por Mara Gabrilli

Mara Gabrilli conta sua experiência como cobaia no Miami Project, maior centro de pesquisas sobre cura de paralisias do mundo

Passei o último mês de outubro em Miami tomando choques diários na cabeça. O convite para me licenciar durante um mês da Câmara dos Deputados e viver essa experiência eletrizante partiu do Dr. Green, um dos fundadores do Miami Project, maior centro de pesquisas sobre cura de paralisias do mundo. O Dr. Green é uma espécie de Bono Vox para mim dentro do universo das lesões medulares.

Em 1996, quando a minha lesão ainda era recente, fui fazer um tratamento no Complexo do Jackson Memorial Hospital, onde fica o Miami Project. Na época era uma salinha dentro de um porão e eu ainda não conhecia pessoalmente o Dr. Green, mas já o admirava demais. Um dia, caminhando com um amigo pelos corredores do hospital, dei de cara com ele e fiquei eufórica. Ele ficou muito curioso a meu respeito e pediu para que eu fosse ao seu consultório fazer uma ressonância. Fiquei tão feliz em saber que ele conheceria meu pescoço por dentro! Desde então a nossa amizade foi se construindo e não tem uma vez que eu vá a Miami sem passar por lá.

Há três anos mais ou menos, durante uma dessas visitas, fiz um exame para ver como estava a minha lesão medular, que desde o acidente sempre foi considerada completa (quando não existe a possibilidade de recuperação).  Desta vez, para minha surpresa, a médica virou para mim e disse: “Very, very incomplete”. No ano seguinte eu já voltava ao Miami Project pilotando a minha própria cadeira de rodas com o braço esquerdo.

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Eles ficaram muito impressionados com a minha recuperação de movimentos depois de tanto tempo. E foi assim que me chamaram para fazer parte desse tratamento experimental.

O objetivo do protocolo era estimular os movimentos do meu braço esquerdo. Para isso, eu tomava 180 choques no córtex motor através de estimulação magnética, ao mesmo tempo em que tomava choques por estímulo elétrico do pescoço para cima. Ou seja, os choques eram direcionados na parte de cima e de baixo da minha lesão e acionados simultaneamente, como uma forma do estímulo elétrico potencializar o magnético. Esse caminho era feito até chegar ao meu bíceps esquerdo, o grande objeto do estudo.

Dessa forma, acordava cedo todos os dias e ia para o Miami Project levar choque na cabeça. Ao sair da sessão, ia fazer exercícios para ver o quanto o estímulo magnético havia interferido na ativação das fibras nervosas que chegam ao meu músculo. No terceiro dia, eu já consegui pedalar uma bicicletinha de braços sem nenhum estímulo, apenas com a força muscular dos meus braços. Em duas semanas de protocolo eu já via músculos em mim. Eu até aprendi a fazer uma contração no tríceps, que nem era o objeto de estudo, mas por estar próximo acabou sendo monitorado também. E eu que nem sabia que tinha conexão até lá, fiquei impressionada com a inervação ter chegado tão mais para baixo da minha lesão. Eles disseram que meu resultado não era comum.

Depois de um mês magnetizada e eletroestimulada, nunca senti tanto a luta de quem precisa todos os dias lidar o com o dito irreversível. Desde que sofri o acidente, em 1994, passei a pesquisar profissionais que estudavam a cura para paralisias. Determinada em concentrar toda a minha energia naquelas pesquisas, fundei uma ONG para fomentar tais estudos. Desde então, a ciência nunca deixou de estar presente em minha vida de alguma forma.

Aqui no Brasil, a Rede Lucy Montoro, por exemplo, também possui um equipamento de estimulação magnética transcraniana. No ano passado, inclusive, eu participei de um protocolo similar realizado por eles, mas com sessões individuais de eletroestimulação e estimulação magnética transcraniana. Agora estamos estudando a possibilidade de aplicar a mesma metodologia estreada por mim no Miami Project aqui no Brasil.

Antes disso, em 2013, eu já havia conhecido a técnica da estimulação magnética transcraniana aplicada em situações distintas: em pessoas com autismo e em usuários de cocaína. O primeiro protocolo, realizado pelo Instituto de Psiquiatria do HC da Faculdade de Medicina da USP, tinha como objetivo avaliar as funções relacionadas à flexibilidade cognitiva e a sociabilidade em crianças com o transtorno de desenvolvimento. Os resultados se mostraram satisfatórios, melhorando, por exemplo, a interação das crianças com autismo com outras pessoas.

Já o segundo protocolo - também realizado pelo mesmo Instituto – foi feito em 25 pacientes dependentes de cocaína inalada. Eles foram divididos aleatoriamente entre pacientes que fizeram o tratamento ativo e o tratamento placebo. Os resultados foram impressionantes, com uma redução da fissura em 80% dos pacientes do grupo ativo e uma redução no consumo da droga em 60%. Com o meu apoio, por meio de uma emenda parlamentar destinada ao setor de estimulação magnética transcraniana, o Instituto pretende agora aplicar a mesma técnica com usuários de crack, que hoje fazem parte de um cenário desalentador de saúde pública em nosso país.

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Infelizmente, com tantas possibilidades de estudos e o talento de nossos pesquisadores, a ciência atual no Brasil vive um pesadelo, com cortes de recursos na área que interrompem as pesquisas e geram uma lacuna que pode nos colocar em atraso por décadas. Isso porque ciência, diferente de uma obra, não pode ser paralisada.

Nos EUA é muito comum os pesquisadores receberem prêmios em dinheiro para executar os seus estudos. Aqui nossos cientistas contam com recursos escassos para desenvolver projetos. E ainda assim, conseguem desenvolver trabalhos importantes – reconhecidos até mesmo fora do país.

Voltei de Miami disposta a colaborar muito mais para a ciência do Brasil. Sei que meu corpo tem muito mais a contribuir para a vida de outras pessoas com deficiência. Sei também que temos brasileiros com força e talento para colocar nosso país à frente no campo cientifico.

Sinto que o irreversível, a cada dia, se distancia mais da minha realidade de tetra – agora incompleta e sempre determinada a melhorar.

Créditos

Imagem principal: Heitor Loureiro

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