Pilar, além de Saramago

por Luiza Sahd

Tpm foi às Ilhas Canarias encontrar a jornalista que mantém vivo o legado do Nobel de Literatura José Saramago. A seguir, ela fala de amor, literatura, ativismo, Hillary Clinton e Dilma

A casa onde José Saramago viveu por 18 anos – e onde ele morreu tranquilamente, cercado por pessoas queridas em 2010 – está aberta ao público. Tudo permanece como estava enquanto vivia ali o único escritor de língua portuguesa a receber um Prêmio Nobel de Literatura. Torná-la um museu com biblioteca anexa foi a forma que ele e a esposa, a espanhola Pilar del Río, encontraram para dividir com os leitores a vida do artista. Ainda assim, o local funciona como casa fora do horário de visitas. Fui até a ilha de Lanzarote visitá-la e quando cheguei, apesar de serem 10 horas da manhã no horário oficial nas Ilhas Canárias (Espanha), todos os relógios do lugar marcavam 4 da tarde.

Foi neste mesmo horário, em 14 de junho de 1986, que Saramago conheceu Pilar, sua segunda esposa e, com palavras dele, “a mulher que o fez sentir a quarta dimensão do amor.” O primeiro encontro entre os dois aconteceu em Lisboa. Depois de ler O Ano da Morte de Ricardo Reis, a então apresentadora da TVE Sevilha terminou a leitura decidida a agradecer o autor pela experiência. Durante uma viagem a Portugal, Pilar telefonou para Saramago, que topou encontrá-la, supondo que a jornalista estava querendo cavar uma reportagem. O pragmático escritor contava que sentiu o chão tremer com a visão de Pilar (e descreve um encontro assim no livro que escrevia à época, Jangada de Pedra). O romance entre eles vingou após dois meses de conversas, quando Saramago propôs visitá-la em Sevilha. Em 1988, casaram-se; em 2010, a morte do autor os separou.

Pilar del Río segue dedicada ao legado do marido. Ela é presidenta da Fundação Saramago, em Lisboa, e cuida de tudo o que envolve suas obras, além da apresentação da Declaração Universal dos Deveres Humanos. A espanhola nascida em Sevilha em 1950, primogênita de 15 irmãos, conquistou corações mundo afora com o documentário José e Pilar (2010). O filme retrata os 4 últimos anos de vida do escritor, a maratona de viagens e trabalhos que Saramago fez cumprir até o fim e, sobretudo, a história de amor impressionante do casal.

Viagem a Lanzarote
Cheguei à Casa em um sábado e fui recebida por Juan José, o Juanjo, filho de Pilar com seu primeiro marido. Juanjo mostrava detalhes do escritório onde o autor escreveu o Ensaio sobre a Cegueira quando uma porta que nem parecia existir, no meio da estante, se abriu. Era uma passagem quase secreta para o andar de cima, reservado à família. Dela, saiu uma mulher de 66 anos bem diferente do que esperávamos: muito mais bonita, moderna e menos viúva do que se poderia supor.

Pilar me cumprimenta rapidamente e pede que eu continue escutando o audioguía. “Presta atenção aí, depois nos falamos”. Ao fim do meu tour, ela volta explicando que está com a jornalista Anabela Mota Ribeiro, uma amiga de Portugal em seu último dia de visita à ilha, e me convida para acompanhá-las até o Parque Nacional de Timanfaya. Fazia 5 anos que Pilar não passava pelos vulcões que foram parte da locação do documentário. Essa era uma das paisagens favoritas do escritor. Sem entender muito bem a que horas nossa entrevista começaria, aceitei o convite. O passeio se estendeu: visitamos um restaurante típico do pueblo de Uga, a antiga capital da cidade e a praia de Famara. “Tudo muito cultural, mas se tiver alguma lojinha com promoções, entramos também!”, decretou Pilar. Dito e feito: saímos de lá, eu e Anabela, com um creme de aloe, cortesia da anfitriã. Passava das 6 da tarde quando Pilar começou a lavar louça e liguei o gravador.

Tpm: Como é sua rotina? Diz a lenda que você trabalha 18 horas por dia. Pilar: ¡Ay, no! Jamais. Gosto de ver amanhecer e amanheço antes do dia. Se precisar varar a noite, tudo bem. Mas os meus dias são ordinários e infinitamente mais suaves do que os da maioria dos trabalhadores, que têm muitíssimas responsabilidades. Partilho dessa responsabilidade porque levo adiante o legado de Saramago, mas não sou o Saramago, então é mais fácil.

