butique do centro antigo de Damasco. Mesmo que você não se hospede em um, vale a pena dar uma olhada. Geralmente são casas tradicionais do centro antigo de Damasco que foram reformadas e transformadas em hotéis. É uma chance de ver antigos palacetes que estão muito bem conservados. Aqui também vale a regra: você vai passar por ruas estreitas e procurar portas discretas, que guardam enormes cômodos, fontes e a linda arquitetura árabe.

www.hoteltalisman.net
www.almamlouka.com

Hostels do lado de fora da cidade antiga:
Al Haramain. R. Sharia Bahsa, bairro Souq saroujah. Tel.: 00963 11 2319489

Onde comer
Se você deixar o Brasil minimamente familiarizado com a comida árabe, não vai ter grandes surpresas nos ótimos restaurantes sírios. A única (e significativa) diferença é que os temperos são mais intensos. Siga a enorme variedade de aromas que circulam pelos mercados árabes (souqs) e prove outros condimentos.

Meu restaurante preferido foi o Beit Jabri (www.jabrihouse.com), instalado em uma das casas mais antigas de Old Damascus. Mas há outras boas opções como o Al Khawali (www.alkhawali.com) e o Haretna (www.haretna.net).

Vale lembrar que há apenas alguns anos o álcool é permitido na Síria (um país oficialmente muçulmano), então é difícil encontrar cerveja e vinho em bares e restaurantes. Sair na rua com um copo de cerveja na mão, nem pensar!

Aonde ir
Centro Antigo de Damasco - É muito fácil perder a noção do tempo visitando as vielinhas do centro antigo de Damasco – a cidade bíblica, murada em algumas partes, que tem referências romanas, cristãs e mulçumanas preservadas. Algumas ruas são pequenas, cobertas por videiras e cheias de comércio. Lá se encontram os souqs, ou mercados árabes, que deixam qualquer 25 de março no chinelo! Lá tem joias, temperos, tecidos, xales. além das pequenas cafeterias, docerias e sorveterias (com o tradicional sorvete de leite com pistache) que fazem tudo na hora. O bairro também abriga a Umayad Mosque, umas das mesquitas mais importantes do mundo islâmico. No lugar, originalmente, havia uma igreja, cuja estrutura, depois da invasão mulçumana, foi preservada. Não deixe de visitar também os Hamans, ou saunas, onde é possível fazer banhos, massagens e esfoliações. O Azem Palace, um antigo palácio antigo que abriga um museu, também é muito legal. 

Jesebel Qassion - É o ponto mais alto da cidade. Bom para ir à noite, de táxi (ida e volta devem ser negociadas) e curtir o visual.

Museu Nacional de Damasco - Apesar de ser um pouco desorganizado, tem peças raríssimas e um belo jardim. Vale visitar.

Não saia de casa sem
Comprar seu Lonely Guide. Algumas informações estão desatualizadas, como preços, mas em geral dá para confiar e quebra um galho.

matérias relacionadas