por Janaína Pedroso

Sem patrocínio, a freesurfer Raquel Heckert chamou a atenção ao pegar ondas gigantes em Waimea ao lado de Maya Gabeira

A brasileira Raquel Heckert, de apenas 22 anos, chamou a atenção da comunidade do surf há duas semanas ao dropar uma morra d’agua em Waimea, no Havaí, ao lado da bigrider experiente Maya Gabeira. Seu talento nas ondas gigantes (como na foto no destaque dessa matéria) lhe rendeu a atenção de fotógrafos que estavam por lá.

Freesurfer [não corre campeonatos, mas é surfista profissional] sem patrocínio, Raquel conheceu Maya em sua terra natal, a praia de Itacoatiara, em Niterói, em 2015. “Sou fã dela. Um dia surfamos juntas, a água estava gelada e eu não tinha roupa de borracha”, conta. Depois de alguns dias, recebeu uma encomenda em casa: duas roupas de borracha. “Fiquei emocionada, nunca imaginei que ela faria isso”.

Atualmente, a surfista mora em uma igreja no Havaí, com um visto que acaba em poucos meses, para treinar. E se surpreendeu com a hospitalidade dos locais. “O casal que cuida da igreja me disse que havia sentido no coração que sou uma pessoa boa”. Em troca de moradia, Raquel gasta algumas horas por semana ajudando o casal a manter o lugar em ordem. Suas pranchas são usadas, presentes deixados por brasileiros que conheceu nas águas havaianas. “Faço amizade fácil, mas no começo da temporada surfava sozinha. Em Pipeline, várias vezes eu era a única mulher na água. Os caras deviam pensar: o que essa louca está fazendo aqui?”, diz.

Dedicação independente
Raquel cresceu na região de Itacoatiara e, aos 12 anos, começou a surfar no canal de Itaipu. A medida que crescia, começou a ver Bruno Santos, tubrider, e Dudu Pedra, bodyboarder, desafiarem a lógica da gravidade surfando ondas pesadas e tubulares. Raquel achava aquilo o máximo e sonhava um dia estar entre eles. “Comecei a quebrar meus limites. Via o Bruninho pegando altos tubos e o Dudu pegando altas também. Toda vez que os via era uma entrevista, perguntava tudo pra eles”, conta, empolgada.

Mas demorou um tempo até que ela pudesse convencer seus pais a deixarem ir surfar sozinha. “Só podia pegar onda duas vezes por semana, nos dias da escolinha de surf. Talvez se meu pai surfasse eu teria começado a cair em Itacoatiara mais cedo”, diz.

Sempre muito dedicada, Raquel logo começou a competir e imaginou que poderia seguir carreira como atleta profissional. Mas, seus planos foram interrompidos junto com os circuitos femininos de surf profissional, em 2011. “Não foi fácil ver os campeonatos acabarem. A vida de freesurf no Brasil é ainda mais complicada”. Sem patrocínio, ela podia contar somente com a ajuda da família. “Meu avô e meu tio me deram as passagens para ir ao México, Peru, Indonésia, Fernando de Noronha e, agora, Havaí. Meu objetivo é sempre ir atrás de bons picos de tubo”, diz.

O arquipélago havaiano sempre foi o sonho. Raquel lembra de forma bem humorada como se preparou para a viagem: “treinava apneia sem qualquer estudo, às vezes estava andando na rua e prendia a respiração e via até onde aguentava. Mas, parei com isso”, lembra às gargalhadas. Raquel também fazia musculação para fortalecer e evitar uma possível lesão. E era só.

Com o sorriso no rosto, ela conta sobre as conquistas e viagens que fez, mas lembra também a dificuldade de não ter um patrocínio. “Poderia estar comendo melhor aqui no Havaí, ou até ter equipamentos apropriados e fazer um treino específico”, diz. Com apoio, certamente ela poderia evoluir muito mais rápido.

Quando perguntada sobre o futuro, em vez da resposta óbvia sobre poder viver do surf, ter patrocínios, ser uma freesurfer respeitada, ter de volta seus campeonatos, Raquel diz querer ajudar as pessoas, inspirar, ser um exemplo de superação e conquista. Ao final da entrevista, por Skype, ela olha no relógio e diz que precisa ir. “Tem altas hoje! Vou cair com uma 6’8 em Pipeline”.

Veja a entrevista com Maya Gabeira no Trip TV.

Créditos

Foto do destaque por Maria Fernanda.

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