E encontra tempo para tuitar... Sim, mas o @delRioPilar é meu único perfil. Não encosto nos perfis da Fundação ou no da Casa porque sou um ser politicamente incorreto e nenhuma instituição precisa se responsabilizar por isso (risos).

No documentário José e Pilar (2010), há um monte de tomadas do Saramago cochilando em coletivas e eventos literários. Em uma delas, Gabriel García Marquez e ele estão em sono profundo. Depois, Saramago confessa que é um saco tirar fotos a cada saída. Você acha um saco ter que lidar com esse lado celebridade? O que é um saco no seu trabalho e qual é a melhor parte dele? A melhor parte é encontrar textos de José para enviar a projetos, e também trabalhar sobre as suas ideias. É uma trabalheira, uma honra, um prazer, uma responsabilidade muito maior que minha vida. Anos-luz mais importante do que minha própria vida. O pior é abrir correspondência, porque há uma pessoa por trás de cada carta ou e-mail esperando uma resposta, e não tenho capacidade emocional para responder tudo.

Não tem? Dá desespero. As pessoas se empenham, mandam originais, palavras de admiração, e mereceriam uma atenção especial, mas é impossível dar conta. Isso me deixa emocionalmente esgotada.

Já chegou alguma coisa muito absurda pelo correio? Do correio físico me protegem mais, na triagem. Mas lembro de uma muito maravilhosa, que era um retrato de José esculpido em pedra, com uma técnica magnífica, que chegou lá como presente de natal e só foi aberto quatro meses depois. Eu tropeçava no pacote e não abria, achando que era material da Fundação. Um dia, falei “mas não é possível, o que tem aqui?”. Por sorte, consegui localizar e agradecer o artista.

Como foi conviver com uma equipe de filmagem durante quatro anos dentro de casa, nas viagens, no hospital e no trabalho, para a produção do documentário? O diretor nos escreveu durante anos, tantas vezes e com tanta educação que topamos recebê-lo por 15 dias para uma grande reportagem. Chegou aqui, conheceu Lanzarote e ficou tão fascinado, com tantas ideias, que até José se deu conta de que tinha material ali para algo maior. Era uma produção discreta, com cinco pessoas na equipe. Só pedi que não deixassem cabos no meio do caminho e respeitassem nosso cotidiano e nossa intimidade. A gente nunca ensaiou nada para a câmera. Aliás, se eu soubesse que iria aparecer nesse documentário, teria me maquiado ao menos um dia, porque estou péssima em todas as tomadas!

Você foi criticada pela exposição da intimidade de vocês, em especial quando José ficou muito debilitado e quase morreu? Não sei como foi a crítica e nem me importa. Cada um tem direito à sua opinião e não tenho nada com isso. Para o espectador, fica o privilégio de entrar no cotidiano de José Saramago. Lamentavelmente, não tivemos essa oportunidade com um Proust ou um Tolstói. Esse ato de generosidade do José é incalculável. Ele não chegou a ver o filme editado, mas estava comigo aqui, assistindo uma versão ainda sem música e disse: “que bonito ato de amor.”

Como foi a reação das famílias quando vocês decidiram casar? Um cara 28 anos mais velho, e você já tinha o Juanjo e, ele, a Violante (filha do primeiro casamento de Saramago). Todos se entenderam de imediato? Primeiro: nós éramos livres e não pedimos autorização a ninguém. Se as pessoas gostariam ou não, tanto fazia. Aparentemente, todo mundo estava bem. Éramos livres para casar como éramos pra tudo o que fizemos juntos. Sabe por quê? Nossa liberdade foi conquistada. Ninguém nos outorgou. Oferecemos continentes um para o outro. Eu conheci o português, ele conheceu a cultura espanhola... Ele se tornou mais acessível e eu, mais prudente. Os portugueses são prudentes e eu sou imprudente por natureza. Tratei de me introverter um pouco.

Pensaram em ter filhos juntos? Sim. Por sorte, desistimos.

E não tiveram...Vamos lá: eu não quis.

