por Caroline Mendes

Uma das físicas teóricas mais importantes do mundo lança seu segundo livro, ”Batendo à porta do céu”

 

Ela foi a primeira mulher a se tornar professora titular do departamento de física da Universidade de Harvard, foi eleita uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, em 2007, e fez uma ponta no sitcom The Big Bang Theory. Assim, transitando entre o geek e o pop e elaborando estudos instigantes sobre dimensões que vão além das que podemos ver e sentir que a física teórica Lisa Randall, 51 anos, conquistou seu lugar entre os cientistas mais importantes da atualidade. Seu campo de estudo vai desde a menor partícula conhecida pela humanidade, descoberta recentemente em experimentos no Grande Colisor de Hádrons (o maior acelerador de partículas do mundo), até as estruturas do universo e as forças que o regem. Mas, não, nada é impossível de compreender. Aliás, essa é a principal característica do trabalho de Lisa Randall e que está presente no seu segundo livro, Batendo à porta do céu: ser um cientista não é pré-requisito para se deliciar com o texto de Lisa. "Eu uso analogias incomuns, exemplos de artes, relações humanas, política etc para ilustrar alguns dos princípios que eu discuto. Acredito que todo mundo tem o direito de entender", defende.

Veja o papo que a Tpm bateu com ela:

Como a ciência entrou na sua vida?

Na verdade, a ciência está na vida de todo mundo, o tempo todo, mas nem todos notam essa presença. No meu caso, eu sempre gostei de resolver problemas, entender como as coisas funcionam. Quando eu era criança, gostava muito de matemática, sempre gostei – gostava de ler também. Mas eu nunca tinha pensado em me tornar cientista até entrar no ensino médio, quando reconheci esse caminho como uma possibilidade.

Você sofre preconceito por ser mulher – uma mulher brilhante, aliás – vivendo nesse ambiente predominantemente masculino que é a comunidade científica?
Obrigada pelo elogio. Esta é uma pergunta difícil. Eu seria boba se disesse que não existe preconceito, isso realmente acontece. Mas, na maioria das vezes, é discreto e, no geral, eu lido bem com isso. Já vi bastante preconceito e, hoje, consigo reconhecer os sinais e distinguir o comportamento sexista, que não é sempre óbvio. Muitas vezes é só falta de familiaridade da pessoa com a mulher em questão e seu trabalho. Às vezes tem a ver com quem está no comando. Na minha opinião, a grande diferença com relação ao reconhecimento profissional de mulheres e homens é que as mulheres têm que se provar o tempo todo, principalmente quando aparecem pela primeira vez. Isso vale para qualquer campo dominado pela maioria masculina, não só a ciência.

Quais são os caminhos para fazer da comunidade científica um ambiente também feminino?
Eu não gosto muito desse tipo de pergunta porque pressupõe que existe um "ambiente feminino". As pessoas falam sobre as mulheres se comportarem de maneira diferente mas se esquecem que as pessoas respondem de maneira diferente às mulheres. Por exemplo, uma mulher que fala alto pode parecer agressiva. Já uma mulher que fala baixo, é provável que seja ignorada. As mulheres são interrompidas mais frenquentemente quando falam e quando uma mulher interrompe, é mais notada. Então eu acho que um começo seria prestar atenção em sinais como esses e mudar isso para que homens e mulheres possam conviver e aproveitar igualmente o mesmo ambiente.

Como você faz um assunto tão específico, difícil e abstrato que é a física tão fácil de entender e até de curtir? Eu era uma péssima aluna de Física no ensino médio e estou apaixonada pelo seu livro...
Obrigada de novo. Eu me esforço muito para fazer pelo menos as ideias – e não necessariamente cada detalhe científico – o mais compreensível possível. Mesmo se você não souber todos os cálculos, as ideias que sustentam ciência ressoam meio que instintivamente. Eu deliberadamente uso analogias incomuns que eu acredito que ressoam melhor no público em geral. Eu uso exemplos de artes, relações humanas, política etc para ilustrar alguns dos princípios que eu discuto. Como domino muito bem o assunto, consigo ser mais fluida e brincalhona. E tento usar minhas experiências pessoais para humanizar a ciência e torná-la acessível. Acredito que todo mundo tem o direito de entender.

Hoje em dia, ser geek não significa mais ser esquisito, mas ser cool. Por que você acha que isso está acontecendo?
Provavelmente tem muito a ver com quem está no comento hoje em dia, quem tem dinheiro e poder. Os geeks viraram o jogo. Eles são, na maioria das vezes, inteligentes e envolventes. Eu não tenho certeza se é cool ser um cientista geek. Mas os geeks do mundo da tecnologia têm muita influência hoje em dia. E eles parecem estar se divertindo bastante!

Vai lá: Batendo à porta do céu, Cia. das Letras, R$ 61,50

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