por Mara Gabrilli

Nessa queda de braços regida por um corpo semiparado e uma mente em constante movimento, a frustração vai perdendo lugar para necessidade de encarar desafios

Antes de quebrar o pescoço eu era destra. Fiquei tetraplégica. Perdi o movimento dos braços e virei nada. Hoje vivo a melhor das fases: sou uma tetra ambidestra. Prova de que a gente sempre pode melhorar, mesmo depois de perder tudo o que até então sempre esteve disponível, como o movimento de pernas e braços.

Há um pouco mais de um ano, dividi aqui a recuperação de parte do movimento do meu braço esquerdo. Feliz da vida na ocasião, contei que estava pilotando a minha própria cadeira após 21 anos sendo carregada. À época, firmei um compromisso comigo mesma de que o meu próximo passo seria recrutar movimentos mais refinados e ganhar destreza no braço direito - até então imóvel. Bom, o texto demorou a chegar, mas o braço direito vai bem, tão bem que virou até meu copiloto.

Depois que sofri a lesão medular, o meu braço direito sempre pareceu meio desconectado com o restante do corpo. Com o esquerdo, que antes era um zero à esquerda, havia uma mínima fibrilação, que apesar de não vista a olho nu, era suficiente para que eu acreditasse em seu potencial. Foi assim que depois de muitos exercícios e eletroestimulação resolvi apostar na cadeira motorizada.

Mas treinar o braço direito para pilotar foi um processo de desconstrução de tudo o que eu já havia conquistado em termos de autonomia com a cadeira motorizada. Afinal, com o braço esquerdo a coisa já fluía naturalmente. Eu já pilotava para todos os lugares dentro de casa e no trabalho sem que minhas assistentes pessoais precisassem tocar minha cadeira. Mudar esse trajeto e voltar à quase estaca zero foi um treino doloroso. Um exercício diário que me colocava frente a frente à frustração, à dor, à incapacidade, à destruição da mobília da minha casa e ao atropelamento dos pés das minhas cuidadoras...

Por fim, superar a inércia do meu braço só foi possível porque a barreira da mente foi derrubada.

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Em um exercício mental maluco, me torno a psicóloga de meus próprios braços e passo a avaliar o comportamento deles através de desafios impostos. “Se o esquerdo conseguiu, você também vai, direito. Lembre-se de que você já tem um modelo positivo a se espelhar”, digo em um tom obsessivo, porém indefectível.

Passo então a olhar para o meu braço esquerdo, tentando convencer o direito de que ele também é capaz. A verdade é que a memória da paralisia é muito maior que a paralisia em si. Não lembrar do movimento é muito pior do que não se mexer de fato. Não por acaso, resgatar a memória do movimento e apagar a memória da paralisia corporal é um treco muito louco e que tem me ajudado muito. Tem sido assim com os meus braços e com todos os membros. será assim com o restante.

Se o movimento na minha cabeça se configura de forma muito nítida, uma hora ele irá se reconfigurar em um plano físico e concreto. Minha mente passou a fazer a gestão de uma equipe onde cada membro tem avaliação de desempenho, com direito a premiação para quem trabalhar mais. Massagem, choquinho de relaxamento e banheira estão na lista de recompensa.

Nessa queda de braços regida por um corpo semiparado e uma mente em constante movimento, a frustração vai perdendo lugar para necessidade de encarar desafios. Afinal, eu não faço exercícios todos os dias, há 23 anos, para manter amplitude de movimentos. Eu faço para mexer de verdade.

Neste treinamento, que muitas vezes é tão discreto a ponto de não ser visto a olho nu, é possível se aprender algumas coisas:

1. O poder da repetição – que também precisa ser dosada com reflexão, porque às vezes é preciso pensar em mudar o que é feito sempre igual

2. Não existe algo que não possa ser aprimorado, sempre

3. A importância de enxergar parâmetros – o braço direito só pôde ser estimulado porque vi no braço esquerdo um modelo a se espelhar. E para quem um dia ficou sem respirar sozinha, todo e qualquer avanço converte-se em uma descarga de estímulo.

Quando sinto a dificuldade em algo que estou fazendo, como pedalar, por exemplo, vou lá e me coloco um desafio ainda maior. Dobro a carga. Saio ofegante, como se nunca tivesse sido paralisada. Dessa forma, cada vez que treino o braço direito, o esquerdo melhora ainda mais.

Enfim, ter um zero à esquerda é só uma questão de escolha.

Créditos

Imagem principal: Arquivo pessoal

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