Aliás, ser mãe aos 26 anos em 1976 era mais comum. Nesse sentido, mudamos bastante. Teria feito diferente se tivesse 26 anos hoje? Como a maternidade operou na sua vida? Ter filhos, naquela época e idade, foi uma consequência natural da vida. Antes, não era uma coisa tão planejada como é hoje. Se tivesse a visão de mundo que tenho agora, não teria sido mãe, porque o mundo vai de mal a pior. Mas a maternidade não afetou meu trabalho, até porque, como mulher tentando entrar num mercado tão masculinizado, não pude nunca me dar o luxo de ficar doente ou dizer “olha, não venho hoje porque tenho que levar meu filho ao médico”. Não tinha isso. E fiquei firme não só pela minha vida profissional, mas por todas as mulheres que estavam tentando conquistar esses postos de trabalho.

E a coisa não mudou tanto assim, ainda. Sim, ainda tem gente que não contrata mulheres porque elas podem ter filhos. Nos anos 70, o desafio era conquistar esses cargos. Agora, é conquistar o direito à família. Qualquer país que se orgulhe de dizer que tem 100 milhões de habitantes, ou, sei lá, 10 bilhões, precisa das mulheres para ter filhos. Nós temos esse "contrato" com o Estado. Qualquer família, com um pai e uma mãe, com dois pais e duas mães, qualquer uma, deveria contar com um tempo remunerado para cuidar das pessoas, com instuições próximas ao trabalho para deixar as crianças. Mas não só com creches perto do trabalhos das mães: isso deveria ser uma responsabilidade dividida de forma igualitária.

Você já contou que sua mãe tinha a “profissão” de parir e cuidar da casa, enquanto seu pai trabalhava como agente de seguros, sem se envolver muito com a vida doméstica. Sendo a mais velha de 15 irmãos, teve uma infância de verdade? Seu referencial de feminilidade era esse? Casar, ter um monte de filhos...? Não, que horror, que horror! Minha mãe teve 15 filhos e quase nenhum neto, porque vimos isso tudo como era. Não tive infância e isso não foi um trauma. Ajudávamos cuidando do lar, dos mais novos, somos maravilhosas na cozinha, sabemos fazer um jantar delicioso – mesmo quando não há rigorosamente nada na despensa... Aprendi a organizar o tempo, a vida. Não tinha nada de mágico ou literário como se acredita que deve ser uma infância. Fizemos o que fazem hoje 80% das mulheres e alguns homens. Nada de extraordinário. Os homens daquele tempo não faziam nada em casa. Eles trabalhavam fora e diziam que as mulheres não trabalhavam. Perdão, mas as mulheres não paravam um minuto! O que elas não recebiam era um salário.

Como foi a trilha até virar uma das primeiras jornalistas da sua comunidade durante a ditadura franquista (1939-1976)? Queria ser jornalista de rádio desde pequena. Comecei a escrever minhas coisas, arrumei alguns trabalhos e fui tocando a vida. Na ditadura, contávamos o que podíamos, que era pouco. A gente dizia uma coisa para insinuar outra. No rádio, falava correndo o que queria nos primeiros 15 segundos do programa porque, depois, a transmissão podia ser cortada. Fui mandada embora no dia em que Franco morreu, porque alguém disse ao editor que brindei com champanhe. Na verdade, não brindei porque estava grávida e o álcool me dava enjôo. No dia seguinte, ele telefonou se desculpando e me readmitiu.

Você já cravou que “se o mundo for justo, ainda vou conhecer Hillary Clinton.” Conheceu? Continua alinhada com as ideias dela? Ainda não, e pode ser que encontre com ela e com Angela Merkel na ONU. Não concordo com Hillary em tudo, mas sigo pensando que os EUA precisam ser liderados por uma mulher. Não é perfeita e, ideologicamente, sou mais simpática ao Sanders. Em quem eu votaria? Nela. Apesar de levar o sobrenome daquele marido. Não é uma mulher odiosa, então eu votaria nela porque acho que precisamos de mais visibilidade e cargos de liderança. E o Clinton... que se dane.

Como vê a atuação de Dilma Rousseff e a eclosão da crise política brasileira? Na posição dela, teria renunciado? Renunciar nunca. Não, não. É a presidenta eleita democraticamente, e, pelo que sei até agora, não há nenhuma condenação contra ela. Fui ao Brasil pela primeira vez há 25 anos e havia corrupção por toda parte. Agora, o que se diz é que a corrupção no país foi inventada pelo PT. Se cometeram atos ilícitos mesmo, vou achar uma pena. Mas acho uma pena também que Dilma tenha governado tão desamparada por Lula e pela própria chapa. Agora, essa oposição corrupta diz que o PT não pode roubar o Brasil... Logo eles? Tem algum santo ali? Me parece que não. Se o povo fosse às ruas para derrubar os corruptos de todos os partidos, a história seria outra.

Como seria? Se a Dilma cai agora, que boa opção vocês têm? Minha opinião é que deveria cair todo mundo, claro. O país precisa de uma liderança jovem, dinâmica, honesta, indignada. Precisaria de um Podemos [partido político espanhol de esquerda, fundado em 2014]. Mas para que vocês estão me metendo nessa guerra? Vou acabar tão achincalhada no Brasil quanto o Chico Buarque, que mal pode sair na rua em paz.

Falando nisso, o Brasil é conservador, de modo geral, e especialmente quando tratamos legislações sobre a mulher. Qual política pública, na sua opinião, é mais urgente para as brasileiras? Esse conservadorismo é um problema cultural, e problemas culturais se resolvem com cultura, educação, e leis que proponham a igualdade. Só assim a gente sai da posição de objetos ou escravas. Somos seres importantes, merecemos os mesmos direitos que os homens... somos metade do céu! As próprias mulheres têm que se dar conta disso. Que sejam o que quiserem, por si mesmas, não em relação ao olhar masculino. Respeitar o nosso corpo, nossa natureza, e nunca nos colocarmos como tapete para alguém pisar. O que vou dizer agora pode desagradar muita gente, mas todo mundo espera que sejamos dóceis, sorridentes, simpáticas, empáticas e tal, enquanto um homem pode ser autoritário, antipático, cruel. Então, de vez em quando é bom que surjam mulheres autoritárias. 


 

Nesse momento, Pilar interrompe nosso papo porque precisa estar na biblioteca para a abertura de um sarau na Casa. Ali, fui convidada por uma senhora a ler uma poesia em espanhol. Meu papel era o de número 64 e, duas horas depois, quando saí da leitura, Pilar estava servindo azeitonas os convidados, guardando cadeiras, conversando com todo mundo e procurando um dos gatos da casa, o Peixe. Tudo ao mesmo tempo. Ela sugere que continuemos no dia seguinte e trata de arrumar uma carona para mim, já que não há muitas opções de locomoção na ilha à noite. No domingo, passa com uma amiga pela praia onde estou hospedada para me levar de volta à Casa. Continuamos:


 

Saramago disse que tinha ideias para livros enquanto você tinha ideias para a vida. Qual foi a coisa mais importante que ele te ensinou? E você a ele? Compartilhávamos tudo: a vida, nosso dia a dia, nossos idiomas, e, o mais importante, uma forma de ver o mundo da perspectiva dos pobres. Sou muito grata por isso. Ele conhecia o Brasil, mas muito pouco da América Latina. Acredito que eu o tenha ensinado a olhar para todo esse continente e fazer parte dele, porque ali era um pouco a minha casa também. É o lugar do mundo onde sou mais feliz.

Pode parecer meio paradoxal que uma mulher tão forte e com uma carreira promissora na televisão tenha deixado o trabalho para cuidar da obra do marido. Em que momento e por que tomou essa decisão? Porque tem gente que passa a vida inteira estudando um único livro de um único autor, imagina? Eu tive a oportunidade de viver com o autor! Conseguir entrevistar fulano ou ciclano é extraordinário, mas viver com essa pessoa é duplamente extraordinário. Não sacrifiquei minha carreira. Fiz minha opção. Ele foi uma figura fundamental do século 20.

Acha, honestamente, que a voz de Saramago teria ganhado tanta amplitude sem o seu trabalho nos bastidores? Sinceramente, não tenho nada com isso. A obra dele é tão necessária que, mais cedo ou mais tarde, o reconhecimento chegaria. Só lamento é que não haja ainda mais repercussão [dos livros] dele em determinados países, porque é uma obra que empodera os seres humanos. Uma pessoa que encontra Blimunda [personagem de O Memorial do Convento] nunca mais vai ser a mesma. Alguém que deixe de ver a morte como uma desgraça depois de ler As Intermitências da Morte ou que reflita sobre a nossa insensibilidade lendo Ensaio sobre a Cegueira... essa pessoa se torna mais lúcida.

Ele escrevia e você traduzia para o espanhol ainda durante a elaboração de cada livro. Você opinava sobre os rumos dos romances? Inspirou personagens, discutiu desfechos? Os escritores nunca pedem opinião, e seria idiotice ficar dando palpites. Aliás, o Jorge Amado, enquanto escrevia Dona Flor e Seus Dois Maridos, caiu na cilada de comentar os rumos do livro com amigos e todo mundo ficava opinando “isso não!”, “com quem ela fica?”, “e agora?”. No fim, contou que o livro não ficou como ele queria porque foi atrás das opiniões. O que eu tenho, sim, são duas intervenções pequenas na obra de Saramago. Em Todos os Nomes, quando acaba a luz, a secretária eletrônica continua funcionando. E eu falava “José, se não tem luz, não tem secretária eletrônica!”. Ele teimava comigo que o telefone funciona quando a luz acaba, mas insisti mil vezes que telefone funciona sem energia elétrica; secretária não. Ele teve que mudar isso em nome da lógica e depois de fazer a prova ao desligar a luz. A outra foi na última frase de A Caverna. Era  “Já pode comprar seu bilhete”, e eu traduzi “Já pode comprar sua entrada”. Ele disse “sabe de uma coisa? Gosto mais dessa palavra.” E colocou “entrada” no original.

Essa ilha é de uma beleza alucinante. Qual era o melhor momento na rotina de vocês aqui em Lanzarote? Era uma vida normal. Tenho até pena quando chega um jornalista em busca de grandes histórias e grandes acontecimentos porque isso aqui era uma casa comum, em que a gente vivia e trabalhava. Tomávamos o café da manhã nesta mesa em que estamos sentadas, lá pelas seis da tarde Saramago nadava na piscina, passávamos um tempo conversando no jardim. A única coisa que rompia esse cotidiano eram as visitas. Mas a gente incorporava as pessoas nos nossos compromissos, para que todo mundo se sentisse livre e José pudesse seguir sua rotina. A liberdade é a única norma desta casa.

E vocês recebiam muitas... Quando chegava aqui Sebastião Salgado espalhando seu material nesta mesa, ou Bernardo Bertolucci, Pedro Almodóvar, Carlos Fuentes, Eduardo Galeano, Mario Vargas Llosa, Susan Sontag... Vinham, passeavam pela ilha, algumas vezes a gente podia acompanhar, outras vezes não. Sentávamos aqui, comíamos, e seguíamos trabalhando. Nosso maior privilégio, nosso grande luxo era que eles estivessem aqui. Seria maravilhoso se essas paredes pudessem contar histórias.

Mudou muito desde que Saramago partiu? Você deve ter precisado ajustar o mindset para sair da casa em que viveram por 18 anos e estabelecer um novo ritmo em Lisboa… Ficou um buraco na sua rotina? Nada. De novo, lamento desmistificar tudo isso. Fizemos o luto juntos. José sabia que estava morrendo e fomos nos acostumando à ideia de viver separados, falamos sobre o destino das cinzas [que estão sob uma oliveira em frente à Fundação Saramago, em Lisboa]. Ponto final. Ele ia morrer e eu viveria o tempo que fosse, sem desabar. E, olha, estou em pé, cumprindo meu compromisso com o legado dele.  

Você acaba de dizer “viver separados”. Acha que, em algum lugar, ele vive? [No documentário, a primeira frase de Saramago é “Pilar, nos vemos em outro sítio”, apesar de o escritor ter sido ateu até o fim da vida] Não. Talvez na minha memória. Ele se acabou. Passou ao mesmo lugar que estava antes de nascer: ao nada, ao silêncio. Mas as recordações me habitam, é lógico [quando Saramago morreu, a Fundação fez uma celebração por mês durante nove meses, como se a morte fosse o exato revés de uma gestação].  

Ele pediu que você “o continuasse” depois da morte, e é isso o que você faz, presidindo a Fundação, cuidando das adaptações e traduções da obra dele. E a Pilar, como continua, com esse marido onipresente e os relógios da casa parados às 16h? Olha, não sou uma viúva desolada de jeito nenhum. Não sou nem viúva e muito menos desolada. Não choro pelos cantos, tenho meus amigos e, quando me visto de preto, é porque gosto de roupa preta. Não estou de luto nem de corpo e nem de alma. Se você quer perguntar sobre namorados... escuta, é que eu tenho 66 anos e a cronologia é o que é. Evidentemente, não tô no mercado do amor.

Mas poderia. Durante esses seis anos sem ele, já pensou em namorar? As pessoas te dão palpites nesse sentido? Nunca ninguém me deu esse palpite.

Provavelmente porque ninguém é louco de se arriscar a opinar sobre a sua vida.[Rindo] Não, eu teria achado bom receber um palpite assim, mas jamais recebi, acredita?

Acho que já sei a resposta para essa pergunta depois de dois dias de entrevista mas lá vai: será que a opinião pública te crucificaria caso voltasse a se apaixonar?Ficaria escrava da opinião pública e me manteria em castidade [risos]. Vamos lá: aparece um senhor, eu gosto dele, ele gosta de mim… Ué, nenhum problema! Eu anunciaria feliz. E seguiria tentando fazer da maneira mais digna o meu trabalho.

[Nesse momento, me emociono. A essa altura, já torcia para que Pilar, secretamente, tivesse um namorado. Ela pergunta por que estou chorando]. Ops, desculpe pela descompostura! Não precisa se desculpar! Me encanta! Mas por que você está chorando?

É que a vida é pode ser muito brutal de vez em quando, não? Assim como você, tenho pavor de aviões. Antes de cada viagem sozinha, digo ao meu marido que, se aquela geringonça cair, arrume logo um amor e siga a vida. [Pilar arranca um pedaço de papel toalha, me estende e faz uma cara marota]. Não se preocupe. Mesmo que a gente não peça, é isso mesmo que eles fazem! Se fosse eu que tivesse morrido, quantos meses você acha que José ia esperar? [voltamos a gargalhar].

Vocês chegaram a conversar sobre essas coisas? Ele pediu que você voltasse a se casar? Vamos ver. Nenhum homem é tão generoso. Não… Ele me disse que seguisse a vida, e entendo que é seguir a vida com tudo o que isso implica. Não ficar paralisada me lamentando. A maioria dos homens não entra em detalhes amorosos assim, com todas as letras.

Verdade! Meu marido pega avião e nunca me diz pra arrumar outro em caso de desastre! Então. Lembro de quando propus que viéssemos morar em Lanzarote e ouvi a típica resposta masculina: “que loucura, Pilar! Lanzarote?” No dia seguinte, quando levantamos, veio a segunda reação típica de homem: “Ei, Pilar… Sabe que essa ideia de ir a Lanzarote não é tão má assim?” Só faltou a terceira atitude tipicamente masculina, de chegar dizendo: “Pilar, sabe que estive pensando aqui e poderíamos nos mudar para Lanzarote?”. Só faltou essa! José se alegrava de não ter caído nela.

Como mulher, quais foram – e quais são – seus maiores desafios? Ainda há muita coisa que queira conquistar? Quero fazer a Declaração Universal dos Deveres Humanos, e morro tranquila se fizer isso. Também preciso terminar de organizar o legado e os papéis de Saramago, que ainda não estão completamente em ordem. Fora isso, tenho projetos de que gostaria de participar mais, colóquios, parcerias com Universidades. Não faço muita distinção entre vida e trabalho. É tudo a mesma coisa! Sou jornalista, sou ativista e cuido do legado Saramago 24 horas por dia.

O que diria, se pudesse, para todas as mulheres do mundo? Sabe, eu adoraria ser Secretária Geral das Nações Unidas (ONU). Acontece que ninguém se deu o trabalho de me convidar. Se, em algum momento, eles se animarem a fazer o convite, diria a todas as mulheres que não aceitem com resignação o papel que a sociedade patriarcal nos impõe. Que não nos conformemos e que não tenhamos medo. Que escrevamos nossa história, e tenho certeza de que podemos escrever uma bela história, com todas as contradições que ainda existam.


 

É hora de escolher fotos. Sentada no chão, com perna de índio, Pilar mostra álbuns de família e folheia com atenção uma entrevista antiga de Saramago. Depois, solta uma gargalhada: “¡Por Diós! Fui eu que o entrevistei e não me lembrava. Vou pedir para republicarem na Blimunda!” [revista digital da Fundação Saramago].

Ela também posa para retratos e conversa alegremente, fazendo um catwalk para a câmera no último instante, como quem diz “agora chega!”. A entrevista que não começava de jeito nenhum dá muita pena de terminar, mas Pilar me tranquiliza: vamos falando!

Créditos

Imagem principal: Luiza Sahd

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